Sábado, 14 de Outubro de 2006

IRRITAÇÃO DE DIA DE MANIF

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Evidentemente que Luis Carmelo é um homem de liberdade e pela liberdade. Mas, como homem de cultura, tem obrigações especiais na lide com as palavras sobre a liberdade, particularmente sobre a liberdade dos outros.

 

Num post sobre a manif de quinta feira, organizada pela CGTP/PCP, Luís Carmelo narra um episódio de incomodidade sua provocada pelos transtornos provocados pela marcha dos manifestantes pelas ruas de Lisboa. Até aqui tudo bem. Mas, naquilo que suponho ser um arremedo infeliz de irritação devida ao transtorno pessoal, acaba por fazer uma proposta de espantar: Por que não se enquadra, nestes casos, a mais do que legítima liberdade de expressão num dos estádios de Lisboa? “.

 

Nota-se que a posição de Luís Carmelo conjuga uma irritação pessoal com uma outra, a de antipatia política para com a natureza e objectivos desta manifestação. As duas são legítimas. E tanto como são as “irritações” exprimidas pelos manifestantes para com o governo. Não mais nem menos.

 

Uma manifestação pública, desde que legal, tem de ser realizada na via pública, cumprindo um itinerário previamente comunicado às autoridades. Uma manifestação pública realizada na via pública inevitavelmente incomoda os utentes da via pública incluída no percurso da manifestação pública durante o seu decurso. Sendo, como no caso, altamente e antecedentemente publicitada, só os muito distraídos ou azarados se enfiam, em trânsito, no sítio errado na hora errada. O que não invalida que restem ainda inconvenientes resultantes do efeito de escala do congestionamento de trânsito, sobretudo se o número de manifestantes for numeroso (como foi o caso). Mas o mesmíssimo acontece nas greves de transportes, numa greve de carteiros, numa greve de trabalhadores do sector de energia, etc. É da natureza dos efeitos destes exercícios de “mais do que legítimas liberdades”.

 

Aparenta ser um tique autoritário e historicamente regressivo defender a imposição de medidas condicionantes, para além das legalmente estabelecidas, ao uso de qualquer “mais do que legítima liberdade”, em que se incluem as de manifestação e de greve. Querer enfiar manifestantes para dentro de um estádio de futebol, para que não incomodem os não manifestantes, é pretender restringir o direito à manifestação, substituindo-o pelo direito ao comício. Para mais, e os símbolos contam muito, essa de enfiar os que protestam em estádios de futebol traz sinistras lembranças (como a da foto tirada no Estádio Nacional de Santiago do Chile em 1973…).

 

Declaração de interesses: Na quinta-feira passada não pertenci ao número dos que incomodaram a vida do Luís Carmelo. Voluntariamente, não fui manifestante. Por razões de análise política muito aparentadas às invocadas pelo blogo-companheiro incomodado. Mas daqui a achar que as manifestações permitidas devem ser aquelas com que se concorda… vai a distância de conceitos diferentes sobre o exercício das liberdades, a nossa e as dos outros.

 

 

 

Resposta de Luís Carmelo, enviada por mail:

 

"Acabo por estar de acordo, confesso. O que disse, disse-o a quente, mas é evidente que não há conceitos que me afastem dos que subjazem ao seu texto crítico que aplaudo (com excepção para a infeliz homologia com a subliminaridade fascista do Chile de 73). Aprecio a liberdade de liberal.”

Publicado por João Tunes às 01:17
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