Sábado, 14 de Outubro de 2006

COMO LIDAR COM A TURQUIA? (2)

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Sobre este post, o Pepe comentou com um bem elaborado texto-síntese de exercício do “contraditório” e que passo a transcrever:

 

“Claro que o futuro lhe pode dar razão, mas parece-me que a experiência democrática turca tem tido desenvolvimentos animadores, principalmente a partir do momento em que o actual partido está no poder. A contradição da república laica e "ocidental" ser defendida/imposta pelos militares sempre foi um elemento perturbador, podendo degenerar rapidamente em ditadura (como já aconteceu mais que uma vez) ou ser posta em causa pelas tendências pró-religiosas que instrumentalizassem o populismo democrático por oportunismo táctico. Ora, a evolução destes últimos anos tem sido positiva: os militares toleram os religiosos no poder, estes fazem da integração na Comunidade Europeia um objectivo prioritário. Entendo que existem razões para a Comunidade manter a Turquia na rota da integração, colocando obviamente as condições que são essenciais e não sujeitas a negociação, ou seja, aquelas que são comuns aos outros países que têm entrado na Comunidade. Provavelmente, estas exigências serão o álibi para os "religiosos" e os "nacionalistas" poderem pressionar os religiosos/nacionalistas puros e duros a aceitarem as reformas ou sujeitarem-se à marginalização política. Que isso levará uma década não me custa a crer, porém todos ganharíamos com um processo tranquilo, evolutivo e irreversível. Nesse sentido, a iniciativa francesa surge como uma provocação de certos sectores para boicotar esse processo, já que não vejo porque há-de a França colocar o tema do genocídio arménio ao nível da acção criminal. Como iniciativa parece-me original, aparentemente gratuita e favorável às reacções dos tais religiosos/nacionalistas puros e duros que agradecem a provocação.”

 

Vamos por partes.

 

No que respeita aos argumentos favoráveis à integração da Turquia na UE para que a “intolerância turca” não marque pontos perante a “tolerância turca”, seja equilibrado o jogo de partilha interna de poderes entre militares, religiosos, laicos, modernos e arcaicos, com efeitos num eventual desafogo geo-estratégico favorável e amortecedor nos conflitos democracias-islamismo, não só não os aceito como medida desigual/especial de adesão europeia como entendo que o oportunismo subjacente (também paternalismo?), já precedentemente revelado com a pertença da Turquia à NATO, faz não só baixar a bitola do “comportamento europeu” como se revela discriminatório perante outras nações que estão de quarentena à espera da entrada na UE. Com os mesmos critérios, mesmo sem necessidade de tanta condescendência, porque raio a Ucrânia, a Sérvia e a Croácia (que em todos os aspectos, pesem embora as suas imperfeições internas, estão mais próximos do funcionamento das democracias europeias consolidadas) hão-de merecer tratamento mais exigente que os defendidos para com a Turquia? E segundo critérios geo-culturais-políticos mais mitigados do conceito de Europa, porque será que Israel, Egipto, Tunísia e Marrocos devem ficar atrás na fila relativamente à Turquia? Em todos estes exemplos dados, metê-los “dentro da UE” não preenchia a mesma estratégia, “melhorando-os”, que a pretendida para com a Turquia? A grande diferença, como claramente o disse Pacheco Pereira, não assenta, afinal, numa especial condescendência pró-turca por causa do exército turco e o papel de “Legião Estrangeira” que ele pode desempenhar face ao islamismo agressivo? Parâmetro que, aliás, sempre justificou a sua entrada na NATO e, além de ser um argumento de elogio ao militarismo que repugna como “valor europeu”, lembra outro triste e sombrio exemplo histórico – o da utilização (massiva e decisiva) por Franco para ganhar, na guerra civil de Espanha, a “cruzada” do catolicismo contra a democracia, dos “mouros muçulmanos” transportados de Marrocos.

 

Quanto à iniciativa parlamentar francesa do projecto de lei de penalizar a negação do genocídio dos arménios, concordo que ela vale pelo seu valor simbólico. Muito discutível, de facto, esta iniciativa dos deputados socialistas franceses. E, indubitavelmente, mais provocatória que consistente. Também comportando o risco de desencadear generalizações e extensões de tipo paranóico. Tanto que é quase certo que ela não vai passar nos seguintes processos de homologação (pelo Senado e pela Presidência da República). Neste domínio, convém, no entanto, ter em conta dois factores atenuantes e parcialmente justificativos – primeiro, é um gesto de honra e homenagem perante as centenas de milhares de descendentes da diáspora arménia que se refugiou em França em fuga do genocídio pelos turcos; segundo, esta lei essencialmente provocatória, por absurda, evidencia outro absurdo homólogo vigente e que os círculos pró-turcos tendem a esquecer ou fingir que esquecem (o célebre artigo 301 do Código Penal turco que pune com prisão quem, na Turquia, ofender a “identidade turca”, ou seja, lembrar os genocídios e perseguições contra arménios, curdos e cipriotas).

 

Escuto.

Publicado por João Tunes às 00:04
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7 comentários:
De Vítor Sousa a 14 de Outubro de 2006
Caro João, nunca poderia subscrever a proposta viabilizada pelo Parlamento Francês, atinente às medidas punitivas decretadas contra quem negar o genocídio arménio, pelos turcos. O mais recente Nobel da literatura enfatizava, com acuidade, o paradoxo que esta lei geraria, já que ela impede a discussão pela imposição da unifomidade. Apesar de não concordar com semelhantes leis que levaram à condenação daquele abjecto revisionista irlandês - que se apresente como Historiador -, as informações de que dispomos blindam o diagnóstico: O Holocausto é indubitável. Assim, os efeitos decorrentes da castração da liberdade não são tão deletérios como os que se verificariam com a promulgação da lei francesa.
Como alegava o Nobel, agora que se começa a florescer a discussão em torno do eventual genocídio arménio, a lei francesa asfixia quem dele discorda. Um dia, num texto potenciado pela polémica dos cartoons e do "historiador" irlandês, escrevi que o excesso de leis constitui um sintoma de doença. Pela "Liberdade", as leis cercam-nos. E prendem-nos.
De João Tunes a 16 de Outubro de 2006
Sem necessidade de "lei", aqui está um não subtil revisionismo: falar-se de "eventual genocídio" a propósito da chacina de milhão e meio de arménios (por o serem)... A Irlanda já chegou à Madeira? Abraço, caro Vitor.
De Vítor Sousa a 16 de Outubro de 2006
Não esperava esse seu cautério. Reportando-me ao "eventual genocídio", não pretendia opinar. Antes, enfatizar a discrepância opinativa que ainda enreda esta problemática. Se solicitar a minha opinião, reconheço, sem rodeios, que a hipótese de genocídio é quase insofismável. Todavia, como não não me amancebo com a leviandade, há uma pergunta que suscita dúvidas: A exemplo de Hitler em relação aos judeus, terá Ataturk activado a "solução final" em relação aos arménios? A questão não deriva do meu cepticismo. Antes, decorre da minha ignorância na matéria. Mea culpa.

Acreditando, porém, que a Turquia aspirava à erradicação dos arménios, continuo a discordar da proposta de lei francesa.
Caro João, essa alusão mordaz à Madeira é motivada por que factor? Não quero destrinçar descriminação. Não me parece plausível rebatar um seu argumento recorrendo à sua naturalidade.

Um abraço.
De João Tunes a 16 de Outubro de 2006
Calma, caro Vitor, não se amofine. Sobre o genocídio de arménios, pode consultar este (http://en.wikipedia.org/wiki/Armenian_Genocide) e outros sites (o google indica muitos). A alusão mordaz à Madeira foi de sua boleia por em vez de referir o nome do historiador "revisionista" referi-lo como sendo "irlandês" (como se a origem de nascimento fosse argumento substantivo sobre o quer que seja). Por mim, o único madeirense que não estimo é o Jardim. Todos os outros acho que são bons rapazes. E é para assim serem que os "cubanos" lhes pagam. Já quanto aos irlandeses, não me estou a lembrar de uma única excepção. São fixes. Abraço.
De Vítor Sousa a 16 de Outubro de 2006
Então os madeirenses são venais, convertidos em "bons rapazes" porque "subornados" - "pagos", como eufemismo - pelos "cubanos"? Tal como optou o caro João em relação à alusão anódina ao "irlandês", limito-me a explorar possibilidades de interpretação.

Recorri à nacionalidade do "historiador" por não me recordar do seu nome. Não poderia, como é óbvio, estigmatizar os irlandeses devido à deturpação da História, fomentada por um dos seus membros. O mesmo espero que suceda em relação à Madeira, jardim que não é do Jardim.

Um abraço.

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