Quarta-feira, 31 de Março de 2004

SOBRE O MITO DA SENSUALIDADE AFRICANA

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Um dos mitos sexuais correntes é o de uma sensualidade africana que seria intrínseca e única e que é sobretudo dirigida sobre a mulher negra ou mulata. Segundo esse mito, as africanas teriam uma sensualidade congénita e à flor da pele, em contraponto com as europeias (estas seriam mais cerebrais, mais contidas e mais frias).

Nas minhas experiências de vivências esporádicas em África pude ver como este fenómeno é vivido por grande parte dos europeus lá situados e interessou-me a sua percepção. Até porque são eles os transmissores do mito.

Em Maputo, em Luanda, no Mindelo e na Praia, tive acompanhamentos e incentivos adequados para conhecer os caminhos da tal sensualidade especial da negritude feminina. Aliás, este tipo de ronda pela sensualidade africana faz parte do cardápio infalível da arte de bem receber o patrício macho.

Vi homens, mulheres e casais com a sua vida afectiva normalizada que olham para o folclore sensual com sorrisos condescendentes.

Mas vi, sobretudo, uma enorme legião de desprotegidos de afectos isolados em África, com dinheiro para gastos, a consumirem uma sensualidade proposta, oferecida a troco de muito pouco mas sempre disponibilizada a troco de alguma coisa.

Vi directores gerais de grandes empresas europeias a babarem-se com a lascívia representada na dança de jovens adolescentes à procura de algo que lhes matasse a fome ou lhe desse acesso à satisfação de adornos ou vestuário.

Não me esqueço da imagem de um director português de uma marca de automóveis japoneses em Luanda, um tipo de mais de sessenta anos de idade, pouco passando do metro e meio de altura e com uma careca luzidia que esgotava as noites a dançar frenético, escolhendo sempre, como parceiras, as africanas mais altas. Depois, a troco de pagar bebidas e dar gorjetas, o director endinheirado, careca e dançarino, metia o nariz dentro do decote africano, fincava as mãos na bunda da moça e rodopiava toda a noite em meneios sensuais como se fosse um autómato teleguiado. Parecia uma cena de um filme de Fellini para o caso de ele ter filmado em África.

Estive numa discoteca in em Luanda, onde havia uma sequência de blocos divididos em duas partes. Na primeira, as moças (e estamos a falar de grupos onde dominavam os treze a dezasseis aos de idade, as chamadas “catorzinhas”), dançavam frente a um enorme espelho em meneios competitivos. Depois de se exibirem, as mocinhas sentavam-se e passava-se à fase das danças por pares. Então, os europeus iam direitinhos àquelas cujos meneios mais lhes tinham agradado.

Constatei, em Maputo, a facilidade com que jovens que trabalhavam em restaurantes se deixavam arrastar para ganhar extras a fazer companhia de dança em discotecas. E ali ouvi, com os cabelos em pé, europeus a gabarem-se que se conseguia uma adolescente africana pelo pagamento de um frango assado.

Indignei-me com a condescendência da burguesia negra para com estes fenómenos que não representam mais do que uma oferta de prostituição de facto ou mitigada para com os antigos e novos colonos. Percebi rapidamente porque é que as nomenklaturas da Frelimo e do MPLA fecham tão candidamente os olhos a este fenómeno que reproduz o pior daquilo que foi o colonialismo (em termos de exploração sexual das jovens africanas). É que grande parte dos velhos chefes da guerrilha e os generais encartados do sistema gostam do mesmo e não perdem ocasião de se exibirem pelas noites de Luanda e de Maputo com uma nova “catorzinha” à sua trela. Como em tudo, os frelimistas e o mepelistas persistem em imitar e prolongar o pior que o colonialismo legou àqueles desgraçados povos. Este é o drama. O resto é o mito.

Substitua-se sensualidade por fome e encontramos o código que desmonta a lenda da exaltada sensualidade da mulher africana.
Publicado por João Tunes às 13:08
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