Quinta-feira, 12 de Outubro de 2006

COMO LIDAR COM A TURQUIA? (1)

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Independentemente do resultado ainda não concluído no debate sobre se a Turquia faz ou não parte da Europa e se, face a outros países candidatos, esta adesão deve ser uma prioridade no alargamento da União, é indubitável que a Turquia está ainda longe de preencher os padrões mínimos de respeito pelos direitos políticos e humanos. As questões arménia, curda e cipriota ainda são pedregulhos suficientes para encravar a porta de entrada. E avulta, entre os anacronismos maiores da ordem jurídica turca a existência de leis que prevêem a punição, sob a figura de crime contra a “identidade nacional”, o levantamento dos genocídios, ocupações e opressões contra as referidas minorias. Tanto mais que estes tabus históricos e actuais são uma forma tirana de lidar com a gestão da memória e de justiça para com os massacrados e espoliados.

 

A Turquia não devia contar com a benevolência europeia para com os seus anacronismos criminosos a troco da pressa ansiosa de se ter ao serviço e sob controlo do Ocidente um país muçulmano populoso e poderoso (sobretudo ao nível militar) que sirva de tampão da progressão do radicalismo islâmico agressivo. Tal negócio, sem uma profunda alteração na sociedade e na política turcas, representaria uma traficância de interesses estreitos com consequente abaixamento insustentável do nível da exigência política, sobretudo quanto a direitos e deveres, dos princípios da civilização europeia e prostituição dos seus princípios democráticos. Bastar que a Turquia seja o “menos mau” entre os países muçulmanos é baixar a fasquia das exigências democráticas ao nível das canelas para que qualquer, mesmo o mais enfermo, possa saltar.

 

A forma benévola e laxista como vastos sectores, sobretudo na faixa da postura defensiva-medrosa face à agressividade islâmica, queriam enfiar a Turquia dentro da União Europeia, teve agora, em simultâneo, duas respostas que talvez ajudem a meditar e exercitar o bom senso.

 

Um destes acontecimentos foi a aprovação pela maioria dos deputados franceses de um projecto de lei que prevê penalizações para quem negar o genocídio arménio pelos otomanos na I Guerra Mundial (1,5 milhões de mortos entre 1915 e 1923) seguindo uma iniciativa parlamentar dos socialistas franceses. Trata-se, independentemente da sua aprovação ou não pelo Senado e da homologação presidencial, de uma retaliação merecida e exemplar perante a anacrónica ordem jurídica turca que pune a referência pública à chacina de arménios e curdos.

 

Em simultâneo, a Academia Sueca atribuiu o Prémio Nobel da Literatura deste ano ao escritor turco Orhan Pamuk (na foto), ele próprio um perseguido na Turquia devido à coragem com que defende o convívio tolerante entre civilizações e crenças diferentes e o fim da maldição que tornou interdito o levantamento da memória das chacinas de arménios e curdos.

 

Confio que estes dois acontecimentos, exemplares e oportunos, ajudem a pensar os turcófilos apressados.

Publicado por João Tunes às 17:38
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2 comentários:
De RN a 13 de Outubro de 2006
Estou de acordo com o meu amigo Tunes em tudo. Com excepção das coisas em que não estou. (La Palisse? Tomaz. Américo Tomaz!!) Ainda um dia hei-de ganhar paciência para falar da Turquia e pôr a ridículo todos estes argumentos turcofóbicos. Assim Nossa Senhora me ajude. Para já, a esta hora da noite, acho ridícula essa projectada lei que quer penalizar alguém que negue genocídios.
Bom. Que se lixe, vai um abraço.
De pepe a 13 de Outubro de 2006
Caro João
Também concordo com tudo o que escreve à excepção da
tónica pessimista e da referência à iniciativa francesa. Claro que o
futuro lhe pode dar razão, mas parece-me que a experiência democrática
turca tem tido desenvolvimentos animadores, principalmente a partir do
momento em que o actual partido está no poder. A contradição da
república laica e "ocidental" ser defendida/imposta pelos militares
sempre foi um elemento perturbador, podendo degenerar rapidamente em
ditadura (como já aconteceu mais que uma vez) ou ser posta em causa
pelas tendências pró-religiosas que instrumentalizassem o populismo
democrático por oportunismo táctico.
Ora, a evolução destes últimos
anos tem sido positiva: os militares toleram os religiosos no poder,
estes fazem da integração na Comunidade Europeia um objectivo
prioritário .
Entendo que existem razões para a Comunidade manter
a Turquia na rota da integração, colocando obviamente as condições que
são essenciais e não sujeitas a negociação, ou seja, aquelas que são
comuns aos outros países que têm entrado na Comunidade.
Provavelmente,
estas exigências serão o álibi para os "religiosos" e os
"nacionalistas" poderem pressionar os religiosos/nacionalistas puros e
duros a aceitarem as reformas ou sujeitarem-se à marginalização
política.
Que isso levará uma década não me custa a crer, porém todos ganharíamos com um processo tranquilo, evolutivo e irreversível.
Nesse
sentido, a iniciativa francesa surge como uma provocação de certos
sectores para boicotar esse processo, já que não vejo porque há-de a
França colocar o tema do genocídio arménio ao nível da acção criminal.
Como iniciativa parece-me original, aparentemente gratuita e favorável
às reacções dos tais religiosos/nacionalistas puros e duros que
agradecem a provocação.

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j.tunes@sapo.pt


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