Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2004

O MISTÉRIO DE UMA FOTOGRAFIA

É natural. Julgo mesmo que acontece a todos. Rapidamente perdemos a memória dos primeiros tempos da infância. Dessa fase, ficará um ou outro flash mas terá de ser muito marcante para resistir à erosão do tempo. Num breve exercício, qual a idade mais recuada em que nos recordamos de nós próprios? Talvez a fase do início escolar e mesmo assim um ou outro breve episódio.

Pouco ou nada me lembro dos meus primeiros anos de vida. Por vezes dava comigo a olhar as fotografias guardadas de quando era muito pequeno e perguntava-me: mas este puto sou (fui) eu? E nunca me conseguia rever na personagem retratada.

Entre as fotografias que me guardaram de quando era mais catraio, havia uma (não sei onde pára) que me despertava especial curiosidade. Teria os meus quatro anos. O ambiente era campestre, tinha uma flor na mão e usava um chapéu de palha para me proteger do sol. O meu riso foi aberto para o fotógrafo e devia ser por cauda da novidade porque não me lembro de outra fotografia em que estivesse tão risonho.

Mirei e remirei essa fotografia vezes sem conta. Achei sempre que tinha ficado muito bem e que nunca tinha voltado a ser tão bonito. Melhor, ficou cá para mim a certeza de que, na altura da fotografia, foi a única vez em que a beleza me foi generosa.

Entretanto, a minha atracção por aquela fotografia tinha ainda qualquer coisa de misterioso que me prendia a ela. Durante anos, volta e meia, vasculhava no albúm familiar à procura dela. Tornou-se quase uma obsessão. Um dia, teria os meus catorze anos, percebi num instante o que me levava a perscrutar o raio da foto. Desvendei o raio do mistério. É que a fotografia estava excelente mas … o fotógrafo tinha-me cortado os pés. Não entendi como é que estando tão bonito, o fotógrafo (e meu tio) tinha feito aquele enquadramento desajeitado e logo ele que se ufanava de ser artista na arte. Resolvi exprimir a minha indignação e lavrei o meu protesto verbal. Mas o artista tinha as suas razões. O meu tio explicou-me que me enquadrara sem pés porque eu estava descalço por ainda não ter ganho estatuto social para calçar sapatos ou chinelos que fosse. Percebi a boa intenção mas achei mal que a vergonha (do fotógrafo, não a minha) tivesse impedido que a melhor de todas as minhas fotografias me mostrasse incompleto.

Desde que o mistério da tal fotografia foi desvendado, fiquei cá para mim com a ideia de que sou um tipo com azar: na única vez em que fui bonito, cortaram-me os pés por não haver dinheiro para comprar um par de sapatos!
Publicado por João Tunes às 00:13
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2 comentários:
De Joo a 26 de Fevereiro de 2004
Obrigado, estimada Lualil. Quanto ao sorriso, faz-se o que se pode. É por fases. Já esteve melhor. Já esteve bem pior. Saudação amiga.
De lualil a 26 de Fevereiro de 2004
Há textos que nos deixam emocionados de haver neles tanta beleza... É este o caso! certamente aquele sorriso ainda hoje existe dentro daquele (e desse)menino bonito de pés descalços!!
beijos

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