Domingo, 28 de Março de 2004

PENSANDO SOBRE A AMÉRICA E O ANTI-AMERICANISMO

iraq_12[1].jpg

As Administrações americanas deram, dão e continuarão a dar (com Bush ou com Karry) motivos de sobra para desagrado e revolta. O típico comportamento imperial dessas Administrações não poderia dar outro resultado. O fenómeno da aceleração da globalização económica e o carácter unipolar do domínio, ajudam à festa

Passarão ainda muitos anos até que as relações entre a América e os outros países, regiões e continentes se façam numa base de respeito e reciprocidade. Assim, vão perdurar os sentimentos fragmentados entre a desconfiança e rejeição e a submissão pelo encosto ao mais forte.

Por exemplo: Enquanto as Administrações americanas persistirem em não “domesticarem” o belicismo israelita, elas não têm hipótese de serem aceites no mundo árabe.

Já quanto à Europa, o problema parece-me diferente. Independentemente do que façam as Administrações, o sentimento anti-americano está de tal forma enraizado entre os europeus que o problema se resumirá sempre a escolher o pretexto para a motivação da alergia.

Razões objectivas: Porque as empresas americanas são mais fortes que as empresas europeias. Porque a tecnologia desenvolve-se a uma velocidade nos EUA que não tem paralelo na Europa bem como a incorporação das novas tecnologias em produtos vendáveis. Porque os EUA têm mercados e acesso a matérias-primas em grande superioridade. Porque os EUA reforçam permanentemente sua agressividade competitiva pela incorporação de novas levas de imigrantes ávidos de ganharem dinheiro em curtos espaços de tempo. Porque o marketing é americano ou pouco o é.

Razões subjectivas: As actuais gerações ainda não fizeram o luto da rivalidade bipolar EUA/URSS e do desaparecimento do comunismo. Sem Marx, nem Lenine, nem Trotski, nem Mao, sem a crença redentora num “futuro melhor”, sem alternativas de voltar a dar o primado do social sobre o político e o económico, o que resta? Sentimentos de perdas de esperança, de valores, de ideais e de defesa. Enfim, sentimento de perda de futuro. Caído um dos pólos de “governo do mundo”, sobra o outro. E que outro! Vitorioso, forte, poderoso, agressivo, guerreiro. Como admirar que o Anti-americanismo seja o santo e a senha dos órfãos da esperança? Em vez de um ideologia redentora, fica essa ideia simples e ressentida: a culpa, toda a culpa, está na América. Não é preciso pensar mais, questionar mais, informar mais. Foram-se as ideologias, sobrou a ideia, e a preguiça, de um partido simples e garantido. Se o Bem não existe nem parece que venha aí, então fiquemos pelo ódio ao Mal. E o Mal tem nome. Chama-se América, ponto final.

O problema maior é que, enquanto esta obsessão (e esta aversão) for a Ideia que resta aos europeus e que os guia, a América será sempre mais forte e dominadora. A dualidade tenderá a permanecer: haverão sempre manifes anti-americanas, a opinião pública e os parlamentos escutarão milhares de denúncias sobre o abuso americano, o sentimento de aversão perdura no cidadão comum, mas (MAS) a economia continuará a esmagar o social e o político e as regras e grandes decisões da economia continuarão a ser americanas. Perante isto, aos americanos só lhes resta terem poder de encaixe para lidarem com gentes que não gostam deles, quanto ao resto, eles (e os seus neo-liberais espalhados pelas sete partidas) continuarão na maior.

A alternativa ao anti-americanismo que prolonga o domínio americano estará (estará mesmo?) na construção de projectos políticos que conciliem o social com o económico (assente num modelo de desenvolvimento sustentado), construindo uma alternativa ao modelo americano de poder empresarial monárquico e do primado absoluto da finança sobre a economia e da economia sobre a sociedade. Este já foi o projecto social-democrata, perdido com a conversão acelerada dos sociais-democratas ao liberalismo. Haverá força para o retomar e dar-lhe vida política? Tenho dúvidas mas ainda me sobra uma réstea de esperança.
Publicado por João Tunes às 02:06
Link do post | Comentar
4 comentários:
De Joo a 28 de Março de 2004
Obrigado pelas vossas visitas e pelos vossos contributos
De Carlos a 28 de Março de 2004
Uma análise excelente, reportando aquilo que é o sentimento do eixo França-Alemanha a que os EUA chamam de velha europa (velha de sabedoria...).
Análise feita sem cair no anti-americanismo, mas tentando que a Europa tenha uma voz de paridade com os Estados Unidos.
De Antonio Dias a 28 de Março de 2004
É... haverá esperança enquanto a direita cega não destruir tudo e todos. Vejam-se os exemplos por esse Mundo fora.
De Demter a 28 de Março de 2004
Li atentamente...mas vamos resumir: ainda bem que tem esperança... Grande abraço!

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO