Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006

UM LIVRO INEVITÁVEL

000fqeps

Como vão distantes os tempos das grandes mudanças interiores que foram corroendo o exterior dessa coisa medrosa e paroquiana que era um Portugal a mudar da canga de Salazar para a de Marcelo Caetano. Uma mudança que se resumiu a mudar nomes às mesmíssimas velharias que arrastavam os cabrestos do atraso, do pudor beato-ímpio, da guerra de morte e estertor imperial como destino fatal, do bolor do afastamento da marcha do mundo. E, nesse quadro, a velha Universidade de Coimbra parecia fadada, como sempre, a representar o papel do atavismo soberbo e ritualista a perpetuar o cotão das capas e batinas das novas, mas nascidas velhas, elites regimentais. Tudo Coimbra tinha para tal fim – um sistema arcaico continuado por lentes que aprenderam com lentes, uma sociedade urbana parada na destrinça medieva entre doutores e povinho, os rituais alienantes das fitas, repúblicas, copos e praxes, um controlo apertado sobre usos, costumes e a natureza permitida aos desvios dos excessos, o recrutamento de vagas de académicos na imensidão parada das grandes e pequenas aristocracias espalhadas nos povoados beirões formatados por párocos, regedores e pequeninos notáveis na pose e na posse. A tradição, a imutabilidade, em que a única irreverência permitida era a do passadismo, destinavam Coimbra, egocentrada na sua vetusta Universidade, a ser o prolongamento mais prolixo de uma elite perpetuadora da ordem fascista-clerical. Até porque não tinha sido impunemente que Salazar e Cerejeira tinham de lá descido, carregados da inteligência manhosa desenvolvida no bafio, para segurarem os fios da ordem no mando e no pensamento autorizado.

 

Foi preciso que o mundo mais as ideias muito mudassem, tanto que conseguisse esfarelar o anacronismo, para que Coimbra mudasse e ajudasse, e muito, a fazer implodir a claustrofobia coimbrã. E quando a mudança ali chegou, contraditória mas impante, o regime tinha que ter os dias contados, pois quando o regime perdesse Coimbra perdia o país. E quando o vento da rebeldia invadiu Coimbra e dela tomou conta, todas as carapaças vetustas, os hábitos hiper ritualizados, a ossatura conservadora com que a Universidade construiu a sua fortaleza de trono sobre o ser e o saber para conservar o ter, o arcaico tornou-se revolucionário. Algumas “repúblicas” transformaram-se em centros conspirativos, as estudantes fintaram as freiras vigilantes, os rituais académicos passaram a meios de contestação, a concentração geográfica da população universitária um meio eficiente de mobilização e agitação das massas revoltadas, subverteu-se facilmente a longa prática histórica da criatividade da impunidade aristocrática das fantasias de capa e batina. Depois, a brutalidade da resposta desesperada do regime em vista da perspectiva indigesta de “perder Coimbra”, fez o resto. Os anos sessenta do século passado contaminaram Coimbra e, depois de 69, Coimbra foi ganha ao regime pela força da mudança. Como certo e previsto, o regime pouco tempo mais aguentou depois de perder Coimbra. Assim, nesta exacta medida, a “crise académica” em Coimbra, empurrada pela irradiação da rebeldia lisboeta, foi quem tocou a “cabra” no dobre de finados do regime obsoleto e intratável.

 

A mudança em Coimbra implicou mudanças profundas e paralelas no estar dos seus juvenis académicos transformados em rebeldes com gostos revolucionários. E a maioria deles tinham sido enviados para lá na esperança de prolongamento de pequenos, médios e grandes privilégios. Foi um “virar o mundo de patas para o ar” essa transformação de tantos estudantes destinados à perpetuação das elites de conservação da ordem estabelecida em rebeldes com navalhas apontadas às virilhas da essência do regime. Foi obra. Grande obra.

O livro recentemente editado pela “Afrontamento” e que contem sete entrevistas-conversas com activistas académicos dos anos sessenta em Coimbra (*), é, conforme titulei, um livro inevitável entre as obrigações de leitura. Primeiro, porque impõe a importância da história oral como registo da memória. Segundo, concentra-se num leque plural de activistas de “segunda linha”, logo desinibidos quanto à importância dos protagonismos maiores em fama e permitindo fugas aos estereótipos e mitificações dos balanços políticos. Terceiro, ao abordarem-se os trajectos posteriores dos entrevistados, o registo é enriquecido no conhecimento dos tantos e variados caminhos da esquerda lusitana que se foi construindo desde o estertor do fascismo até os dias actuais. Quarto, beneficia do facto de que quem entrevista foi actriz cúmplice dos acontecimentos vividos e rememoriados.

 

A não perder a leitura. Porque inevitável, digo eu.

 

(*) – “Anos Inquietos - Vozes do Movimento Estudantil em Coimbra (1961-1974), Maria Manuela Cruzeiro e Rui Bebiano, Edições Afrontamento. Colectânea de entrevistas com Eliana Gersão, Fernando Martinho, Carlos Baptista, Pio de Abreu, Fátima Saraiva, José Cavalheiro e Luís Januário.

Publicado por João Tunes às 16:06
Link do post | Comentar
1 comentário:
De MCP a 13 de Outubro de 2006
É obra! Que belo texto sobre a cidade em que, por esses anos, eu nasci!

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO