Terça-feira, 3 de Outubro de 2006

FERIDAS COLONIAIS E ALHOS COM BOGALHOS

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Qualquer Estado de bem paga aos seus servidores. Independentemente dos serviços prestados desde que contratados. E se acumula uma dívida para com uma parte dos seus servidores, essa dívida não caduca e transmite-se de regime em regime.

 

Por vezes, os Estados compram mercenários, traidores, delatores para servirem os seus interesses. Mesmo assim, quem é eticamente responsável por este recurso, acima de todos, é o mandante. Como aconteceu quando o governo Gonzalez, em Espanha se serviu dos mercenários assassinos do GAL para combater a ETA. Se os assassinos do GAL seriam sempre e apenas assassinos, ao serviço do que fosse, é inadmissível que um governo minimamente decente contrate assassinos para servir os seus desígnios, colocando-se ao seu nível moral. Os países que usam Legiões Estrangeiras fazem um contrato com gente que os servem para se limpar de um passado não confessável. Mas o contrato, como qualquer contrato, é para ser cumprido pelas partes. Quem contrata e quem é contratado.

 

Durante a guerra colonial (1961-1974) em África, serviram o exército colonial milhares de africanos que, traindo os seus povos, matando os seus, combateram ao serviço dos colonos. Sobre o peso e a responsabilidade destas traições, o julgamento compete aos povos traídos. Se entenderem julgá-los. Mas o Estado português tem um dever irrenunciável de protecção para com estes seus conjunturais servidores, como para qualquer seu servidor. No caso particular da Guiné-Bissau, há muitos antigos combatentes locais pelo lado colonial que, após a descolonização, vivem situações dramáticas de, sendo rejeitados pela nova ordem, não beneficiam de qualquer protecção do Estado colonial que serviram (e que implicou arriscarem as suas vidas ao serviço de uma bandeira). É uma situação que urge ser reparada e que envergonha o país cujo Estado tarda a corrigir o abandono e miséria em que se encontra uma parte dos seus servidores. Todas as vozes que se levantem contra esta ignomínia do Estado português são úteis e necessárias. Pois há que exigir a sua correcção imediata.

 

No entanto, mesmo uma boa causa não está livre de ter maus argumentos de apologia. Que prejudicam mais a causa do que contribuem para a levar a bom porto. Por exemplo, o post em que o Jorge Neto (um blogue que não me tenho cansado de enaltecer por nos trazer impressivamente a realidade guineense sofrida e bem sofrida) comete, a meu ver, um erro histórico ao comparar os antigos combatentes guineenses do exército colonial português, lutando contra o seu povo e pelo colonialismo-fascismo, com os soldados africanos que combateram pela França Livre contra a barbárie nazi-fascista na II Guerra Mundial (!):

 

Portugal tem no gesto da França uma oportunidade de corrigir uma injustiça. É uma obrigação que deve aos seus antigos soldados coloniais, que ficaram esquecidos no mato e hoje vivem, grande parte, na miséria. Como disse Chirac frente aos seus ministros, “a França teve um acto de justiça e de reconhecimento para com todos aqueles que combateram sob a nossa bandeira. Devemo-lo a estes homens, que pagaram com o seu sangue, e aos seus filhos e netos, muitos dos quais são franceses.” Sócrates pode inspirar-se nestas palavras, para um dia não ter que dizer, como disse Villepin, que “a reparação da injustiça é [será] tardia.”.

 

Em desacordo com o despropósito da comparação, caro Jorge Neto. E alhos misturados com bogalhos só pode servir em mercado informal de causas marteladas. Não uma causa a merecer justa e urgente reparação dos danos de falta de cumprimento contratual, no caso por parte dos herdeiros do mandante dos crimes coloniais. E como Estado só há um...

Publicado por João Tunes às 23:58
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2 comentários:
De JN a 4 de Outubro de 2006
Caro João,

Alhos e bugalhos são coisas diferentes, mas as dúas últimas sílabas são iguais. Percebo e aceito o seu ponto de vista. O que me preocupa não é a comparação, lógica, o argumento... mas as pessoas e a injustiça que sofrem. Enquanto portugues gostaria muito de ver feita justiça para com os soldados africanos. E isso continua a ser adiado. Sei que as situações são diferentes, mas guerra é guerra, qual seja ela. As "mazelas" de que combateu longe de casa contra nazis ou perto de casa contra irmãos são as mesmas. Um abraço,
JN
De Nuno Lopes a 6 de Outubro de 2006
Os soldados são historicamente mal tratados pelas pátrias que servem. Mesmo os soldados portugueses que por lá lutaram continuam a não merecer o "carinho" que o estado ainda dispensa a ex-pides.

Eu vivi na Guiné-Bissau entre 82 e 85, e mesmo sendo um miúdo na altura pude constatar a afeição que os guineenses tinham pelos portugueses. Os melhores colegas de escola que alguma vez tive foram os meus colegas na Salvador Allende, em Bissau.

Toda a situação na Guiné me entristece, e a evidente e completa falta de iniciativas do nosso país em relação à mesma é uma vergonha. Como antiga potência colonial, temos responsabilidades. A descolonização foi o que foi, mas pior tem sido a nossa história desde então.

Bom blog, João.

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