Quarta-feira, 23 de Junho de 2004

REFALANDO SOBRE LUIS FIGO

figo.jpg

No post que coloquei "Pensamentos à Figo", pretendi sublinhar o absurdo da acesso de estupidez que acometeu este notável atleta. Figo, em pungente conferência de imprensa, rejeitou críticas ao estado actual da sua performance desportiva, negando direitos de intromissão no "lugar de culto sagrado" do futebol a todos que fossem estrangeiros da profissão/arte, terminando com esse lancinante murmúrio de coerência em que dizia que ele "não falava sobre cinema ou pescas".

Não o colocando nos píncaros olímpicos (acho que há melhor, bem melhor), considero Luis Figo um excelente e fora-de-série futebolista. Mas, pelo seu desgaste (derivado em grande parte pelo seu enorme profissionalismo e entrega), Luis Figo entrou na fase descendente da sua carreira (como ele reconhece ao prever apenas mais dois anos de prestação desportiva). É a lei da vida. Como aconteceu a Paulo Sousa (já arrumou as botas) e está a acontecer a João Pinto, Fernando Couto, Rui Jorge e Rui Costa. Pelas suas características e posicionamento, Figo ainda pode contribuir para a Selecção mas a Selecção já não pode depender de Figo (pelo menos, na totalidade dos noventa minutos). Neste Euro, Deco, Costinha, Maniche e Cristiano Ronaldo são as chaves consistentes do domínio do meio-campo, contenção e armação do ataque luso. Como na defesa, é a defesa "base Porto" (o Miguel andará por lá mais pela velocidade de recuperação de terreno que por méritos defensivos, mais esse portento chamado Jorge Andrade que ocupa o lugar do mais que gasto Jorge Costa, restando esse enorme equívoco indecente e teimoso de Scolari a guardar a baliza e onde devia estar Baía).

O futebol é o que é, porque todos sabemos de futebol. Até eu. O facto de cada espectador ser um treinador e ter opinião sobre tudo é que permitiram que ele se tornasse tão popular e no maior espectáculo de massas. É isto que lhe dá proveito e proventos, tendo-o transformado na maior das indústrias do espectáculo. Ao estado a que as coisas chegaram, não sou dos que lamentam os milhões ganhos pelos "artistas". Até acho bem que eles sejam principescamente remunerados num espectáculo de enormes receitas e em que são eles os artistas. Mas tudo assenta na mesmíssima base: a maioria gosta de futebol, toda a gente entende de futebol, toda a gente fala sobre futebol, toda a gente tem opinião sobre futebol. Ninguém precisa de ler uma linha sobre futebol para fruir o espectáculo dos noventa minutos. Tanta "democraticidade" tem, inevitavelmente, que comportar rios de disparates pois, quanto a acerto, cada qual tem o seu.

Um artista não pode querer que se apenas fale deles quando está no auge ou quando joga bem. Negar o direito de crítica ou de comentário a "leigos" é negar a actividade em que se meteu. Fazê-lo, como Figo fez, é uma estupidez e um acto retardado de não saber fechar em beleza e com modéstia uma extraordinária carreira. E imaginemos o que aconteceria se idênticas atitudes tivessem sido assumidas pelos outros "grandes artistas" preteridos (Rui Costa e Fernando Couto). Foi, repito, uma estupidez de "prima donna" com rugas.

Em vez das palavras estúpidas que atirou, Figo podia falar sobre cinema e sobre a política para as pescas. Demonstrando que é um cidadão e como homem de interesses mais largos que o da arte em que é mestre e dos anúncios onde amplia o pé de meia à custa do fascínio que exerce enquanto futebolista. Dando a todos o direito de falarmos sobre futebol e sobre a performance de todos e cada um dos artistas da bola.

Foi isto que quiz sublinhar no tal post. Tentando demonstrar o absurdo da estupidez das palavras de Luis Figo.

O José Flávio Teixeira do Ma-Schamba, idólatra confesso de Luis Figo (tem esse pleníssimo direito), albergou, ontem, honras de transcrição ao meu post. O que só posso agradecer como é óbvio. Tanto mais que o fez acompanhar de dois simpatiquíssimos mails pessoais repletos de elegância, consideração, hedonismo e bom humor, onde até transparece uma certa ternura que ele terá por mim e que deve ser efeito do respeito que se tem por um "mais velho", que é coisa que depressa se aprende em África. Já aqui disse o quanto aprecio o Ma-Schamba, uma referência e objecto de culto cá da Bota. Apesar de ele estar bem à minha direita (o que só dá colorido aos nossos bate-papos), encanta-me ler os posts de José Flávio Teixeira, pela elegância elíptica e reinventiva da escrita, pelo rigor dos conceitos e da metodologia do conhecimento, pela imensa cultura e pensamento profundo que se respira em cada palavra escrita, pelo seu fair-play, porque traz o Moçambique de que tanto gosto através de um olhar lúcido, crítico e distanciado (o que é notável, porque ele vive lá). Pela sua parte, sei que esta Bota é sua visita diária (ainda hoje voltou a referir o Bota Acima a propósito da homofobia) e, de quando em vez (quando terá tempo) por aqui deixa o seu comentário, sempre elegante, considerante, cúmplice mas frontal, afinal amigo mesmo. Estou convencido que, se tivéssemos oportunidade de nos conhecermos pessoalmente, seríamos dois bons amigos para o resto da vida, desafiando o avanço da noite em intermináveis polémicas de estimação e na exacta medida em que o tinto alentejano fosse descendo na garrafa (funcionando como ampulheta da amizade sadia). É o que também tem de bom a blogosfera - enquanto não surge a oportunidade para o abraço, a partilha e a comemoração, vai-nos restando colheitas de boas amizades virtuais. Um abraço do tamanho da distância entre o Atlântico e o Índico, caro José Flávio Teixeira. Kanimanbo Mozambique!
Publicado por João Tunes às 14:55
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2 comentários:
De Joo a 23 de Junho de 2004
Saudação retribuída.
De MP a 23 de Junho de 2004
Terno e doce :)

Cordiais saudações

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