Domingo, 30 de Maio de 2004

LIÇÃO RURAL

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Teria os meus dez anos de idade e estava a passar férias grandes na aldeia transmontana.

Fiz as minhas amizades com os rapazes ladinos que não tinham sido arrancados da aldeia para serem grandes com estudos e boa vida. Eles sentiam-se honrados com o prestígio de terem na tribo um “menino de Lisboa” e eu ganhava a aprendizagem de conhecer os pássaros, os montes e os vales. Recatado num esconso da cidade, eu não tinha muito para lhes ensinar mas, em troca, eles tinham, e muito, para me cederem lições de malandrices camponesas que me metiam no corpo através de explicações feitas de prática praticada.

Um dia, eles marcam como função aventureira para a tribo infantil: uma colheita malandra de melancias a serem sacadas durante o rotineiro sono de sesta do guarda encarregado de prevenir furtos do apetecido melancial. O reconhecimento estava feito, a hora da sesta era sagrada e sempre no mesmo sítio. Imbuído dos meus valores citadinos, reagi e disse que nem pensar, não era gatuno de melancias ou do quer que fosse. A discussão arrastou-se acesa até que o líder do grupo, um miúdo atarracado que era relapso à escola mas mestre em condução de juntas de bois, encontrou o compromisso convincente. Quem apanhava as melancias eram eles, os da aldeia, eu só ajudava depois a levá-las. Como não queria desfazer-me dos meus companheiros nem deixar impressão acobardada da malta das cidades, acabei por concordar.

O guarda dormia de facto ou em simulação, deitado ao comprido numa sombra de um salgueiro. Eu mantive-me nas encolhas, enquanto os meus companheiros, pé ante pé, se aproximaram das melancias que eram enormes e apetecíveis. Repentinamente, o guarda dá um salto, agarra numa sachola que tem ao lado e inicia a perseguição aos predadores. A catraiada ágil a saltar terras, montículos, arbustos e muretes, desatou toda numa correria em múltiplas direcções para desorientar o perseguidor. Eu fiquei especado devido ao pânico e por falta de preparação para fugas daquele género. O guarda, vendo-me presa fácil, deita-me as mãos ao pescoço e resolve concentrar na minha pequenez o ajuste de contas, alçando a sachola. Expliquei-me com a única desculpa que me veio à cabeça desculpe, meu senhor, mas eu não vim para roubar, eu só vim para ajudar a levar. Salvei-me. O homem largou-me, desatou-se a rir agarrado à barriga, depois limitou-se a identificar-me e mandou-me em paz. Pirei-me devagar, com passo miúdo, para o guarda confirmar a minha inocência e paz de consciência. Demorou tempos e tempos que ouvi, nas minhas costas, as gargalhadas sarcásticas do guarda. Quando a tribo se voltou a reunir, contando eu como me safara da enrascada, lá tive de gramar novas gargalhas, agora em sons colectivos de escárnio agudo, dos meus companheiros de aldeia.

Este episódio ajudou-me a entender bem cedo que não há meios defeitos nem meias qualidades. Porque não existem meios valores. É-se isto ou aquilo, não adianta tentar desculpas para atitudes de meia tigela. Porque então, o menos que nos pode acontecer é cairmos no ridículo. E o ridículo, se é verdade que não mata, dói que se farta.
Publicado por João Tunes às 23:42
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