Quarta-feira, 15 de Março de 2006

DESIGUALDADES, IGUALDADE

O que pretendi neste post foi brincar um pouco com os limites, sobretudo com a falta deles, nessas filias desbragadas que por ai andam numa espécie de competição desenfreada pelo igualitarismo supremo e perfeito.  E que muitas vezes, demasiadas, pelo afã maníaco e perfeccionista de se chegarem a todas as metas, mesmo que marteladas, borram a escrita da posição, redundando no ridículo, no não senso e, pior, na inversão pelo estampanço do ridículo. Como me parece não ter sido claro, pesem embora os pacientes e lúcidos contributos da Cristina, do Miguel e da Ana, aqui volto à carga.

 

Obviamente que estou pela marcha imparável rumo à igualdade (igualdades, melhor dizendo) mas que ela nunca nos faça perder do sentido que só somos interessantes e estimulantes enquanto desiguais. No dia em que o mundo cumprisse o sonho bolchevique-anarquista de sermos tão iguais quanto chatos (e, no limite, a igualdade perfeita só podia ser uma perfeita chatice), seria altura de pensarmos em como saltar para Marte, reinventando a luta de classes e todos os manás das diferenças numa escala marciana. Sobretudo para quem está acantonado neste quadrado lusitano em que o pesadelo redencionista nos transformaria todos em “jerónimos” (ou em “louçãs”, se os bloquistas-trotsquistas ganhassem no sprint final da revolução).

 

O que penso e ainda mantenho - sou teimoso mas não irredutivelmente teimoso - é que num mundo em profunda e acelerada mutação cultural, sobretudo por vias da comunicação e informação instantâneas, mais a subida exponencial da escolarização, com a forte inversão da relação quantitativa entre trabalho manual e intelectual, os paradigmas bebidos na tradição do “status quo social” estão a esboroar-se a um ritmo tal que meter “prego a fundo” no acelerador pode dar numa desagradável e súbita inversão de marcha. Entretanto, as etapas de evolução social e cultural precisam de ser consolidadas. Para que tenham o tempo mínimo de digestão e emprenhem o sedimento cultural. Por exemplo, absorvidas pela vivência mutável mas coreácea da célula familiar. Caso contrário, ficam agarradas á pele e vão na brisa soprada pela ancestralidade estrutural do reaccionarismo profundo, normalmente soprado a partir do Vaticano, da Casa Branca, das mesquitas-madrassas e dos filhos de Putin. E lá vêm os paladinos do Deus, Pátria e Família, com os do beco a gritarem “Revolução ou Morte” e “A luta continua”.

 

As insuficiências sobre a influência e decisão das mulheres no poder são evidentes. Mesmo gritantes. Há muito para avançar. Mas olhem-se trinta anos para trás e vejam-se as diferenças. São tantas que não merecem que sejam agora diminuídas, sentando-as nas “cadeiras de rodas” das quotas, menorizando-as, atalhando-lhes obra e gesta que devem ser suas. Mais que de paternais femininofilias, as mulheres necessitam apenas de reconstruírem as suas culturas para ocuparem os novos espaços e alargá-los. Porque, convém não esquecer, muito do “atraso feminino” também é obra das próprias mulheres.

 

Entretanto, mal consolidados os avanços femininos, outras fracturas culturais se querem varrer de uma vassourada. Indo tudo a eito. E, em vez de pulos e avanços, o que temos é mais encomendas que encomendados e encomendadas. Com as bandeiras a serem mais que as mãos. E depois, um tipo ou uma tipa cansam-se, querendo é descansar do bruá do lutar. Dando vagares energéticos aos bandos de clérigos que esperam que se pouse para que se desande e nos metam na mão que antes segurava a bandeira o velho missal do ancestral.

Publicado por João Tunes às 15:36
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10 comentários:
De ana a 15 de Março de 2006
""...muito do 'atraso feminino' também é obra das próprias mulheres"" - cito-o.
Estou plenamente de acordo. Mas há outro facto que menciona e explica mais um pouco: "a forte inversão da relação quantitativa entre trabalho manual e intelectual". Foi por aqui, também por aqui, que as mulheres começaram a ter trabalho melhor remunerado, condição "sine qua non", para se sentirem em pé de igualdade com os homens. Em tempo anterior, dependeram sempre, ou do pai ou do marido. Para tecto, pão, significado social. Nem direito a escola tinham, as mulheres, praticamente. Se andar uma ou duas gerações atrás da minha e, sobretudo, em meios pequenos como aquele onde nasci, nem sei descrever o salto de gigante que já deram as mulheres.
De M. Conceição a 15 de Março de 2006
Bom post e certeiro comentário da Ana. Parabéns aos dois.
De ana a 15 de Março de 2006
Obrigada M. Conceição, pela parte que me toca. É bom saber que somos compreendidos.
De Miguel Silva a 16 de Março de 2006
Por que é que as quotas menorizam as mulheres?
De ana a 16 de Março de 2006
Se me é permitido, direi que tudo o que é forçado, diminui de significado e de valor. Os factos devem ocorrer pela ordem natural das coisas, sem premeditação e sem medidas coercivas. Se tais medidas se mostram necessárias é porque algo está errado a montante. Eu poderia apreciar estar numa lista de um partido para um determinado cargo, porque me acharam capaz de o desempenhar. Odiaria saber que estava nessa circunstância porque faltava uma criatura, obrigatoriamente declarada feminina, para perfazer o número de fêmeas da lista. Desculpe esta linguagem terra-a-terra, mas assim exprimi aquilo que realmente penso.
De Miguel Silva a 16 de Março de 2006
A linguagem terra-a-terra funciona muito bem comigo, embora acredite que isso não se note muito no que escrevo.

Então, se a convidarem para uma lista de um partido, suponhamos, para ser deputada, sente-se menos valorizada por ser incluída numa quota de mulheres. Eu percebo isso, mas não concordo. Ao aceitar pertencer à lista do partido já está a fazer parte de uma quota (a da concelhia, a da distrital, o que seja...). As quotas são mais comuns do que se pensa.
E por que é que há-de perder o seu mérito por pertencer a essa quota? Perde competências por isso? Perde qualificações? Pelo contrário. O argumento da menoridade da quota é uma das manifestações de dominação masculina, a qual se vai reproduzindo paulatinamente, aparentemente sem encontrar resistências maiores.
De ana a 17 de Março de 2006
Na vida laboral, social, sindical, familiar, sempre fui valorizada e estimada, acredito eu, em função das minhas capacidades.
Por que diabo hei-de precisar de ter o sexo X, para ter valor na vida política ?
Quotas concelhias ou distritais decorrem de uma circunstância factual, que não tem finalidade de nivelamento, de equiparação.
Quotas para mulheres, na política, nascem por uma necessidade de gerar volume, usando-o, eventualmente, a posteriori, como "material de propaganda". Essa eu não alimento.
De João Tunes a 16 de Março de 2006
Caro Miguel e cara Ana, continuem por favor, estou encantado a ouvir (ler) o vosso papo. Nem me meto para não vos perturbar a conversa. E estejam aqui como em vossas casas. Só agradeço que, no final, me expliquem como enquadram nas quotas um transexual ou uma lésbica. Pela bancada masculina ou pela bancada feminina, sem ofenderem um e outra na arrumação entre género e opção.
De Miguel Silva a 17 de Março de 2006
Caro João, para mim uma lésbica é uma mulher e um transexual será aquilo que assumir como a sua identidade de género (que é muito diferente de orientação sexual). Arrumação feita, assim seja a vontade dos ditos em se verem arrumados.

Eu é que tenho a agradecer o tempo de antena proporcionado nestes salões. E garantir que, da minha parte, isto é como a conversa de mesa de café: está sempre aberta para mais um (sobretudo se for o senhorio).
De ana a 17 de Março de 2006
Caro João, anfitrião amabilíssimo desta conversa já longa, vejo com gosto a sua intervenção. A casa é sua, a mesa onde estamos a tomar café é sua, sinta-se à vontade. Em resposta à questão que suscitou, lésbica é mulher, decididamente.
Transexual, há-de ser a própria pessoa a definir em que quota se deve incluir.
Mal parece, ou não parece, mas parece-me que entendo mais de lésbicas do que de transexuais, apesar de nunca me ter sentido para aí virada.

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