Quarta-feira, 18 de Março de 2015

Sartre & Beauvoir, Beauvoir & Sartre

histoire_beauvoir7.jpg

 

Estes dois enormes intelectuais franceses marcaram a fornada da minha juventude. Empenhados e heterodoxos, geniais no pensamento e na escrita, acresce que também a luta antifascista portuguesa muito lhe deve de empenho solidário na denúncia dos crimes e outros desmandos da ditadura. No entanto, a forma empenhada como eles denunciavam, em pé de igualdade com a denúncia dos abusos praticados pela "direita mundial" (quer os do imperialismo americano assim como os abusos da força pelos israelitas), os crimes do domínio soviético cometidos numa parte importante do mundo, levavam a que, para os ortodoxos filo-soviéticos, Sartre e Beauvoir fossem vistos como intelectuais a quem em vez de os saudar se devia, perante eles, assobiar para o lado, evitando-os. No entanto, a prevenção a que o casal de intelectuais era votado quer pelos próceres da ditadura como pelo antifascismo comunista não evitava a sua profunda penetração entre as leituras dos jovens portugueses (os que eram estudantes, como é óbvio) que se iniciavam na vida cultural da década de 60 do século passado. Não fui excepção e também eu li muito Sartre nos meus verdes anos. E eram leituras muito estimulantes que tinham o condão de, sempre o entendendo muito parcialmente, desembocarem, mais do que em respostas (como acontecia com as cartilhas difundidas pelo leninismo doméstico), numa série multiplicante de perguntas.
O actual momento editorial em que se está a difundir, não sei porquê. várias obras de Simone Beauvoir, levou-me a descobrir (e a encantar-me) a obra da companheira de Sartre, obra esta que na década de sessenta me tinha passado ao lado. Um dos lados singulares desta descoberta é encontrar uma escritora que, comparando-a com Sartre (acto dispensável mas inevitável), surge como, pese embora ser uma pensadora muito menos densa, uma narradora de maior poder literário e ter uma escrita mais intemporal e mais impressiva. Além de que ler SB é uma etapa indispensável também para entender Sartre. Isto porque enquanto Sartre pensava sobretudo o mundo a SB olhava sobretudo as pessoas no mundo, particularmente os círculos que habitavam (que eram bastante vastos). E SB fazia essa observação muito bem e como uma lucidez apurada pois que o "contracto" de coabitação com Sartre era particularmente elaborado e depurado preventivamente de muitas das maleitas geradas nos hábitos e na sobrecarga de presenças, tudo enquanto prática de feminismo radical mas sereno e despojado de retórica programática. Sendo um casal que viveu junto durante muitas décadas, viviam em habitações separadas, encontrando-se ora na casa de um ora na casa do outro, quando dormiam juntos faziam-no em quartos separados, quando viajavam alugavam sempre quartos diferentes nos hotéis onde pernoitavam, não se eximiam a terem e desenvolverem os seus amores e paixões em paralelo à vida afectiva comum, não permitindo a penetração do ciúme. E de tal forma aquele estilo de vida livre em comum foi adoptado que Simone retrata como um dos sinais mais marcantes do início da demência de Sartre na entrada da sua velhice uma vez este se lhe ter dirigido tratando-a por "esposa". E, no entanto, apesar deste "contracto de relação amorosa" (ou, talvez antes, graças a ele), mantendo até ao fim os procedimentos estabelecidos, Simone viveu toda a profunda crise de velhice de Sartre e apoiou-o intensamente com o desvelo da mulher profundamente apaixonada.
Um dia destes, numa consulta a um dos médicos especialistas que me assistem e que partilha comigo o gosto pela leitura (de tal forma que os primeiros dez minutos das consultas com ele são consumidos em troca de impressões sobre as últimas edições, ficando os atendimentos clínicos a servirem de complemento), calhou levar comigo um livro de uma edição recente da Beauvoir. Isso serviu de pretexto para ele me confessar que tendo, em jovem, lido todo o Sartre, nunca lera Beauvoir, revelação que mostrava toda a semelhança com a minha história de relacionamento com a obra do célebre casal. Sendo nós, médico e doente, da mesma geração, com vivências idênticas (as do caldo das lutas estudantis da década de 60, eu em Lisboa e Porto, ele em Coimbra), aprofundando a questão, e tendo em conta que se os rapazes de então leram o máximo de Sartre e nada ou quase nada de Beauvoir, as raparigas que liam (as poucas que liam) leram algum Sartre mas devoraram muito mais Simone de Beauvoir e nela se inspiraram para estruturar o seu feminismo e os decorrentes estilos de vida. O caso não merece sondagem mas tenho que este exemplo de opções de leituras e alinhamentos terá muito a ver com a forma como os géneros se alinharam na formatação da sociedade portuguesa em termos de vivência homem-mulher.

Publicado por João Tunes às 12:58
Link do post | Comentar
liuxiaobo.jpg

j.tunes@sapo.pt


João Tunes

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO