Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

Cuba e cubanos

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Nasci e cresci em ditadura. Tendo vivido e tornado adulto no Barreiro então sob regime de ocupação militar pela GNR, com a PIDE e outros rafeiros do regime desde muito cedo à perna, obrigado a participar numa odiosa guerra colonial, o meu asco fundo por uma ditadura que durou 48 anos (mais de 1/16 avos da história de Portugal) não me permite, ao contrário de tantos, descobrir coisas boazinhas, compensadoras e justificativas em Estados de partido único e de poderosa e omnipotente polícia política, perseguindo cidadãos pelo que pensam e desejam exprimir. E numa ditadura, qualquer ditadura, não há esquerda nem direita, apenas ditadura, ponto. E se abomino ditaduras, claro que só posso abominar uma ditadura que conseguiu, em longevidade, ultrapassar a ditadura portuguesa, a que sofri e combati. Portanto, sobre a ditadura cubana, estamos conversados.

Com a ditadura portuguesa, lutando contra ela, aprendi muitas coisas. Algumas delas que pareceram esquecidas na euforia libertadora após o 25A. Por exemplo, a forma paralela como a maioria dos portugueses conseguia viver na ditadura, com a ditadura. Na família, aprendi cedo a não ligar aos repetidos conselhos disparados e repetidos de todos os lados de "não te metas em política". Fora, primeiro nos estudos e depois no emprego, os mesmos conselhos e a mesma abstinência na larga maioria das pessoas. E verifiquei e sofri por isso que só uma pequeníssima parte da sociedade portuguesa se rebelava e arriscava perder o medo, dispondo-se a pagar um preço, fosse ele qual fosse. Não há glorificação antifascista, incluindo a que criou o mito do povo democrata e lutador, que esconda esta realidade: a ditadura portuguesa aguentou-se porque a larga maioria da sociedade portuguesa o permitiu, alheando-se do problema essencial do regime e, para isso, muitas vezes desculpando-se com o medo (quantas vezes a PIDE não foi agigantada a proporções irreais porque assim convinha para justificar renúncias e cobardias). A verdade é que a larga maioria do povo português não queria a ditadura mas não se dispunha a arriscar-se para que a ditadura terminasse. Tanto que a ditadura caiu não porque o povo se levantasse e a deitasse abaixo mas sim, e apenas, porque um escalão dos oficiais  do exército (capitães e majores) já não aguentava tanta guerra colonial e com derrota à vista. Desta vivência tirei a lição que é possível um povo adaptar-se a uma ditadura e viver com ela, estabelecendo-se plataformas tácitas e compromissos com uma largura tal que impossibilite a reversão do regime. Daqui não me convence dizer-se que, em substância política, uma ditadura é saudável, legítima ou tolerável porque o povo a consente e não quer construir alternativas.

Sempre fui contra o embargo a Cuba. Porque o considerei uma medida estúpida e ineficaz, com a consequência maior de dar um alibi ao regime para desculpar-se das consequências do descalabro da sua política económica e social. Se a administração norte-americana o está a perceber agora, o único comentário que me merece é de que mais vale tarde que nunca. Quanto à ditadura cubana, propriamente dita, o meu asco mantem-se inalterável. Mas, obviamente, que caia a ditadura quando os cubanos o entenderem. Esse problema é deles, só deles. E sem o alibi do embargo, a responsabilização cidadã dos cubanos torna-se mais nítida e transparente. Ora bem.

Publicado por João Tunes às 17:13
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1 comentário:
De Anónimo a 24 de Dezembro de 2014 às 12:30
"Não há glorificação antifascista, incluindo a que criou o mito do povo democrata e lutador, que esconda esta realidade: a ditadura portuguesa aguentou-se porque a larga maioria da sociedade portuguesa o permitiu..."

Concordo totalmente ! Ainda há dias, discutia com alguns franceses questão semelhante: a da ocupação alemã e a dos "resistentes" pós libertação. A "normalidade" é um lugar muito estranho. É bom saber que ainda vai havendo quem perceba esse nestes dias de "politica de facto" em que as ditadores se sofisticaram ao ponto de poucos darem por isso quando elas os moldam enquanto lêem o jornal diário.

Cumprimentos

Manuel Rocha

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