Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2006

BRANCA DECEPÇÃO

bonecos.bmp

Desta vez, falhou a oferta de nevão ou coisa que servisse de amostra. Sei lá se por má sorte ocasional da demasiada proximidade do mar (que é maná quando o sol espevita), nevou em Lisboa e à volta, mas aqui não. E nós aqui tão perto.

Soube que, no Barreiro, também aqui tão perto, tinha nevado ou mostrado o que era ameaçar nevar. Lembrei-me então. Restando-me a decepção de não poder rever na garotada daqui, a de agora, a minha, o que senti em tempos idos e que há quase dois anos lembrei:

“Tinha os meus oito anos ainda fresquinhos da comemoração. Depois de feita a Primeira Classe em Lisboa, na Escola da Rua Actor Vale, ali para as bandas da Alameda em Lisboa, tinham-me mudado para o Barreiro onde me inscreveram na Escola Conde de Ferreira para fazer os meus estudos. Enquanto vivi em Lisboa, refugiado num andar escondido do movimento na Rua dos Baldraques, raramente vinha à rua a não ser para a ida e volta da escola que era bem pertinho. Quando me instalaram no Barreiro, a diferença foi abissal quanto ao meio envolvente. Vivendo na zona central da vila, que por ser apenas uma vila me conferiu maior liberdade de movimentos, senti a sensação de ter caído numa autêntica metrópole.”

”Pouco mais se respirava que fumo no Barreiro. Quem lá chegasse tossia, tossia, até os pulmões se habituarem aos fumos sulfurosos e nítricos da CUF, depois deixava de tossir porque os gases poluidores entravam-nos no corpo e ganhavam foros de cidadania. Aliás, os barreirenses conheciam os forasteiros à légua porque eram os únicos que, entrados na vila, tossiam e se queixavam. Os Mellos tinham doado aos barreirenses o privilégio de deixarem de ser alérgicos aos óxidos e anidridos nítricos e sulfurosos saídos abundantemente das chaminés do Império CUF. Como recompensa por deixarem que eles construíssem a sua fortuna a venderem adubos, sulfatando e azotando os pulmões dos trabalhadores e outros habitantes da vila operária.”

”O Outono e o Inverno eram as épocas do smog. As névoas que eram frequentes pela proximidade do rio, misturavam-se com o fumo e formavam uma mescla turva. Nessa altura, a agressão aos pulmões era maior porque os óxidos ácidos misturavam-se com o vapor de água e, então, aquilo que era respirado tinha um teor considerável de ácidos agressivos. Mas o homem é um animal de hábitos e, se querem prova, arranjem um barreirense do tempo em que o Barreiro tinha fábricas e têm aí uma demonstração viva ou sobreviva. Se necessário, este “mano” oferece-se para os testes.”

”As casas do Barreiro, talvez porque eram construídas com pulmões mal acabados, ficavam rapidamente com sinais precoces e indeléveis da agressividade ácida. As paredes eram enegrecidas e escuros eram os telhados. E as árvores, as poucas árvores que teimavam em vegetar, tinham um aspecto lúgubre bem vincado como se quisessem exibir uma desdita de protesto contra os sádicos que as plantavam ali e depois davam-lhes fumos ácidos para respirarem.”

”Como os outros, também eu me habituei e adaptei. De qualquer forma, ali tinha mais liberdade que a clausura do segundo andar da Rua dos Baldraques. E a malta era fixe. A paisagem humana, social e urbana do Barreiro passou a ser a minha natureza. E quando me fizeram sócio do Barreirense, então senti-me um patrício de gema.”

”Numa manhã bem cedo, preparo-me para sair para o caminho da escola. Abro a janela e o que vejo? A vila negra de ácidos estava coberta por uma camada fortíssima de neve. Que deslumbramento. O Barreiro negro tinha passado a branco alvo.”

”Nunca tinha visto neve na minha vida e, repentinamente, ela cai-me aos montões a abafar os fumos da CUF. Foi o delírio na vila. Os barreirenses abriam a boca de espanto ao verem a sua vila de branco como se ela se tivesse vestido, sorrateiramente e no escuro de madrugada, com mantos de noivado e ali os estivesse a exibir para compensação de tantos anos a vestir smog.”

”Não se foi à escola nesse dia. As crianças andavam espantadas e meio loucas, atirando-se para a neve, construindo infindáveis bonecos de todas as formas e feitios e prolongando batalhas de atira e apanha.”

”Mas, com os adultos, foi pior. Aquele operariado triste, vida queimada em fornos e transformado em limalhas pelos tornos das fábricas, resignados a ganharem o pão a alimentarem as chaminés com fumos, GNR e pides à perna, duros dos hábitos dos Avantes passados de mão em mão, esses portaram-se pior, bem pior, ou melhor, muito melhor, que as crianças. Gentes de todas as idades, novos, médios, velhos, velhas, homens, mulheres, competiam com a criançada a compensarem infâncias falhadas, as tristezas dos fracos salários, as sombras do Aljube e de Caxias. Mulheres com alcofas para as compras, esqueciam as hortaliças para a sopa e usavam-nas para tentarem armazenar neve, o máximo de neve, talvez na miragem de a guardarem como um tesouro que dificilmente voltaria a cair do céu.”

”A vila enlouqueceu mesmo, toda vestida de branco. Ficou alva e pura, sem sombra de afrontas e de teimosias. Deixou de ser negra, negra dos fumos dos Mellos. Deixou de ser vermelha, vermelha das revoltas operárias. Apenas branca. Branca como a neve. Branca com a loucura de ser branca.”


(repescado daqui)
Publicado por João Tunes às 14:53
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2 comentários:
De ana a 30 de Janeiro de 2006 às 16:28
Lindo, lindo texto. Palavras sentidas.
Acho que esse dia de neve que deixou o Barreiro branco(não cinzento e nem vermelho), terá sido o mesmo em que vi neve pela 1ª vez. Ainda revejo a cara de minha mãe, então jovem, a pegar-me ao colo e levar-me à janela, numa alegria. Não esqueci até hoje.
De Machado da Graa a 30 de Janeiro de 2006 às 15:35
Belíssimo texto. Parabéns e obrigado

Machado

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