Domingo, 30 de Julho de 2006

O RELATIVISMO DE UM ANTI-MANIQUEU (3)

000abtpw

Duas exclamações espantadas (esta e esta) foram atrás feitas a um espantoso post de Vital Moreira. Mas a sofisticação do argumentário utilizado pelo ilustre “opinion maker” merece mais como comentário. Muito mais. Porque, entre o que li e ouvi, Vital Moreira, com o seu habitual brilhantismo expositivo, demonstra ser o mais lídimo representante argumentativo e imaginativo entre os intelectuais da nossa praça em luta de oposição a Israel. Não desperdiçando o requinte no uso dos sofismas. Talvez disputando, pela parte da esquerda culta, limpa e moralista, o ceptro do talento aliado ao sofisma ao seu concorrente que corre pela banda direita inteligente, limpa e culta (falo, é claro, do incontornável José Pacheco Pereira).

 

Vital Moreira faz o seu contra-ataque (primeiro) pela via da purificação antimaniqueísta e (depois) pelo exercício imaginativo de encostar à parede os “democráticos pró-Israel” exigindo-lhe a coerência com o princípio da “superioridade moral das democracias”. Ou seja, autopurifica-se (arremessando o “rocket” do maniqueísmo) e exige pureza (exigindo superioridade moral aos defensores de Israel enquanto Estado democrático). Na embalagem, generaliza sobre outras querelas e globaliza a discussão sobre a dicotomia ditadura-democracia, no que demonstra que, afinal, as dicotomias são irresistíveis no seu poder de sedução. Até para ele, Vital Moreira.

 

Descendo à substância argumentativa do discurso de Vital Moreira, as democracias têm responsabilidades de conduta que as ditaduras, pelo nefando da sua natureza, são automaticamente inimputáveis. Este expediente, imaginativo e bem esgalhado, leva a uns tantos absurdos repugnantes na valorização diferenciada de vítimas de agressões, opressões e abusos. Até porque, transitados para a história portuguesa recente, se aplicada aos abusos e crimes do salazarismo-marcelismo, nomeadamente quanto aos crimes da PIDE e aos crimes coloniais, representariam uma absolvição pela falência de deveres morais exigíveis à ditadura fascista doméstica. Dito de outro modo, os crimes do fascismo português seriam graves se cometidos por um regime democrático mas assim como assim… o que aconteceu às vítimas do fascismo e do colonialismo português foi o que foi mas a contextualizar, relativizar, porque tiveram o azar da circunstância de terem nascido e vivido numa ditadura.  Pelo conhecimento da vida e obra de Vital Moreira, só posso atribuir tamanha degenerescência de juízo histórico às armadilhas próprias do recurso ao sofisma.

 

Vital Moreira não é um desprevenido e muito menos um inocente, política e ideologicamente falando. Por isso, saberá que o seu jogo com as dicotomias, as alternativas e os juízos, ao serviço da causa do combate a Israel e aos Estados Unidos, é um jogo perigoso com enormes riscos de boomerang. Porque infindável e levando a muitos e contraditórios caminhos. Permitindo, por embalagem, forçar a sua aplicação a outros paradigmas (e paradoxos) fora, ou além, da dicotomia democracia-ditadura. Por exemplo, no campo de um conceito de democracia verdadeira, ampla, justa e social, de amplas liberdades, muitos furos acima dos limites estreitos da democracia burguesa e representativa, concepção que não espanta ver perfilhada pela maioria dos que militam na causa anti-Israel e anti-EUA, se aplicada á receita dos sofismas de Vital Moreira, dariam resultados de ricochete. Caso da evidência de que, então, as prisões políticas de Fidel Castro são muito mais inadmissíveis que a prisão americana e abjecta de Guantanamo (lugar onde, do outro lado da cerca, se situa uma das mais duras e violentas prisões políticas em Cuba). Como assim? Porque a burguesia, sobretudo os cimeiros no poder do estádio supremo do imperialismo, fazem do jogo democrático uma farsa de enganos, exploram, oprimem, sugam direitos e mais valias, almejam o lucro e desprezam direitos e liberdades, querem as riquezas, nomeadamente o petróleo, nas mãos das suas oligarquias e monopólios. Gente sem escrúpulos, é da natureza dos burgueses imperialistas terem construído e sustentado Guantanamo. Mas os revolucionários cubanos, senhor, porque dão tanta dor e fazem padecer assim? Eles, que libertaram a Ilha da pata americana, que deram e dão o corpo e a alma a espalharem a revolução libertadora no mundo, que transformaram Cuba numa sociedade justa e igualitária, sem explorados nem exploradores, espalhando escolas, habitação, pão e saúde, mobilizando o povo na senda do bem estar e da democracia avançada, porque prendem jornalistas, porque espancam divergentes, porque não permitem a emigração livre, porque fogem ao sufrágio livre e sujeito ao contraditório e à alternativa em que possam eleger, em voto secreto, Fidel e outros dirigentes (ou outros que não os mesmos de sempre)?

 

Pelo exercício, mal, muito mal, vai o stock argumentativo dos da causa anti-Israel e anti-EUA. Vital Moreira, do pedestal da sua estatura intelectual e política, demonstrou-o.

 

Publicado por João Tunes às 01:11
Link do post | Comentar
liuxiaobo.jpg

j.tunes@sapo.pt


João Tunes

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO