Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

UM CANDIDATO À INFILTRAÇÃO

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Entendo bem, partilhando as suas angústias, o comentário que o Vítor Sousa colocou num post anterior:

 

“João, estas linhas, que prevejo frugais, são as primeiras que dedico à espiral belicosa que fustiga o médio-oriente. Pelo calvário do povo judeu, agudizado pelas perseguições e chacinas promovidas pelos nazis, sou obrigado a manter-me fiel à defesa do Estado de Israel. Na contemporaneidade, e devido à logorreia revisionista do presidente iraniano, qualquer palavra censória que incida sobre a política de defesa israelita pode ser estigmatizada. Não acredito que Vital Moreira seja um adepto da amputação de Israel do mapa, embora se insurja contra a estratégia que Israel adopta como antídoto contra os inimigos circundantes. Todavia, no último artigo de Pacheco Pereira no Público, a analogia entre Vital e o presidente iraniano despontou, num claro sintoma de que a dicotomia insuprível impera: ou somos amantes cegos de Israel, ou o deploramos.
O meu silêncio deriva dos dilemas que pululam. Reitero a necessidade moral de pugnar pela sobrevivência de Israel, mas os "danos colaterais" - que Pacheco considera inelutáveis e compreensíveis - provocados pelas retaliações israelitas geram tumultos internos. No entanto, se Israel renunciar a uma política agressiva, será esboroado pelos vizinhos. Julgo que os dilemas aflorados guindam-se a amostra das razões que suscitam a inanição do Ocidente, hoje e sempre perseguido pela História como responsável pelo Holocausto.
É possível repudiar a política externa de Israel sem enlanguescer na defesa do seu direito à existência? Não será este outro paradoxo? Neste conflito, há duas facções, e eu quero por força infiltrar-me no meio.”

 

Sem ofensa, caro Vítor, se a Mossad te ouve ou te lê, ainda te vai raptar ao tédio madeirense e contrata-te como “agente infiltrado”. Não te gabaria a sorte mas respeito que haja opções em que se tem de dar o corpo por elas. Faço-o á minha maneira, sem Mossad, faz tu a parte que te compete.

 

Um abraço amigo de quem muito preza a tua companhia e a argúcia do raciocínio.

 

 ----------------------------

 

Adenda: A ler na caixa de comentários a precisão feita pelo Vitor Sousa.

 

Publicado por João Tunes às 17:13
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2 comentários:
De Vítor Sousa a 27 de Julho de 2006 às 20:20
Caro João, agradeço o relevo que atribuiu às minhas palavras. Releio-as e temo não ter sido cristalino na exposição dos dilemas confidenciados. Na imprensa portuguesa, são escassas as intervenções parcimoniosas, porquanto, reitero, existe uma cisão inextirpável, e galopante, entre os críticos - mesmo que conjunturais - de Israel, e os seus escudeiros inamovíveis. A argumentação que Pacheco Pereira urdiu, nas páginas da última Sábado - e não do Público, como referi por lapso - seduz, nomeadamente quando enfatiza o cerco mefistofélico que amordaça Israel, fazendo periclitar um Estado reconhecido pela comunidade internacional. Todavia, julgo que definhamos um pouco como humanos - de acordo com uma concepção idealista da humanidade - quando relativizamos os "danos colaterais", considerando-os inexoráveis. As fotos que o João tem publicado, conluiando-se com outros blogues na cruzada contra a inevitabilidade de "danos colaterais" que esgarçam crianças - agudizam as angústias de quem procura acantonar-se. Todavia, neste conflito, assumo a condição de energúmeno que resiste ao maniqueísmo, pregnante e impositivo.
A sua alusão à Mossad, embora trajada de causticidade, gera algum aturdimento, porquanto a minha condição de "infiltrado" racional entre duas facções sectárias e incomunicáveis - note-se que aludo a a Israel e ao Líbano, porque não titubeio na decisão de anatematizar o Hezbollah - não permite qualquer prestação de serviços exclusivos a qualquer das partes. Compreendo a necessidade de defesa israelita, mas solidarizo-me, igualmente, com a população inocente do Líbano, que assiste à degenerescência de um Estado, convertido em títere da Síria, do Irão, e de movimentos cuja actividade deveria ter caducado com a retirada de Israel do Sul do Líbano. O Hezbollah alcandorou-se, noutros tempos, a organização redentora do Líbano, camuflando a real intenção de engrossar as fileiras de quem aspira à amputação de Israel. Hoje, os desígnios subjacentes à criação e persistência do Hezbollah são límpidos e irrefragáveis.
Rotulei de "inocente a população do Líbano". No plano físico, acredito que a avaliação se ajusta, mas não poderei esquecer que o Hezbollah brande, hoje, um poder político efectivo, porque legitimado pelo povo libanês. Se a conversão do movimento em partido político, sem ramificações bélicas ou milicianas, subjaz à confiança política depositada nele pela população, como reagirá esta aquando de novas eleições, consciente, agora, de que a política convencional não é a única actividade do Hezbollah? Repudiá-lo-á? Ou nutrirá a subsistência de um escopo velado, e cavernoso?
Um abraço.
De SAM a 27 de Julho de 2006 às 21:49
Sabes o que fará, meu amigo querido?

Te direi aquilo que sempre disse: votarão neles e lhes darão maioria absoluta... Porque a forma como Israel trata ao libaneses leva os libaneses a pensar que sim, vale a pena retaliar. E quem retalia melhor que o partido cuja actividade não é a "política convencional"?

É o que te disse noutra ocasião: as pessoas elegem o ditador que menos problemas lhes tratá...

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