Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

PENSANDO O MEDO (2)

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Os sistemas fechados e de sentido único, e porque o ser humano é – por natureza – aberto, geram patologias de consolidação e sobrevivência. Negando, se for caso disso, qualquer hipótese de elevação da condição humana. Mesmo, ou sobretudo, quando quer redimir a desigualdade que amarra o homem à sua condição racial ou social. Porque a lidar com as contradições, a força do poder, qualquer força de poder, prefere os atalhos da redenção pela punição que lidar com as veredas das diferenças. Quem quer, quando pode, deitar fora a eficácia ao serviço do instinto de sobrevivência que tantas vezes se confunde com o instinto do domínio?

Quem se amanha melhor na limpeza dos atalhos das contradições e dos desafios sobre os caminhos, ainda por cima a lidar com a infinita desigualdade dos sentires humanos, são os sistemas totalitários, ou seja, aqueles que dão um sentido único à história e ao futuro do povo. Em nome do homem novo - seja ele o eleito por superioridade de nascimento na raça certa (no fascismo) ou o liberto dos laços das diferenças sociais (no comunismo). Num caso e noutro, a pertença a servir de separador entre o domínio e a servidão. Com uma nuance – no caso do fascismo, a origem (biológica, social) tudo determina; no caso do comunismo, dá-se a opção entre pertencer a uma elite redentora (a vanguarda) com poder de exclusão ou ser excluído. Num caso e noutro, quando no poder, com pulsão para exercer o genocídio – por critério biológico ou por critério social. E, quantas vezes, eles se aproximaram na forma. Tirando a geografia e a natureza das vítimas, há coisa mais parecida com Buchenwald ou com Tarrafal que um qualquer campo do Gulag?

Num caso e noutro, os excessos totalitários, além de tecnocracia de extermínio da diferença, sempre tiveram uma função de exemplo à sociedade como sinal de destino inelutável, fosse a meta da raça pura ou da igualdade social absoluta – o medo do preço da exclusão. Vincando que qualquer recusa de alinhamento tinha o eco de uma recusa de corte, logo a passagem para o lado do inimigo. E como eles sabem lidar com os inimigos. Ou com o medo, se preferirem.
Publicado por João Tunes às 16:08
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