Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

POIS É, MAS QUE FAZ IMPRESSÃO LÁ ISSO FAZ (1)

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Diz o meu estimado e admirado Manuel Correia:

 

“E o Hezbollah, no Líbano, ou o Hamas, na Palestina, pese contra eles tudo o que se quiser, tem uma legitimidade democrática que não se compara, nem de perto nem de longe, com a da pax americana que gerou e protege o Sr. Maliki. Os grandes exportadores da democracia têm o topete de recusar «certos» resultados eleitorais quando os eleitos não lhes convêm. Já se tinha visto antes, é certo, mas faz sempre alguma impressão.”

 

Pois é, falaste bem. Em perfeito acordo com a regulamentação democrática. Na parte que toca ao critério de apreciação “interna” (ou seja, a aferição da legitimidade governativa pelo resultado dos votos). Mas, meu caro, não entendes que essa mesma legitimidade tem, se as nações e os estados têm obrigações para com os “outros”, particularmente para com os vizinhos, ser aferida (ou homologada, se preferires a linguagem jurídica) pelo respeito ou não respeito do princípio da eternidade da não agressão e não contestação da soberania exercida noutros limites de fronteiras (se também legitimadas em outras escolhas e outros votos)?

 

Hitler chegou ao poder por eleição legítima dos alemães. E até final, a esmagadora maioria dos alemães adoraram-no e seguiram-no, matando e morrendo por ele. Assim, do ponto de vista estritamente alemão, se houve político com “legitimidade” perante os “seus”, Hitler está nesse retrato. O problema com o Hitler “apenas” foi dos internos perdedores (judeus, comunistas, social-democratas, maricas, ciganos e testemunhas de Jeová) e dos “outros” - os vizinhos a ocupar e a abater.

 

Se o Hezbollah fosse um “problema libanês”, o Hamas um “problema palestiniano”, os ayatollas um “problema iraniano”, os tallibans um “problema afegão”, seriam apenas escolhas internas democraticamente conseguidas, portanto legítimas, e o baile devia acabar aqui. Só que, como Hitler não foi só um “problema alemão”, o Hezbollah, o Hamas, os ayatollas e os tallibans, são também um problema para todos. Porque o fito comum e fanatizado de todos eles é destruir Israel, atacar a civilização, impor uma ordem islâmica integrista pela bomba, pela pedra e pelo “rocket”, escaqueirar a democracia onde quer que ela se pratique, regredir aos tempos do expansionismo muçulmano, levar as mulheres de volta à regressão medieval, destruir o legado mais importante deixado ao mundo pelos soviéticos (a unipolaridade americana). Restando-nos, desesperadamente, como única alternativa á unipolaridade imperial dos States, a regressão ao domínio das madrassas, dos xeques e de Meca. E, como canta bem o Sérgio, “para melhor, está bem, está bem, para pior já basta assim”.

 

Finalmente: claro que os israelitas não são "santos", são até legitimamente detestáveis, mas como não lhes reconhecer que fazem, estão a fazer, com abusos condenáveis de toda a ordem, o trabalho sujo dos "pecadores" que nos recusamos a ser? Mas se é esta, a "linguagem do pecado", a única capaz de conter o "problema para os outros" constituído pelo Hezbollah, pelo Hamas, pelos ayatollas e pelos tallibans... 

Publicado por João Tunes às 16:29
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1 comentário:
De Manuel Correia a 28 de Julho de 2006 às 11:46
Meu caro João Tunes,

Agradeço-te muito o comentário, pois nestas matérias estamos quase sempre a resvalar para o maniqueísmo. Tomar pontos-de-vista fora das correntes dominantes ajuda-nos a distribuir a atenção por aspectos eclipsados pelos astros das grandes causas.

No fundamental, colocas duas questões difíceis.

1. Não basta a um povo eleger democraticamente os seus representantes. A «comunidade internacional» deveria (deve?) homologar esses resultados, filtrando as intenções expansionistas e/ou imperialistas dos dirigentes eleitos. Descontemos as flutuações semânticas dos termos e reconheçamos que tal princípio, aplicado à França, a Portugal, ao Reino Unido, à Indonésia, aos EUA, etc., provocaria um rebuliço, esse sim, eternizador.

A história do Estado de Israel tem de ser recapitulada. Temos de recordar o que aconteceu naquela região desde o fim da 2ª Grande Guerra. Esta abordagem imediatista e recentista que perdoa os malefícios do Sionismo e acentua as reacções dos extremistas muçulmanos não nos leva muito longe…

2. Porque Adolf Hitler, à frente do Partido Nacional-Socialista, enganou os alemães com o seu programa de pleno emprego, orgulho nacionalista, e um futuro de leite e mel, «esquecendo-se», depois, de voltar a submeter-se a escrutínio, preferindo, em vez dessas minudências processuais, coordenar a afronta à humanidade também conhecida por Holocausto, comprovou-se que os métodos democráticos, isolados dos direitos da cidadania, da informação, debate contraditório, et j’en passe, não asseguram uma governação civilizada.

3. O que tem sucedido no Médio Oriente tem sido algo que se assemelha estranhamente como que aconteceu na Europa entre 1918 e 1939. As humilhações sucessivas dos «derrotados» explicam uma identificação crescente com os líderes que apontam o caminho do desagravo, da vingança e do aniquilamento do inimigo.

4. No meio disto tudo, o vespeiro do Iraque e o reforço do papel do Irão, não ajudam nada. Claro. Mas é necessário confrontar Bush (eleito democraticamente), Tony Blair, Durão Barroso e Aznar que abriram, na antevéspera da campanha do Iraque, a gaiola aos falcões, com o belo passo que deram.

5. A arma nuclear que os Estados Unidos da América facultaram ao Estado de Israel, não tem grande utilidade a curta distância. Ainda não conseguiram inventar uma radioactividade mortal para os árabes e inócua para os judeus. Na hora do isolamento (ou do reordenamento árabe no Médio Oriente), Israel ficaria mais seguro se estivesse em Paz com os seus vizinhos.

Um abraço

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