Sábado, 26 de Fevereiro de 2005

EM NOME DA VIDA, PELO DIREITO À EUTANÁSIA

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Nos anacronismos maiores da legislação concernente à plenitude dos direitos dos vivos, está o maior de todos os direitos que um vivo devia ter – a renúncia a viver. É como recusar o direito a votar em branco numa eleição. Uma aberração, porque a liberdade de expressão de uma vontade tem de pressupor, não uma fatalidade, mas uma opção de entrada entre escolha ou não escolha. Desde logo, o resto vem por acréscimo.

Os tabus religiosos, mesmo na sociedade mais laica, são dos atilhos mais rijos que amarram a liberdade humana. No caso, pressupõem a obrigação de viver como se a vida nos fosse exterior, uma dádiva recebida de que não se dispõe de liberdade para a movimentar. A intangibilidade e incerteza do seu termo que tem de reproduzir o contexto do nascimento. Mesmo que a vida seja um calvário de sofrimento.

Sabe-se como o suicídio é julgado socialmente. Um choque a merecer um silêncio que lhe corte a subversão dos costumes. Mas apesar do ónus com que o acto é julgado, este ainda beneficia de uma certa consideração cultural pela heroicidade suposta da decisão e da consumação. Um suicida, apesar de tudo, ainda é um gajo com tomates. Até porque cometeu um acto insólito na vida dos vivos vividos. O suicida é um herói negado mas herói, mesmo assim.

A eutanásia gera repulsas e silêncios. Pedi-la é julgada como própria do suicida cobarde. Ou seja, o mais cobarde dos cobardes. O critério de inumano aplica-se-lhe sobretudo. Sai fora da escala do suportável. Aliás, compare-se a maior aceitação do aborto (em que existe outra vida em jogo) com a repulsa pela eutanásia ou o silêncio para com ela.

E, no entanto, que mais de humano existe, quando a vida é insuportável, pedir o apoio aos humanos com gosto de viver, a ajuda - através da suprema fraternidade - de se deixar de viver? Em nome da vida.
Publicado por João Tunes às 22:12
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2 comentários:
De Luis a 13 de Novembro de 2005 às 18:09
Não vejo nenhum argumento sequer difícil de rebater nesse post. Todo o raciocínio falta-lhe senso e calma de meditação. O comentário anexado adiciona-lhe ódio irreflectido e torpe.

A vida é-nos realmente exterior, tão somente porque a minha consciência é consciente dela e de mim, e consegue separá-las. A noção de pecado e de santidade nasce daqui: o pecado como um "crime" contra a minha própria vida (auto-flagelamento) e a santidade como o exemplo máximo de bondade para com a minha própria vida (independentemente do credo ou mesmo não-credo).

O problema para com a eutanásia não é igual ao suicídio: daí a diferença de nomes. Na eutanásia, pretende-se que se AJUDE a suicidar, ou seja, ser conivente com a morte de outrém: um assassinato. Vai tudo contra o conceito de "humano" que tanto aí apregoas: "que mais de humano existe, quando a vida é insuportável, pedir o apoio aos humanos de se deixar de viver? Em nome da vida."

Em nome da vida, matar?!? Mas isso faz algum sentido?!? Em que manicómio vives? Por mais poético que isso te possa parecer, é a maior das ignomínias pois é enublar um crime com sua "humanidade"!! Mas o mesmo fez Hitler e todos os criminosos de guerra!

"Aliás, compare-se a maior aceitação do aborto" - e então com um mal se aceita o outro? O argumento usa a falácia do mal menor: se o aborto que até nem é pior, é no máximo tão mal como, até é mais aturado e tudo, porque não aceitar também a eutanásia?

Já agora porque não a escravatura? (Então não queres ajudar o pobre proprietário que vê na escravatura a única maneira de sobreviver?)
Ou a droga? (porque não nos juntamos todos e não damos droga grátis a granel aos coitadinhos, pois se é disso que eles precisam e tanto pedem? Não deveremos ser "humanos" para com eles e ajudá-los?)

Já agora, ajudar os criminosos que nos pedirem a nossa ajuda, tão humana e piedosa que é.

Francamente, as pessoas têm as ideias todas é maradas.
De IO a 26 de Fevereiro de 2005 às 23:17
Renuncie-se, pois, a quem não respeita a vontade dos outros...

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