Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

PENSANDO O MEDO (1)

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Na primeira metade da minha vida, de cujo contexto nenhuma saudade dele guardo, a nobreza de carácter era clandestina e subversiva. Oficial e correcto era ser-se obediente e quieto. Nascia-se e morria-se com um compromisso feito em nosso nome pela perpetuação da ordem estabelecida. E havia o culto do medo como caldo a atar ousadias e deixá-las penduradas no insólito. Mas, entre o medo e a ousadia, havia uma ética difusa que permitia a que, sob o medo, as pessoas, mesmo assim, não se sentissem demasiado canalhas. Como se houvesse uma intuição que dizia a cada um que o medo não era eterno porque não era humano, embora fosse igualmente certo saber-se que o herói, por mais modesto que fosse a pisar o risco, nunca passaria de um desgraçado a penar em nome dos medos acumulados. E, reconheçamos, o fascismo à portuguesa sempre teve essa conta com medida de, perante a sociabilidade amorfa, moderar a gestão do medo, contando com o manancial de segurança que a cobardia colectiva lhe proporcionava e que não convinha excitar. Essencialmente, uma matriz de cultura jesuítica que só um antigo seminarista no mando com um aparelho clerical ao serviço do regime (muito mais predominante que o aparelho policial), poderia gerir com maestria. E, se repararmos bem, o PREC foi mais que isso mas foi também um povo medroso em fúria. Numa fúria que nunca venceu o medo porque Cunhal assumiu que ia fazer isso por todos, como se fosse um Salazar Vermelho com a missão de nos vingar do outro, apagando-o da nossa memória e tirando-o da nossa pele, bastando obedecer-lhe como ao outro havíamos feito. Povo medroso que fez e deixou fazer o PREC e o anti-PREC. Porque, no essencial, não nos libertámos do medo. O medo não nos largou a pele. E é o medo, numa linha de continuidade entre o medo do presente (que era o medo do salazarismo) e o moderno medo do futuro, que nos faz andar aos trambolhões, mudando os colos – de Marcelo para Spínola, de Spínola para Cunhal, de Cunhal para Soares, de Soares para Sá Carneiro, de Sá Carneiro para Soares, de Soares para Cavaco, de Cavaco para Guterres, de Guterres para o vazio, do vazio para Sócrates. O medo semeado pelo seminarista de Santa Comba foi bem semeado, está aí para durar. É erva daninha rija. Fócrates!
Publicado por João Tunes às 15:31
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2 comentários:
De Joo a 25 de Fevereiro de 2005 às 18:04
E os tiranos sabem isso como ninguém.
De th a 25 de Fevereiro de 2005 às 16:27
Depois de interiorizado, o medo, como qualquer outro sistema repressivo, dificilmente nos deixará agir com total liberdade, se é que ela existe. Eu sei porque interiorizei muita coisa que mesmo agora me condiciona. th

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