Quinta-feira, 20 de Julho de 2006

QUEM SE METE COM ISRAEL, APANHA!

0009x91f

“Quem se mete com Israel, apanha!” é, desde a construção do Estado de Israel, a máxima única e indiscutível da sua política de defesa-ataque perante os seus vizinhos. Sem vacilar perante os direitos humanos e o direito internacional (incluindo as resoluções da ONU), a compaixão perante as vítimas (incluindo as inocentes), as opiniões de inimigos e de amigos. De tal forma assim é que o Estado de Israel é essencialmente um Estado militarizado em permanência, fazendo da eficiência do seu poderio militar, mais a reconhecida eficácia dos seus serviços secretos, o principal suporte de sobrevivência enquanto Nação. Ou seja, por esta extremada e brutal natureza da sua filosofia de Estado, Israel pareceria que tinha todos os condimentos para ser um Estado autoritário e proto-fascista. E, no entanto, um paradoxo neste “estar de Israel” é que ele coexiste, portas dentro, com o pleno funcionamento de um sistema democrático, em constantes alternâncias políticas, sem notas gritantes de violações de direitos, liberdades e garantias. Com uma ressalva permanente - “Quem se mete com Israel, apanha!”.

 

Segundo os nossos padrões civilizacionais, mesmo a nossa cultura que venera as instituições, a brandura dos costumes, a arte da negociação e da retórica, o civilismo contra o domínio castrense, o primado do direito e da legalidade, a máxima israelita choca e repugna. Então, no “campo da esquerda”, prisioneiro dos velhos maniqueísmos entre explorados e exploradores, ricos e pobres, opressores e oprimidos, fortes e fracos, autoritários e democratas, imperialistas e libertadores, pombas e falcões, não há forma de a encaixar. E, no entanto, outro paradoxo, a sociedade israelita não só comporta uma forte corrente marxista, um Partido Comunista que já foi poderoso, pluralidade para todas as correntes de opiniões (inclusive a fortíssima corrente pacifista e defensora do diálogo e da harmonia com os vizinhos árabes) e em grande parte da sua existência tem sido governado, isoladamente ou em coligação, por um Partido que é membro proeminente da Internacional Socialista.  

 

Os israelitas sabem (e nós não sabemos?) que se abandonarem a sua máxima dogmática, sequer se vacilarem na aplicação agressiva da prática continuada de “dois olhos por cada olho, três dentes por cada dente”, desaparecem do mapa em três tempos perante a complacência ou a inanidade ocidental. Pois que o mundo islâmico radical, esse fundamentalismo que repugnamos e tememos mas não enfrentamos, os encara como um tumor maligno incrustado em terras suas. E, assim, um Estado que, em si mesmo, é uma sucessão de paradoxos, cria-nos este, agora nosso, paradoxo – reconhecemos-lhes o direito à sobrevivência e à defesa, negamos-lhe o direito a atacarem para se defenderem, choramos as suas vítimas como se eles, os israelitas, tivessem de ser condenados eternos, até à extinção judaica, caminhando ordeiramente pelos caminhos do Holocausto, imitando a vez que o fizeram levados, como um rebanho, pelos nazis. E o nó de todos os paradoxos israelitas é que eles, decididamente, teimam em não se deixarem extinguir. E, entretanto e para nós, só sobra a impotência dos indignados. Assim, como gostar de Israel? Mas eles pouco ralados com as nossas repugnâncias, defendem-se. Atacando. Ou, dito de outra forma, combatendo, por eles e por nós, de formas absolutamente condenáveis e terroristas, a frente fundamentalista islâmica apostada em transformar o mundo em terras e mares com Alá como Amo e Deus único e obrigatório, sem palmo para nele habitarem judeus, cristãos, muçulmanos tolerantes, ateus ou o quer que seja diferente. Assim, como não estar por um lado de que se não gosta?

-------------------------------------------------------------

Nota: Este post transcreve um comentário de discordância que coloquei num post do meu amigo Raimundo Narciso do "Puxa Palavra" e que recomendo a sua leitura. Nada como o pluralismo...

Publicado por João Tunes às 17:05
Link do post | Comentar
7 comentários:
De ana a 20 de Julho de 2006 às 18:00
“dois olhos por cada olho, três dentes por cada dente”, é o veneno que melhor alimenta o ódio dos servidores de Alá. Talião não se atreveu a tanto. Nenhum ser humano consegue aceitar a ideia de que a vida de um seu filho vale menos do que a dum rapaz/soldado israelita.
Sabendo eu, como tão esclarecidamente o João explica, o quanto depende deste modo de estar de Israel a sua sobrevivência, ainda assim, há qualquer coisa que me arrepia, na desproporção de meios disponíveis num e noutro lado. Se alguém luta com alguém de força similar, talvez se abstenha de dar "golpes baixos". Se alguém tiver de defrontar-se com um inimigo agigantado, sabendo que os punhos não chegam, usará unhas e dentes, em desespero de causa.
Não há soluções fáceis, ou não correríamos os riscos que corremos, seis décadas depois da fundação do moderno Estado de Israel, de ver por ali mais uma grave matança de inocentes. Nem só Herodes matou inocentes!
De RN a 20 de Julho de 2006 às 19:00
Aproveitei um interregno nas férias para malhar nesses terroristas (de destruição em massa) que comandam o Estado de Israel convencido que ainda estavas de férias e poderia escapar à tua ardilosa argumentação. Afinal estavas aí à espreita.
Um abraço
De Manuel Maria a 20 de Julho de 2006 às 23:53
Também não acho que essa lei de Talião ao extremo seja justa... Violência gera violência. E só!
O Estado tem direito a existir... o Palestiniano também. Mas esquecemos que o estado judaico foi uma imposição ocidental do pós-guerra. Talvez um preço pela má consciência da complacência com o holocausto. Mas o povo palestiniano também não tem culpa.
Que diríamos nós se nos tirassem também a nossa terra, que herdamos dos nossos avós e a dessem a outros? Gostaríamos?

De C.S.A. a 21 de Julho de 2006 às 00:57
E que aconteceria se deixassem de ter inimigos?
De Vítor Sousa a 24 de Julho de 2006 às 15:49
João, estas linhas, que prevejo frugais, são as primeiras que dedico à espiral belicosa que fustiga o médio-oriente . Pelo calvário do povo judeu, agudizado pelas perseguições e chacinas promovidas pelos nazis, sou obrigado a manter-me fiel à defesa do Estado de Israel. Na contemporaneidade, e devido à logorreia revisionista do presidente iraniano, qualquer palavra censória que incida sobre a política de defesa israelita pode ser estigmatizada. Não acredito que Vital Moreira seja um adepto da amputação de Israel do mapa, embora se insurja contra a estratégia que Israel adopta como antídoto contra os inimigos circundantes. Todavia, no último artigo de Pacheco Pereira no Público, a analogia entre Vital e o presidente iraniano despontou, num claro sintoma de que a dicotomia insuprível impera: ou somos amantes sesgos
de Israel, ou o deploramos.
O meu silêncio deriva dos dilemas que pululam. Reitero a necessidade moral de pugnar pela sobrevivência de Israel, mas os "danos colaterais" - que Pacheco considera inelutáveis e compreensíveis - provocados pelas retaliações israelitas geram tumultos internos. No entanto, se Israel renunciar a uma política agressiva, será esboroado pelos vizinhos. Julgo que os dilemas aflorados guindam-se a amostra das razões que suscitam a inanição do Ocidente, hoje e sempre perseguido pela História como responsável pelo Holocausto.
É possível repudiar a política externa de Israel sem enlanguescer na defesa do seu direito à existência? Não será este outro paradoxo? Neste conflito, há duas facções, e eu quero por força infiltrar-me no meio.
De Marco Oliveira a 25 de Julho de 2006 às 09:59
A mim chateia-me são as análises deste conflito, onde tudo isto é resumido a um conflito entre bons e maus.
De SAM a 27 de Julho de 2006 às 22:06
"Quem se mete com Israel leva"... Indubitavelmente tal asserção é verdade!

Mas porque? Para que? Qual é a finalidade? Sim, a manutenção dum estado que é deles de acordo com as premissas do direito internacional... O mesmo que impede a invasão dum estado soberano e autónomo e o mesmo que impede a morte de inocentes...

Mas ok! O Manuel Maria tem razão ao falar da consciência ocidental depois do holocausto... Vocês têm razão ao dizer que eles fazem de tudo para continuarem vivos! Mas será que é da nossa espécie massacrar para sobreviver? Fazer aos outros o que não quero que me seja feito. A um pensamento de guerra fazer oposição com um pensamento de paz... Afinal, o Cadima ganhou as eleições pela sua sagacidade pacificogenética, ou estou equivocado?

A mais amada de todas as coisas é a justiça, e sem este fundamento básico não se pode chegar à unidade que nos conduza à paz. É o que dizia o poeta persa Saná'í "o coração cobiçoso não alcança a rosa da beleza"... Enquanto quisermos impor a paz por meio da força bélica, não a encontraremos!

Dou a razão ao Marco: as dicotomias entre bons e maus não nos levam a nenhum lado. É necessário sobrepujar pensamentos delimitantes e avançar para uma ordem mundial em que não se ataca porque o outro atacou porque foi atacado antes por ter recebido um ataque do outro e, assim, ad aeternum...

Devemos sim apelar ao melhor e não ao pior, com argumentos de este tem razão por isto ou aquilo, porque, caríssimos, numa guerra ninguém tem razão. Já dizia um grande estadista dos EUA: "não há tal coisa como uma boa guerra".

Oro pelos israelitas mortos pelo Hezbollah, pelos libaneses mortos por Israel, com a mesma devoção que oro pelos massacrados do Darfur, pelos Curdos na Síria ou pelos bahá'ís no Irão!

Comentar post

liuxiaobo.jpg

j.tunes@sapo.pt


João Tunes

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO