Como se sabe, muitos Cadetes milicianos (futuros alferes milicianos que alimentavam o grosso dos comandos de homens em combate na guerra colonial) iam para Mafra depois de terem enfrentado o regime nas lutas estudantis e alguns deles estavam ali precocemente, sem os deixarem concluir os seus cursos, por terem sido punidos com a expulsão da Universidade. Daí que quando me calhou enfiarem-me em Mafra, em
A chegada de J.R. a Mafra mudou muito as coisas. Ele foi para Mafra com o curso concluído de engenharia química e tinha sido o líder estudantil no Porto (onde eu o conhecera e com ele acamaradara nas brigas contra os “fachos”, um e outro a estudarmos no Porto por termos sido expulsos de Lisboa). Era, pois, um veterano e organizado militante contra o regime, com grande capacidade de organização e bom conhecedor das regras conspirativas, mais um grande poder carismático aliado a uma profunda modéstia. Com ele, muito mudou
[O J.R. foi, mais tarde, parar ao quartel de Chaves e depois mobilizado para a guerra
Para os que não desertaram, mas estavam contra aquela guerra, a experiência da guerra colonial foi particularmente dolorosa e acarretou sublimações de profundas contradições. Sobre a forma como cada um as fez, cada um saberá de si, havendo escassez de testemunhos para bem entender o fenómeno. O certo é que, em termos globais, o contacto destes jovens oficiais milicianos, nos vários teatros de guerra, com os oficiais do quadro, nomeadamente capitães e majores, eles próprios cansados da guerra, sem lhes vislumbrarem vitórias definitivas no horizonte, nem capacidade do regime de lhes dar soluções políticas, acabou por resultar no MFA e num golpe militar que mudou o País, restaurou a democracia, com o fenómeno espantoso e acelerado de transformar, em pouco tempo, oficiais colonialistas por profissão em oficiais antifascistas por devoção (alguns até em socialistas revolucionários). E a escola para este “contágio” começava em Mafra, naquele convento-casarão-quartel onde, com todas as pressas, se fardavam, para fazer a guerra, muitos milhares de mancebos que vinham frescos da vivência de tentarem respirar liberdade nos anfiteatros universitários.
Imagens (fotos do meu álbum):
Em cima: Aprendendo a praticar a democracia estudantil num tempo de ditadura e entender, nessa contradição, o absurdo do salazarismo e da guerra colonial (1964). A idade era a dos verdes vinte anos.
Em baixo: Aprendendo, em Mafra, a vestir farda e manusear arma para servir a guerra colonial como oficial miliciano (1968) (I). Com vinte e quatro anos, faltavam ainda mais três para despir farda e largar a arma, dois deles (II) na guerra na Guiné para defender o Império fora do tempo da História, autoflagelando a consciência sobre o que fazia ali, naquelas bolanhas no chão "deles". No regresso à vida civil e produtiva, à luta também, já carregava a "velhice" dos vinte e sete anos. Dito de outra forma: os fascistas e os colonialistas (de que são herdeiros os "neo" que negam agora que tenha havido fascismo "puro" em Portugal, preferindo a etiqueta benigna de "autoritarismo conservador", mais os que suspiram de saudade pelo Império e pelo regresso de "um novo Salazar" para remeter o país à Ordem) roubaram a muitos, tantos, demasiados, os melhores anos da alegria da juventude, não permitindo amadurecer em liberdade e na decência.
(por ordem analfabética mas não por acaso)
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