Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

GUERRA COLONIAL versus CADETES MILICIANOS

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Como se sabe, muitos Cadetes milicianos (futuros alferes milicianos que alimentavam o grosso dos comandos de homens em combate na guerra colonial) iam para Mafra depois de terem enfrentado o regime nas lutas estudantis e alguns deles estavam ali precocemente, sem os deixarem concluir os seus cursos, por terem sido punidos com a expulsão da Universidade.  Daí que quando me calhou enfiarem-me em Mafra, em 1968, a maioria esmagadora dos Cadetes tinha já convicções mais ou menos consolidadas contra o regime e contra a guerra colonial. Claro que havia os “apolíticos” e um ou outro que até aderia ao militarismo. Mas “patriotas” convictos e convencidos da justeza da guerra, contavam-se pelos dedos e acabavam por fazer figuras algo excêntricas nos sentimentos dominantes e nas conversas. Eram os que chamávamos de “chicos” e “fachos” que, por regra, acabavam por ficar isolados. E alguns mudaram posteriormente de posição quando da experiência concreta na guerra, o que pude também constatar em diversos casos.

 

A chegada de J.R. a Mafra mudou muito as coisas. Ele foi para Mafra com o curso concluído de engenharia química e tinha sido o líder estudantil no Porto (onde eu o conhecera e com ele acamaradara nas brigas contra os “fachos”, um e outro a estudarmos no Porto por termos sido expulsos de Lisboa). Era, pois, um veterano e organizado militante contra o regime, com grande capacidade de organização e bom conhecedor das regras conspirativas, mais um grande poder carismático aliado a uma profunda modéstia. Com ele, muito mudou em Mafra. A oposição à guerra evoluiu, entre os Cadetes - uns com "canudos" frescos e ainda sem aplicação profissional, outros com os cursos interrompidos por razões repressivas ou por falta de aproveitamento académico -, dos desabafos soltos para uma organização estruturada de denúncia e combate à guerra colonial. Desse grupo, lembro-me de outros antigos dirigentes e activistas estudantis. Nos fins-de-semana, tínhamos as nossas reuniões conspirativas em Lisboa, durante a semana fazia-se o que se podia – contactos com quem revelasse consciência anticolonial, umas tarjetas contra a guerra espalhadas à noite pelas casernas, pinchagens nos corredores ("Abaixo a Guerra Colonial!"), apelo a que se ouvissem as emissões da Rádio Voz da Liberdade (em Argel), etc. Entretanto, eu saí de Mafra (quando o J.R. lá chegou, eu já tinha feito a recruta e estava a tirar a especialidade) e o J.R. por lá continuou por mais algum tempo. E com bons “resultados” como herança política, pois num dos posteriores juramentos de bandeira deu-se um célebre protesto dos Cadetes milicianos concretizado na própria cerimónia do juramento de bandeira, perante a "generalada" e as famílias dos Cadetes, em que em vez de palavras de jura da disponibilidade de defender a Pátria confundida com o Império, ter havido antes um colectivo, alargado e simultâneo “descuido” de se carregar numa patilha e deixar cair os carregadores da G3 no chão, coisa que foi uma realíssima bronca.

 

[O J.R. foi, mais tarde, parar ao quartel de Chaves e depois mobilizado para a guerra em Moçambique. Então, desertou mas não saiu do país, passando à luta como militante clandestino. Poucos meses antes do 25 de Abril, foi apanhado pela PIDE e selvaticamente torturado (imagine-se o que era a PIDE caçar um desertor e militante clandestino!), não tendo passado muito tempo de prisão nem sido julgado porque, entretanto, deu-se o golpe. A minha amizade pelo J.R., tecida em laços tão fortes, tão partilhados e tão arriscados, não perdeu nada da sua ternura quando, já em tempos de liberdade, o reencontrei e o obriguei a um abraço, ele imbebido em solidão e culpa, num bar das noites lisboetas, olhos baços e fugidios, afogando a vergonha em copos, por, a poucos meses da meta da libertação, se ter ido abaixo perante os pides torcionários, arrastando umas dezenas para os cárceres da polícia política, a última grande vaga de prisões feita pela PIDE. Eu sabia bem que a luta contra o fascismo e o colonialismo não era feita por santos sem pecado ou por heróis plenos e míticos, mas sim por homens e mulheres, os inconformados, trazendo no corpo e na alma os seus medos, suas forças e suas fraquezas. Porque foram homens e mulheres, em toda a dimensão e leque da natureza humana, através de altos e baixos, aqueles que, demorando embora tempo demais, acabaram por vencer o fascismo e o colonialismo, só demonstrando que a queda da ditadura e a conquista da liberdade que hoje se respira não foi feita por outros em nosso nome, mas apenas por nós, os de então, seres humanos a quem o acaso histórico deu essa missão.]

 

Para os que não desertaram, mas estavam contra aquela guerra, a experiência da guerra colonial foi particularmente dolorosa e acarretou sublimações de profundas contradições. Sobre a forma como cada um as fez, cada um saberá de si, havendo escassez de testemunhos para bem entender o fenómeno. O certo é que, em termos globais, o contacto destes jovens oficiais milicianos, nos vários teatros de guerra, com os oficiais do quadro, nomeadamente capitães e majores, eles próprios cansados da guerra, sem lhes vislumbrarem vitórias definitivas no horizonte, nem capacidade do regime de lhes dar soluções políticas, acabou por resultar no MFA e num golpe militar que mudou o País, restaurou a democracia, com o fenómeno espantoso e acelerado de transformar, em pouco tempo, oficiais colonialistas por profissão em oficiais antifascistas por devoção (alguns até em socialistas revolucionários). E a escola para este “contágio” começava em Mafra, naquele convento-casarão-quartel onde, com todas as pressas, se fardavam, para fazer a guerra, muitos milhares de mancebos que vinham frescos da vivência de tentarem respirar liberdade nos anfiteatros universitários.

 

Imagens (fotos do meu álbum):

 

Em cima: Aprendendo a praticar a democracia estudantil num tempo de ditadura e entender, nessa contradição, o absurdo do salazarismo e da guerra colonial (1964). A idade era a dos verdes vinte anos.

Em baixo: Aprendendo, em Mafra, a vestir farda e manusear arma para servir a guerra colonial como oficial miliciano (1968) (I). Com vinte e quatro anos, faltavam ainda mais três para despir farda e largar a arma, dois deles (II) na guerra na Guiné para defender o Império fora do tempo da História, autoflagelando a consciência sobre o que fazia ali, naquelas bolanhas no chão "deles". No regresso à vida civil e produtiva, à luta também, já carregava a "velhice" dos vinte e sete anos. Dito de outra forma: os fascistas e os colonialistas (de que são herdeiros os "neo" que negam agora que tenha havido fascismo "puro" em Portugal, preferindo a etiqueta benigna de "autoritarismo conservador", mais os que suspiram de saudade pelo Império e pelo regresso de "um novo Salazar" para remeter o país à Ordem) roubaram a muitos, tantos, demasiados, os melhores anos da alegria da juventude, não permitindo amadurecer em liberdade e na decência.

 

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Publicado por João Tunes às 00:51
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4 comentários:
De luisepcoelho@yahoo.com.br a 7 de Junho de 2006 às 19:09
Na fotografia de Mafra reconheço alguns Cadetes.
Será a incorporação de 11 de Abril de 1967 ?
De João Tunes a 7 de Junho de 2006 às 22:18
Não, caro Luís, a foto é da minha incorporação na EPI - Julho de 1968.
De vítor dias a 6 de Outubro de 2006 às 23:50

Só agora por acaso descobri este «post» com que em grande parte me identifico. O que eu não sabia é que o mundo era tão pequeno e que eu e o João Tunes eramos da mesma incorporação. Não tem importância nenhuma,mas eu andei sempre convencido que entrá,os em Junho e não em Julho de 1968.
De João Tunes a 8 de Outubro de 2006 às 21:44
Só pode ser um prazer reencontrar (aqui) um "camarada de armas". De facto, as incorporações em Mafra eram 4 anuais e por cada trimestre - Janeiro, Abril, Julho e Outubro. A minha foi em Julho de 1968 para a recruta. Depois, mantive-me em Mafra até ao final do ano porque tirei lá a especialidade de Transmissões de Infantaria. A do camarada comentador, se foi da minha incorporação, só pode ter sido na mesma data (Julho 1968). Mas, concordo, Junho ou Julho foi o menos marcante em importância na experiência. Despidas as fardas há tanto, em vez de continência, segue abraço.

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