Domingo, 24 de Outubro de 2004

ÚLTIMO SEMPRÚN

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O seu último romance (*) será a obra de maior e mais madura hispanidade de Jorge Semprún. Tanto que (apesar da excelente tradução) não consegui segui-lo a pensar em português. As palavras iam-me passando pelos olhos, mentalmente ia-as traduzindo para castelhano, só depois conseguindo apanhar-lhes os sentidos, os sabores, os tons e os requebros.

Ao mesmo tempo que estão aqui os grandes mitos e obsessões do estar hispânico, Semprún faz a grande reconciliação histórica com o passado de divisão entre os espanhóis. Não pelo esquecimento, essa estupidez política da transição democrática que só adiou e interiorizou. Mas pelas pontes, pela relativização dos lados do mal e do bem, do papel absurdo das circunstâncias que tantas vezes viram o mal onde estava o bem e vice-versa, e isso em ambos os bandos e nas trincheiras das duas grandes fixações dogmáticas que levaram os espanhóis a resolverem os grandes diferendos através da morte.

A morte é a grande paixão espanhola, já se sabia. Antes e depois do amor. E mais que a morte e o amor, só mesmo o excesso motiva e faz ferver o sangue aos nossos vizinhos. Bem os quiseram domar, canalizar-lhes a energia letal, metendo-os nos curros da inquisição, da expansão imperial, servindo os extremos das ideologias internacionais, domá-los com padres, freiras e cardeais, generais e legionários, reis e rainhas, missas, muitas missas, nada feito. Só os toros os desviam, os acalmam e os esgotam. E sabe quem alguma coisa sabe – se acabarem com as corridas, deitarem abaixo as praças de toiros, os espanhóis vão, outra vez, matarem-se uns aos outros. Porque, sem toros, cada espanhol tem a forte probabilidade de se transformar, ele mesmo, num toro. Tudo muda, sabe-se. Talvez essa trilogia da grande anestesia em marcha – União Europeia, Aznar e Zapatero – consiga o que não conseguiram os padres, as freiras, os generais e os agentes do Komintern: tornar os espanhóis em gente como as outras gentes. Talvez. Mas convém confirmar primeiro, antes de se arriscarem a fazer a vontade aos queques ambientalistas e proibirem os toros, exterminando estes animais que, sem fiesta, estão condenados a desaparecer (acabando-lhes com o sofrimento e com a existência).

E assim, num romance hispânico, Semprún que mete como personagens a morte, o amor, o ódio e a paz da memória da guerra civil, o incesto, o pecado e a virtude, o grande personagem discreto (mas o mais forte, assim o captei) é um dos Dominguín (para quem não sabe uma família do melhor toureio de Espanha). E a pintura, pois, a pintura – porque Espanha é muito mais que toureio. E ainda, e sobretudo, a memória de Semprún, do homem que foi prisioneiro em Buchenwald, dirigente clandestino contra Franco, trânsfuga do PCE, ministro da cultura no primeiro governo do PSOE. E é entendendo-me com ele, bem, muito bem, que eu me entendo com os seus livros. E com Espanha.

(*) – “Vinte anos e um dia”, Jorge Semprún, Edições ASA
Publicado por João Tunes às 23:24
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João Tunes

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