Segunda-feira, 15 de Novembro de 2004

O SONHADOR PRAGMÁTICO

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Excelente o livro recentemente editado que recolhe a entrevista histórica da Professora Maria Manuel Cruzeiro ao Coronel Ernesto Melo Antunes (*). Mais precisamente, uma fascinante surpresa.

Ali está a política no seu melhor. Na distância crítica e autocrítica, no rigor do fio de interpretação dos fenómenos sociais e políticos, na profunda cultura política (e filosófica!) que impregna o pensamento e a memórias. Em vez da autojustificação e da exaltação individual e de grupo, uma análise serena, fria e profunda, à revolução portuguesa. Uma obra inevitável para se perceber o que se passou em Portugal em 1974 e 1975.

Melo Antunes nunca foi, sabe quem viveu esses tempos, um homem de massas, um exaltado das festas e das celebrações. Parecia estar dentro e estar fora. Tendo tudo a ver com tudo que de importante aconteceu dentro. O que ele não teve nada a ver foi com os caudilhos vulgares que arregimentaram amores e ódios para compensar falta de dimensão, como Otelo, Vasco Gonçalves, Rosa Coutinho ou Pinheiro de Azevedo. Ele conseguiu, qualidade raríssima num revolucionário, fazer a revolução e pensar a revolução, sem se deixar enredar em conveniências de capelas, na demora com tributos, nas cópias das cartilhas e na cegueira das etapas e das paixões.

Com esta entrevista, percebe-se melhor porque é que aquela figura, sempre apagada em ribaltas, esteve sempre, na preparação da revolução, na sua consolidação e na sua travagem, no papel de elemento chave. Percebendo-se que a craveira intelectual de Melo Antunes e a têmpera do seu carácter estavam, de facto, muitos furos acima dos seus inimigos e dos seus companheiros.

Para as gerações mais novas, para quem a Revolução de Abril é um repositório enfadonho de outro tempo, recomendo que leiam este livro como oportunidade de pensar o nosso (vosso) passado além dos estereótipos.

Para os que são da minha época e viveram a revolução - na festa, na luta e na decepção - também o livro é uma boa oportunidade de olhar o nosso passado e a nossa memória, com a distância e o consolo da ajuda da ciência política. Em que, aqui está a prova, Melo Antunes foi Mestre.

(*) – “Melo Antunes, o Sonhador Pragmático”, Maria Manuela Cruzeiro, Editorial Notícias
Publicado por João Tunes às 22:44
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João Tunes

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