Quinta-feira, 18 de Novembro de 2004

ESCAPATÓRIAS PROCRIADORAS

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Tirando os malvados e as malvadas, qualquer ser humano põe a descendência acima de todas as suas preocupações, carinhos e objectivos de defesa e de sucesso. É sangue do nosso sangue, como se costuma dizer.

Queremos o melhor para eles. Orgulhamo-nos dos seus sucessos, ficamos de rastos com as suas tristezas, desditas e desaires. É natural, são o nosso prolongamento na vida, para além da nossa vida.

No entanto, sempre achei que nos pautarmos pelos descendentes, concentrar neles as nossas causas e os nossos constrangimentos, fazer deles o motivo de vivermos, condicionar a eles tudo que se possa fazer, incluindo os riscos, por um mundo melhor, é imaginá-los numa redoma, de que o invólucro somos nós, como se lhes déssemos mundo e habitação social à nossa medida. Uma paranóia, portanto.

Já fui mandado por um presidente que maltratava tudo e todos mas, nas suas exibições de show de poder, projectava, como acetato, um desenho da sua filha pequena. Tentava, afinal, fazer passar uma humanidade e uma capacidade de afecto que negava no relacionamento com outros. O amor pela filha, decerto verdadeiro e profundo, era uma mensagem de exclusividade e de dispensa de gostar de mais alguém. Porque a exibição daquele amor paternal, como a sua suficiente e exclusiva causa, não era mais que uma exibição cínica perante o mundo dos outros.

Já tive uma pessoa que me apoiou, mas que, quando viu os riscos acumularem-se, me avisou: olhe que, quanto a solidariedade, eu sou solidário para com os meus filhos. Ou seja, avisava que aquilo que fizesse tinha como limite a ausência de risco que pudesse afectar a estabilidade económica para dar uma vida boa aos filhos. Teve a sinceridade de colocar os seus limites em pratos limpos – ajudava desde que não se comprometesse. Os filhos eram o bom pretexto. A partir daí, sobrava, só para mim, o meu problema e os dos meus filhos.

E eu sempre agarrado à velha convicção de que o melhor que podemos deixar aos nossos descendentes é uma prática de vida de que eles se orgulhem, uma escala de valores como causa assumida (contestando-os ou combatendo-os, se for caso disso), ajudar a um mundo melhorzinho para eles e os outros viverem.

Os filhos servem para os amarmos e para eles terem o melhor que lhes podemos dar. Mas também são uma boa desculpa para os nossos limites de coragem. Porque quantas vezes não os usamos para justificar as nossas cobardias? Passando a mensagem, sem mais, que a nossa condição é a de procriadores zelosos e que daí não passamos.
Publicado por João Tunes às 17:26
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2 comentários:
De th a 19 de Novembro de 2004 às 10:35
Eu não fiquei em casa ( num casamento esgotado ) com a desculpa que era por causa dos meus filhos, eu saí para um fim de semana e não voltei, para continuar ao lado deles com integridade e verdade, que são coisas que devem fazer parte duma herança. Quando hoje meu filho me diz "a mãe não nos impôs muitas regras, mas transmitiu-nos princípios" , creio ter conseguido alguma coisa de valioso. th
De hammer a 18 de Novembro de 2004 às 21:53
Bem verdade essa limitação algo auto-imposta, mas que muitas vezes é o outro limite, barreira a não ultrapassar por...alguma cobardia. E conheço alguns (muito poucos...) que já se lixaram por avançar mesmo!

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