Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2004

UM SALTO À LOJA DE ETIQUETAS

Imagens antigas 014.jpg

Há quem, no resmungo do fel, goste de se diminuir a atirar etiquetas ao parceiro como último argumento de defesa de redutora razão esotérica. A ver se acerta, nunca desistindo na tentativa de afinação de pontaria. Pensando, talvez, que, de mansinho, um tique destes disfarce uma causa (ou afeição) mal amanhada.

Se quem anda à chuva se molha, eu, que cá ando, tenho a minha conta. Antes, aqui, se calhar ainda sobra para depois. Mas tão molhado tenho sido de etiquetas que aquelas que mandarem agora não têm pano de sobra para fazerem ninho e ensoparem. Venham elas, que vão direitinhas para o chão, depois de ligeiro ricochete.

Eu sei que quem se mete com Fidel, apanha. Mesmo fora da Ilha. O carisma do homem atravessa oceanos e continentes. Má lembrança a minha e talvez inoportuna em demasia para quem passou vida a combater ditadores de direita, agora se lembrando de embirrar com uma estimação da esquerda romântica entrincheirada e do anti-americanismo de bolso e alguidar, advogando causa complexa e intrincada ao defender que não há ditaduras de direita ou de esquerda, apenas ditaduras. E que não há ditadores bons nem maus, apenas ditadores. E que o pior dos políticos que jogam o jogo da democracia, será sempre melhor que o mais coerente e atacado dos ditadores. Paciência, voltando ao mote da chuva. E se sou admirador de Raúl Rivero, não posso deixar o homem a falar e a penar para o boneco. Ora, há que cumprir as preferências. E as causas. E os valores, pois então. Assim, continuarei com Rivero, contra Fidel.

A Lolita já me espetou com um catálogo quase completo de etiquetas, tentando vergar argumentos por essa via. Tantas que aquilo mais pareceu concurso de manias compulsivas. E se eficácia não teve, pelo menos a tentada, julgo eu que foi apenas porque se enganou no número da porta. Mas a penúltima, a de panfletário, essa, então, foi direita ao ego. Porque, em verdade, eu sou do tempo em que tomei consciência de mim a ler panfletos, depois a fazê-los e passá-los de mão em mão. Que era a forma mais livre (não livre, mas mais livre) de se ler, se saber e se mudar. Porque, então, o país vivia sob o jugo unicista da coerência de um ditador, numa ditadura. Talvez, por isso, eu esteja vacinado contra o encanto por ditadores. E das suas malvadas coerências. Os tempos são muito outros e, só por isso, é que continuo por aqui. Mas quando me chamam de panfletário, lá vem o orgulho dos pergaminhos à flor da pele. Vaidade, pois claro.

Já a última etiqueta, a de anónimo</b>, essa é que não engulo sem protesto indignado. Isso não. Anónimo, não sou. Pseudónimo, muito menos. Tenho nome assumido (o que me deram por nascimento), tenho passado, tenho preço pago por causas e por convicções. Asneiras a dar com um pau, mas todas assinadas e delas cumpridas as penas devidas. Dei e dou nome, cabedal e património, pelas causas e teimosias que defendi e defendo. Sou, pelo menos, um cidadão que prescindiu da defesa por via do anonimato. Não tenho blogue sem caixa de comentários, não me refugiei em apelidos inventados de Galdel dos Tangos ou de Carapau de Corrida. Portanto, nada de confusões.
Publicado por João Tunes às 16:22
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1 comentário:
De mfc a 9 de Dezembro de 2004 às 19:18
Não há ditaduras cor de rosa...mas o João não precisa da minha defesa.
Parabéns por tudo.
Um abraço.

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j.tunes@sapo.pt


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João Tunes

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