Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2004

O MEU MOLESKINE

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Sempre tive caligrafia horrível. Incerta, com a direcção desalinhada, mutante nos tamanhos, nas inclinações e na forma de dar as curvas, sempre a puxar para o gatafunho, com uma irreprimível tendência de as letras se escreverem e riscarem ao mesmo tempo. Como se os ventos do turbilhão dos sentimentos estivessem sempre zangados, vingando-se nos dedos que seguram a caneta. Sei que isto é prova de personalidade marada desde os alicerces, própria de um gajo instável e indesejável. Resumindo: sofro de cirrose na caneta.

Gostando de escrever, a má lide com o acto de escrevinhar fez-me sempre adiar a passagem da ideia ao papel. Daí que me tenha treinado a escrever através do pensar. Construindo ideias, projectos e aventuras com a mente à solta, através do ar, sobretudo à mistura com o fumo do cigarro companheiro. Razão pela qual julgo que a isso se deva ter as ideias a puxar para o fumado, tipo presunto mal curado. E que também serve de explicação para o meu gostar de pensar as coisas por fatias, fininhas se possível, gordura toucinheira qb, para não baralhar a abrangência de conjunto e sem lascar o osso dos valores. A passagem da ideia e do delírio ao papel ficou sempre para o fim. E por aqui me justifico por nunca ter escrito um livro. Nem sequer um folheto. O melhor que consegui foi parir panfletos. Porque eram curtinhos para se ler rápido e meter no bolso. Resumindo: sou um panfletário por sindroma calígrafo.

Quando, uns vinte anos atrás, apareceram os computadores, chegou-me o fascínio perante a maravilha da superação do meu handicap. Passei a ter uma letra igualzinha aos mais esmerados calígrafos. Tornei-me, democraticamente, um cidadão igual a qualquer amanuense de primeira, espalhado que esteja noutro ponto do planeta. E se Lenine viu na electricidade, misturada com os sovietes, a culinária do comunismo, eu sou um convicto crente de que a democracia vai dominar o mundo com o voto mais o teclado. Resumindo: sou um teclo-democrata.

Esta semana, um querido amigo meu ofereceu-me um negro bloquinho Moleskine. Percebi-lhe a intenção, emocionando-me o afecto da lembrança e do simbolismo, mais o carinho pendurado. É catita o meu Moleskine, prático no bolso, fácil de escancarar na mesa do café ou no comboio, até funciona numa fila de espera, convidativo no pedido de recheio. As vezes que o tenho mirado e remirado, folheado e até afagado com as pontas dos dedos. Quando saio, a última coisa que verifico é que o sagrado Moleskine está bem deitado dentro do bolso. O problema é que ele promete morrer virgem. Porque a estima pelo Moleskine é tamanha (um pouco do meu amigo está lá dentro), que não me atrevo a rabiscá-lo. Pois se a letra sempre foi péssima, o seu desuso continuado transformou-a numa charada tal que só ia conspurcar o bloco. Mas como ele me serve de inspiração para pensar! – dando liberdade aos rompantes do sentir, enquanto os dedos folheiam o meu estimado bloco negro. E quando uma ideia ou um lugar comum me parecem suficientemente aparados, ala que o teclado do portátil te espera. Resumindo: agora escrevo com o apoio de um talismã de capa negra e que é bem mais maneiro que a ponta de uma caneta.

As coisas que a amizade é capaz!
Publicado por João Tunes às 01:30
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