Domingo, 19 de Dezembro de 2004

FANTASMAS?

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Sob o título “O Espectro do Bloco Central”, o Manuel Correia (cujo regresso às lides se saúda) postou sobre as questões cruciais das políticas de alianças e do fantasma do regresso à fórmula do Bloco Central. E levanta questões pertinentes sobre os bloqueios que incapacitam entendimentos à esquerda.

De facto, e apesar de muito badalado, não acredito num entendimento PS/BE, mais por parte dos bloquistas e para não perderem o património do seu crescimento moderado que, aos olhos do Bloco, permitem conservar radicalidade e poder de atracção. Quanto ao PCP, as possibilidades nunca estiveram tão afastadas como agora, retomando-se a velha dicotomia revolução/contra-revolução. E com uma campanha da CDU a transformar o PS em bombo de festa, com propostas datadas em 1975, como se augura pelos primeiros passos da pré-campanha, então tudo tenderá a piorar. Aliás, se o PCP desistiu, de facto, de tentar inverter o declínio eleitoral, procurando conservar a maior parte dos cacos da loiça partida, é porque a opção por responsabilidades de governação foi afastada.

Com a alternativa de esquerda (em termos de governação) reduzida ao PS, com ou sem maioria absoluta, torna-se confuso o que vai sair daqui. E não vejo que se possam afastar os cenários levantados por Cravinho e lembrados pelo Manuel Correia. Nem uma ingovernabilidade que leve à reedição do Bloco Central (com o PSD de volta à cátedra, pelo menos, de Cavaco), nem a hipótese, teórica mas não descartável, da deriva presidencialista, sob o mando (e manto) messiânico do Professor Cavaco.

E tudo pode passar pela tendência de Sócrates em deslocar-se para a direita, sentando-se no eleitorado “social-democrata” (chamemos-lhe assim) que foge de Santana e de Portas. Num quadro em que as alianças de esquerda se impossibilitam, o PS só se aguenta no balanço com uma política de esquerda, mobilizando a esquerda, e neutralizando, assim, a oposição de extrema-esquerda. O problema está também na disponibilidade também do PS (mais do que a de Sócrates) em preferir um perfil de esquerda à mera contabilidade comezinha da distribuição do poder, dos poderes e dos jobs. Para mais, quando a facilidade com que a direita se desacreditou promete entregar-lhes o poder de mão beijada. Ou seja, em que medida o PS profundo vai puxar Sócrates para a esquerda ou para o centrão. E o guterrismo, se é que faleceu, não desapareceu há tanto tempo que a memória não o tenha bem presente.
Publicado por João Tunes às 23:49
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1 comentário:
De Manuel Correia a 20 de Dezembro de 2004 às 01:22
João Tunes, obrigado pelo teu jeito amistoso de me receber de volta na blogosfera. Vindas do criador do BOTACIMA e do ÁGUALISA, as tuas palavras impressionam...
De facto, para mim, a cartada messiânica que se desenha nalgumas estratégias, compagina-se com o cenário rosa-laranja do Bloco Central. Sabemos que a filosofia do BC permanece como critério de nomeações «responsáveis» e «equilibradas», envolvendo instituições e áreas que não podem ser deixadas à voragem das maiorias democráticas e do método de Hont. Mas, neste caso, o lance visa o período que se seguiria a um governo socialista de maioria relativa. Apesar de desejar que o PS tenha uma prestação compatível com o apoio de outras forças de esquerda, vejo, com preocupação, o tique autoritário de Sócrates aflorar na sua re-promessa «científica» da co-incineração. Se o tom for esse, e ele teimar nas seus processos de «imposição racionalista», consegue, quase de certeza uma maioria relativa, aproximando-se do cenário que as centrais patronais favorecem e o PSD, descartado de Santana Lopes, não desdenhará, para salvar a nação.
Em todo o caso, um abraço do

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