Sábado, 22 de Janeiro de 2005

POST ARMADO EM ÚTIL

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Não precisarei de pôr mais na escrita sobre a minha embirração para com Sócrates (ele mesmo), as suas escolhas e a sua campanha. Que tão pouco jogam, excepto quanto ao voto, com as minhas vontades de mudança. Sobre isto, já lhe entornei em cima dose graúda do fel do meu desencanto. Por isso, acho que, com Sócrates e com o PS dele, tenho direito a ter a vesícula em paz. A menos que ele me consiga irritar ainda mais, o que é pouco provável, tamanha foi a devastação provocada por tanto vinagre que ele anda para aí a entornar mal as hostilidades foram inauguradas. E que só se acentuaram com o arranque da carruagem.

Continuar a malhar no Sócrates, coloca o problema da eficácia e dos efeitos. Mais as responsabilidades agarradas a qualquer opção. Porquê? Porque isto não é jogo de canasta nem cabra-cega de meninos graúdos a divertirem-se com a política como adolescentes retardados a tocarem campainhas de portas dos vizinhos. Sobretudo porque esta merda de país tem de ter saída e futuro. E eu gostava que ele saísse desta cena pela esquerda.

Falando de poder e de governação, infelizmente, a dicotomia instalada leva-nos a escolher entre Sócrates e Santana. Disse, e repito, infelizmente. Mas é a realidade e, essa, não está ao alcance da (minha) mão mudá-la. Não tenho varinha mágica, pronto.

A direita é o que é e arrepia-me. Pelo populismo irresponsável de Santana. Pela ameaça da dureza cínica de Portas. Nunca tivemos pior direita e eu quero-a ao largo. Bem longe. Porque a perspectiva de um renovar, legitimado pelo voto, desta direita, podia, simplesmente, inviabilizar uma saída democrática para os efeitos do seu governar em estilo gordo. E se o voto popular legitimasse esta direita, então a minha leitura só poderia ser a de que, democraticamente, a maioria dos portugueses optaram por deitar o país aos bichos. E, como dizia o outro, seria hora de emigrar para a democracia bielorussa.

Sabemos que Sócrates, além dos defeitos graúdos do seu estilo, levou o PS para o pior do PS e para a fixação na sedução de um centrão que é um somatório de PSD rosa mais PS laranja. Esquecendo, estupidamente, que a estratégia para a maioria absoluta do PS devia ser (só podia ser) recolher os votos do PSD rosa desencantado com Santana, somando-lhe o máximo de votos no eleitorado de esquerda não dogmatizada (e o fadista Jerónimo, para esse efeito, até apareceu no momento certo). Sabendo que algumas sobras iriam engordar um Bloco pouco exigente, que se contenta, preferindo até, mordiscar uma entremeada (por ser vegetariana, em termos de identidade política).

Se a unidade de esquerda sempre esteve longe, nunca o terá estado tanto. O PCP regrediu para o saudosismo fatela do PREC, vestindo ganga quando os operários de hoje são suficientemente tecnocráticos para não dispensarem traje marcando menos a condição. E a regressão foi de tal forma que o filme do PCP parece fita bobinada ao contrário, tardando nada, com o Jerónimo a parecer actor do cinema mudo. Quando muito, serve para a catarse de ressentimentos (legítimos na sua maioria, sem dúvida). Quanto ao Bloco, sabe-se bem que a sua responsabilidade se esgota na chantagem pela arrogância no seu crescimento. Não querem governar, querem deitar os seus foguetes a apanhar as suas canas. Aliado indesejável e insuportável, pois. Porque só um masoquista gostará de negociar sob chantagem e com um candidato a parceiro que só quer paródia.

Resta o quê? Muitas coisas. Ou seja, vários cenários-alternativas. Quem exclui uma vitória de direita que se cuide porque ela não é impossível (se os erros de Santana ofereceram o poder à esquerda, a forma como a esquerda se embebeda em delírios e em pruridos, em arrogâncias e em chantagens, pode ter um efeito perverso regressivo). Depois, podemos ter um governo centrista do PS. Ou uma crise política que desemboque no Bloco Central. Bonecos de encomenda, não é na política que se arranjam, é na olaria.
Publicado por João Tunes às 17:29
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3 comentários:
De Joo a 26 de Janeiro de 2005 às 16:20
Ao mfc direi que estou com ele mas com um tempero de pragmatismo. Ao José António, só lembro que abrir um blogue é fácil, rápido e grátis.
De jose antnio a 23 de Janeiro de 2005 às 18:48
Não sendo um comodista político, estive, mesmo antes do 25.4, sempre contra o "status quo" e na frente de luta. Nunca fui comprometido com nenhum partido político mas as minhas ideias políticas sempre foram coladas à esquerda. Acontece que também nunca tive crises existenciais durante eleições, quaisquer elas fossem. Também posso gabar-me de nunca ter ganho uma eleiçao, e porquê ? Adoptei O PCP como meu patrono político. São necessários à democracia o mais que não seja para desmascararem as políticas de direita. O paradoxo é que não sou comunista convicto. O que lhes admiro é uma certa coerência. Embora muitas vezes me custe admitir certas directivas. Gosto de muito de ter um discurso políticamente incorrecto sem estar ao arrepio das conveniências. Nunca gostei do CDS, pelos motivos óbvios, nunca gostei do PSD e nunca gostei do PS porque nunca, mesmo antes do 25.4, gostei do Mário Soares e os seus zigue-zagues. Claro que, com este perfil estou sempre a levar pancada mas, o meu consolo é que os apaniguados dos chamados grandes também levam pela medida grossa. Nunca contribui para o descalabro deste País. Isto deve ser um defeito, não qualidade. Do mesmo modo não sou de Benfica e do Sporting. Não gosto dos grandes conjuntos que professam as mesmas ideias. Isso leva à divisão.
De mfc a 23 de Janeiro de 2005 às 04:09
Concordo que isto não seja canasta.
Mas pode ser "bridge" e há o perigo dos "cabides" serem muitos!

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