Domingo, 9 de Janeiro de 2005

AINDA A VACA FRIA DAS MAIORIAS

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Tenho assistido, entre o perplexo e o divertido, o que é óptimo para que isto não seja demasiado cinzento ou mórbido, aos esforços programados dos eleitores à esquerda e que fazem depender o depósito do voto no PS da impossibilidade de este partido ter maioria absoluta. Ou seja, só votam PS para que a Direita não ganhe, mas desconfiam o suficiente do PS para acharem que, vá lá e dadas as circunstâncias, que da maioria relativa não passe.

Entre os vários argumentos que por aí abundam, talvez o mais eloquente tenha sido o do Manuel Correia (poucas vezes tenho encontrado polemistas estimulantes como os deste blogue) e que se saiu com esta:

"O PCP e o BE, com representações parlamentares distantes de maiorias simples, sublinham a importância que as respectivas formações partidárias poderão ter para se constituirem em alter-ego do Partido Socialista num Parlamento"

Concordo que as maiorias "absolutas" não se pedem (afinal, cada eleitor só tem um voto para dar). Mas também não são rejeitáveis (resultam da mera soma de votos). Nem as maiorias relativas são desastres (aguente-se quem as tiver) nem o são as absolutas. São apenas dois quadros que resultam de vontades eleitorais e há que se governar com qualquer delas. Por isto, não entendo os prisioneiros das "absolutas" (em que só conseguem governar com elas) nem os eleitores que fogem delas como o diabo da cruz e tentam preveni-las com base em sondagens. Porque então, esses eleitores (os anti-absolutas) votam por sondagens... ou não?

Atribuir ao PCP e ao BE o papel de alter-ego do PS é que ainda entendo menos. Acho até que, dizê-lo, é faltar ao respeito pelos dois pólos (para mais, concorrentes entre si) da extrema-esquerda parlamentar. Porque se onde se quer chegar é dar ao PCP e ao BE a missão de "levarem o PS à força para a esquerda" (por via da maioria relativa), isso está longe de entrar na figura do alter-ego, antes configura a crença na capacidade eleitoral de transformar, por fora, um partido reformista num partido revolucionário (e de massas, nas duas variantes possíveis: com a vanguarda (re)entregue à classe operária - caso do PCP, ou à amálgama radical urbana - caso do BE). Mas isso é coisa que, a fazer-se, não se faz no Parlamento, o último sítio para transformações revolucionárias. E julgo que sei onde se faz (ainda tanto não terei esquecido): é na luta de classes da dicotomia trabalhadores-burguesia, e nas outras dicotomias - na área dos costumes e da luta intelectual.

Cada coisa no seu lugar. Ou no seu espaço. A caracterização política e ideológica tem espaços próprios para se darem as transformações, cisões e fusões. No momento eleitoral, é a contabilidade do voto e do figurino do poder que estão em causa. As duas dinâmicas não se compadecem com cruzamentos. E, na altura do voto, não há que o tornar opaco e dar-lhe maior ou menos importância do que ele tem. Um homem, um voto. Tanto e apenas. Sem a capacidade de mudar a cor de um partido. Sem que alguém, individualmente, tenha poder para alterar o quadro nacional de todas as vontades. Sem essa capacidade mágica de obrigar o PS a governar à esquerda (para os que acham que ele, se “absoluto”, vai fazer política de Direita), como se, igualmente, fosse possível democratizar o PCP (ele que quer continuar a ser marxista-leninista, revolucionário sempre) ou transformar o BE num partido com vocação para a responsabilidade de “sujar as mãos” na governação e nos compromissos que isso sempre implica (o que ia estragar as festas das performances bloquistas para os órfãos de toda a esquerda, metendo no colete de forças colectivo a sua estrutura de confluência de individualismos).

Nota: Este post é uma versão revista de um comentário que coloquei ao texto do Manuel Correia no Puxapalavra. Dei-lhe aqui espaço para me estender mais à vontade.
Publicado por João Tunes às 17:52
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4 comentários:
De Manuel Correia a 10 de Janeiro de 2005 às 01:42
João,
obrigado pela referência. Como não fazia ideia que vinhas discutir a coisa para o ÁGUA-LISA, respondi-te no PUXA-PALAVRA ao teu comentário. Acho muito pertinente a tua «charge» relativamente ao «alter-ego», mas, como mais desenvolvidamente respondo no PUXA-PALAVRA, é uma questão de categorização. Eu não adopto a do PCP e do BE; eles podem adoptar a minha, se quiserem; tu, para sustentares o teu ponto de vista, tens de me «obrigar» a usar a terminologia deles - sacrifício a que eu não obrigaria o meu pior inimigo!...
Um abraço
De IO a 10 de Janeiro de 2005 às 00:40
mfc: se te referes ao filme do Chaplin, penso que, infelizmente, continua actual, basta ver a pose do patronato frente às 'pausas'... se falas da revista do Sartre, pois... ele também não era muito de se fiar na maioria que o JT quer...
De mfc a 9 de Janeiro de 2005 às 21:36
Mas estamos ou não a cair nos "Tempos Modernos"?
De IO a 9 de Janeiro de 2005 às 18:17
Eu nem entro na discussão!... _ uma que 1. é laica, republicana e socialista; 2. Se acha que o PS, com maioria absoluta, governa à direita, foi porque o próprio PS assim a levou a concluir, em governação anterior; 3. Jamais votaria PCP.

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