Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2005

TAKE WAY

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Poderia ficar a dúvida, por um post recente, que me tornei num defensor tardio do Bloco de Esquerda. Nem pensar. Deus me livre que para ali não está guardada a remissão dos meus pecados. Só não gosto é de condenações apressadas e de rápido tiro na nuca. Até porque o pior, em política, é subestimar adversários.

Disse e mantenho que o Bloco já não é o que era. Engordou, conservando a elegância. Mas no tremendo pânico de se tornar respeitável por se aproximar da idade de ser responsável e consequente pelos seus actos. Um género político do adolescente quase homem e à beira de constituir família, não despegando do sentimento de perda da protecção maternal.

Ainda ostenta na parede da sala de visitas, como avôs protectores, as figuras tutelares da sua origem imaginativa em que, de grupelhos espalhados, construíram um albergue de juventude. Lá estão o patriarca Louçã, o irmão mais velho e o inteligente para todo o serviço; Portas, o da energia partidária como se nunca tivesse saído da UEC; Fazenda, émulo de classe do Bernardino da cadeira revisionista ao seu lado; Rosas, o professor sábio e bom que nunca ralha e a todos dá notas porreiras. Assinalando, todos os quatro, a santíssima quadratura que assistiu ao parto do círculo, meio partido, meio tertúlia. Mas com o mérito assinalável de, comprometendo sem comprometer, fugindo da definição e da ideologia como diabo da cruz, purificados pela distância do poder, absorvendo com talento os inputs da comunicação de efeito por perda de cor, recorrendo às formas de atracção do teatro de rua, especializando-se nas performances a substituir a chatice dos comícios, concentrando, enfim, o poder atractivo da radicalidade pura (mas dura, quando necessário). De tudo resultando, esse produto vendável que é a esquerda ecologicamente política.

O certo é que o Bloco cresceu e crescerá. Tem esse poder de depósito de votos dos que estão em trânsito ou zangados com as postas mirandesas da esquerda. Com a vantagem digestiva, como fast food que é, de não nos amarrarem tempos inúteis à mesa à espera do cozido e dispensarem a água bicabornatada para a ressaca. Cada um pode abancar-lhe à mesa sem procurar saber do vizinho de onde vem e para onde vai. Todos estão de passagem. Todos são inteligentes. E se a pressa é grande, também ali se pode fazer take way, pega-se, leva-se para o sofá de casa, espreita-se as homilias do Louçã na tv, resmunga-se contra a esquerda velha e contra a esquerda que é direita, deposita-se o voto e venham novas eleições para termos mais votos.

Para além dos méritos evidentes da manutenção da frescura no seu poder de atracção, que parece não ter esgotamento à vista, o Bloco desempenha um papel não desprezível, filantrópico até, de manter gentes diversas na ilusão de uma opção de prática de esquerda. E, por isso, o Bloco é bom para a esquerda. É terapia para o desencanto e para a deserção. Congelando utopias, conserva sonhos à beira da descrença.

Um dia, com barba grossa e barriga a começar a pesar, o Bloco vai ter de pensar em casar, montar casa e aturar e alimentar família. Deixando de viver das mesadas dos órfãos e do efeito do protesto. Oxalá aguente até isso se ver. Sem Bloco, esta esquerda perdia a graça toda.
Publicado por João Tunes às 17:14
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3 comentários:
De Joo a 26 de Janeiro de 2005 às 23:04
Que nunca deixe de se zangar, caro Werewolf. Abraço também.
De Werewolf a 21 de Janeiro de 2005 às 22:12
Excelente análise, mesmo fazendo eu parte dessa esquerda "zangada" que está cheia de aturar os que se dizem de esquerda quando tem uma prática direitista ou da esquerda dogmática que parou no tempo e no espaço, a verdade é que partilho integralmente, ou quase, a sua análise. Só espero que o Bloco não engorde demais nos próximos tempos para me permitir, ou pelo menos sentir que, tenho ainda alguma alternativa.
Abraço, meu caro amigo e cúmplice.
De Ana a 20 de Janeiro de 2005 às 23:21
Interessante análise.

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