Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2005

ÁFRICA POR EURO-SONHOS

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África é uma chatice como enigma e como atracção. Para viver e para entender. Sobretudo para resolver. Mas, como uma tragédia nunca vem só, África é bacana para sonhar, idealizar, pintar e acenar. Por uma e outra coisa, não só mas também, é que as coisas estão como estão.

Um dos males de África, vista pelos europeus (dizendo claro: através da perversão euro-centrista), é que é olhada para baixo, seguindo a linha descendente do globo terrestre, mas com o inconveniente de a colocar ao nível dos sapatos. O que implica que corramos os riscos de sonhar com África, não com a cabeça pensante, mas com os pés. E, em termos de pés, não andamos muito longe dos nossos antepassados negreiros. Ou dos tios-avôs missionários, ou dos chefes de posto, ou dos coronéis comandantes de batalhão de caçadores, ou do chefe dos guardas do campo de São Nicolau. Ou do maricas espião Lawrence que andou por lá, bem no norte, a levar a água ao moinho de quem lhe pagava (bem).

Depois, para além dos interesses, existe esse enorme poder de atracção pelo simétrico. Tendemos a gostar do diferente por fastio da semelhança. E, aí, África funciona como uma nossa contra-senha. O Zambeze e o Kwanza dissemelham com o Tejo, o Vouga ou o Douro. O pôr do sol visto na savana é um contra-luz em vermelho do que se espreita no Cabo Espichel. Os leões em Sete Rios estão decadentes, lá estão em casa. Em África, as acácias são vermelhas. As águas são mais quentes que as da Costa da Caparica, já para não falar na Póvoa de Varzim. E, importante, não temos imbondeiros por cá, abundando por lá. E por aí fora. Um nunca acabar de diferenças e de fascínios.

África é, pois, uma beleza. Verdade que África tem africanos. Sobraram e reproduziram-se dos que sobraram no fim da escravatura. África tem malária, tem Sida, tem meninos e meninas que morrem por uma diarreia benigna, tem corrupção, teve e tem a praga do racismo (racismo branco, racismo negro, racismo inter-negro). Tem etnias acantonadas a régua e esquadro na Conferência de Berlim que se matam aos milhões. Tem matérias-primas e fome. Tem africanos. E como tem africanos, tem chefes africanos que aprenderam com os colonos o pior do colonialismo europeu. Porque, enquanto lá estivemos, nós os que tanto gostamos do seu sortilégio, favorecemos mais que os africanos e africanas aprendessem e se refinassem na arte da criadagem que em permitir-lhes disputar os (nossos) saberes e as (nossas) competências. Porque havia a ilusão que sempre mandaríamos neles, nunca eles mandariam em si próprios, muito menos mandariam em nós. Por isso, aquilo “já não sendo nosso”, hoje vamos (ou gostávamos de ir) a África para molharmos os pés no mar, sentarmo-nos na esplanada a ver o pôr-do-sol a beberricar o gin tónico trazido pelo criado africano de sempre e espreitar-lhes o artesanato e os leões. E se não vamos, sonhamos com ela. Sonhamos com uma África “limpa” boa para sonhos. E, para jogarem com a paisagem, cheia de “africanos bons”. Como se lê nesta miséria dos sonhos, ou nesta pobreza na vontade de sonhar, exposta aqui:

”Não sei porquê, mas quando penso em África, sinto um nervosismo miudinho, daquele que uma pessoa tem quando está numa inquietação, numa impaciência que não sabe explicar bem a razão.
É curioso que quando penso em África, penso sempre em grande, ou seja, penso no Continente e não nos países que o compõem, penso no Tempo, como ele para mim seria indiferente e mais “digno” e no espaço, maior, mais amplo, sem linhas de horizonte.
Já tentei arranjar uma explicação lógica para isto e não consigo. Para mim África faz parte de uma das muitas ilusões que guardo só para mim, daquelas que servem para as noites de insónia. Em vez de contar carneiros, imagino desertos de areias douradas, savanas com leões a dormir a sesta no pico do calor, em mulheres com capolanas de cores garridas, nos mercados ruidosos e caóticos, nas feitiçarias ao cair da noite.
Sou suspeita nos sentimentos e na imagem que tenho deste continente tão diverso e tão contrastante, isto porque só vejo dois géneros de África, a contada pelos meus pais, de avenidas ladeadas por acácias, próspera e prazenteira e a do Lawrence da Arábia, de desertos dourados, dos beduínos plenos de uma invejável arrogância, dos territórios marcados por oásis e das cidades das mil e uma noites.
Nunca penso numa África martirizada pela guerra, pela fome, vandalizada por políticos sem escrúpulos, composta por gente de sacrifício, que luta pela sobrevivência.
No meu íntimo nego estas imagens e insisto em imaginar a África do mais belo pôr do sol e confesso que verdadeiramente anseio pelo momento em que este Continente seja liderado por gente honesta que defenda valores tão africanos como o da liberdade, o da partilha e o do respeito pela natureza.”
Publicado por João Tunes às 01:03
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3 comentários:
De IO a 27 de Janeiro de 2005 às 00:33
África, minha querida memória & Utopia!!! _ depois de te ler, até vou dormir melhor, João, beijo de boa noite!, IO.
De Joo a 26 de Janeiro de 2005 às 23:49
Há-de andar, há-de andar...
De IO a 26 de Janeiro de 2005 às 16:14
É, sonho fumo, de uma África que vivi, porque o tempo era 'outro'. Só que o meu privilégio tinha um preço, o que era pago por todos os outros. Por isso, jamais direi 'oh tempo volta para trás'_ que nunca mais! Ah, kurti o comentário que lá deixaste. _ ANDA PARA A FRENTE, ÁFRICA, POR TI!!!

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João Tunes

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