Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2005

MARTINHO DA ARCADA

13_CafeMartinho[1].jpg

O Jumento, sempre atento, fiel às suas fidelidades, lembrou os 223 anos de vida do Café Martinho da Arcada.

Fez bem e agradeço. Não tanto pelo Martinho de hoje, num Terreiro do Paço cada vez mais longe dos meus pés (embora lhe deseje a prosperidade merecida pela teimosia em, ainda, não ser balcão de banco). Mas pelo vivo da linha do alinhavo metido na memória, como que a querer subir a bainha da calça em retorno ao tempo moço.

Na minha infância e entrada de juventude, vivendo no Barreiro, o Tejo era um mar grande e a cidade gigante, em frente, era o grande mundo. Nós éramos um bairro e o mundo estava ali, atrás da água. Atravessar o rio e ir a Lisboa, era um desaguar na boca enorme da metrópole. Era passar das gentes em que confiávamos, patrícios nossos, sobretudo fabris tratados como malteses vermelhos, para o formigueiro de uma dimensão pronta a engolir-nos. E saídos do vapor (na altura, os barcos da travessia eram movidos com máquinas a vapor alimentadas a carvão), sacudindo o pó do carvão dos colarinhos que se havia espalhado pela chaminé que só depois voltaria a ser poiso de gaivotas, apanhávamos dentro de olhos com esse imenso Terreiro que se apresentava como espaço solene da marca do império. As arcadas eram passadas com vagares, como se elas forem guaritas sem exigência de senha. O homem no cavalo, plantado no meio da praça, era olhado com a distância merecida pela sua snob imponência, afinal mero bronze sujo pelos pombos. E o Martinho era o primeiro ancoradoiro na cidade, o sítio onde se comprava, pelo preço de um café, o direito a habitar a capital e dela nos servirmos. Depois do Martinho, então já éramos lisboetas, tanto como os galegos do João do Grão, já perto da Praça da Figueira, onde abancávamos, por norma, para atacar-lhes o bacalhau. Dali para a frente, não tinha nada que saber, a cidade era nossa. Perdendo-a, de novo, no regresso ao bairro de ninho, o Barreiro vermelho, especializado em misturar fumos ácidos nas nuvens, metendo avantes nas portadas e guardados nas palmas das mãos fechadas, cerzindo lutas, refinando as artes de trocar as voltas aos pides armados em morcegos e onde as fragatas e os fragateiros teimavam na sua solene missão estética de não faltarem na hora da inspiração do Mestre Augusto Cabrita.

Adenda: Para a Sónia e outros interessados, sobre essa outra instituição chamada João do Grão, recordo o que escrevi aqui.
Publicado por João Tunes às 23:21
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2 comentários:
De Joo a 8 de Janeiro de 2005 às 17:28
Sónia, respondi-lhe com uma adenda nos post.
De Snia F. a 8 de Janeiro de 2005 às 14:27
O meu pai quando vinha da Madeira á capital, tinha sempre que ir comer um bacalhau ao João do Grão. Nunca fui lá, pelos vistos uma instituição. Será que ainda vale a pena?

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