Terça-feira, 11 de Janeiro de 2005

UMAS TANTAS PORCAS PARA ALGUNS PARAFUSOS

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O Manuel Correia voltou à carga, com formulações que, no meu ponto de vista, ao contrário de separar águas, só lançam pontes entre as margens. Porque, afinal, e se calhar ao contrário do que ele julga ou eram as suas expectativas, consoante ele vai aclarando as suas ideias, e estimulando-me a precisar as minhas, só vou encontrando formulações que me disponho a assinar por baixo. Com ironia amiga, desde já lhe digo que se isto continua, e por este andar, ainda acabamos no Notário a reconhecer assinaturas para formarmos um partido.

O seu último post, porque tem um raciocínio abrangente, não dá para lhe extrair um naco pelo que ele deve ser lido na íntegra. Aqui.

Sobre a Esquerda, eu escreveria como o Manuel Correia escreve (se tivesse, claro, o domínio de precisão e de clareza que é seu dom). E isso, inevitavelmente, aproxima os nossos entendimentos do conceito, sobretudo a tão esquecida base (ia dizer sagrada, mas soa-me a pouco laica) da Declaração dos Direitos Humanos, ou seja, a plataforma de princípio que considero inegociável e irrenunciável e que desmonta a pecha da querela (que tanto mancha a história da Esquerda) entre liberdade e igualdade. Porque, assim, há critério porque há uma selecção (a Esquerda deixa de ser um albergue espanhol, para passar a ter exigências, não entrando tudo que combate a Direita – onde inclui o PS -, mas aqueles que não têm pés de barro quanto às garantias sobre as liberdades). E, neste campo, é verdade que o Bloco, até ao momento, merece pergaminhos de limpidez e de coerência que o distingue, de longe, do PCP. E, exactamente por isso, é que, quando se fala de confluência de Esquerda, ela me parece mais factível e menos promíscua, ou menos artificial e menos demagógica, entre o PS e o Bloco que entre o PS e o PCP. Constatação que não pode obscurecer o longo caminho a percorrer (se é que alguma vez ele virá a ser percorrido) que pode levar a esse entendimento (ou seja, antes disso, o PS tem de perder a sua vocação de subjugação neo-liberal; enquanto o Bloco tem de se responsabilizar pelo exercício do poder, em desfavor da sua atracção naif pelo hedonismo político das performances radicais, tratando mais da substância e sendo menos prisioneiro dos efeitos).

No que se refere ao que o Manuel Correia chama de “sistema político-sindical”, eu digo-lhe que é tudo nele que dificulta a “unidade de esquerda” (na medida, em que impede que, socialmente, se criem as bases e a dinâmica que favoreçam o entendimento político). Até porque, em termos de alianças político-sindicais temos tudo baralhado – o PCP e o Bloco, aliados na CGTP; o PS e o PSD, aliados na UGT. Com benefícios exclusivos para o PCP e para o PSD que são, objectivamente, as forças interessadas na cristalização desta situação. No caso do PCP, interessa-lhe um “parceiro menor” para manter a sua “correia de transmissão” que reduz a CGTP a um catalizador da frente de luta de classes. No caso do PSD, a matriz amarela e burocrática da UGT impossibilita a afirmação de uma corrente “sindical socialista” e permite, que com governos de direita, se travem os ímpetos de luta sindical. E, caro Manuel, já que falaste nele, talvez aqui tenhamos alguma explicação para a forma como o Código de Trabalho passou…

E se formos para o campo das autarquias? Que práticas temos, ou evolução, no sentido de práticas de unidade de esquerda? Se alguns passos se dessem quantas autarquias não se deslocariam automaticamente da Direita para a Esquerda?

Considero estes dois casos - sindicatos e autarquias – exemplares (haverá mais, mas estes, só por si, teriam um efeito demolidor nos actuais bloqueios) para ilustrar a minha tese que, é aqui, antes do mais, que se pode (e deve) quebrar o imobilismo da atomização da esquerda. E (convicção minha que deixo ao teu comentário) enquanto, em frentes em que estão em causa os interesses concretos e imediatos dos cidadãos (onde as diferenças ideológicas podem ser mais esbatidas), não se derem passos de entendimento, convergência ou unidade, é perfeitamente ilusório que, no Parlamento, se criem bases para um entendimento político de Esquerda no suporte a um governo socialista (do Sócrates, mesmo que fosse Alegre ou até o mais pintado da ala esquerda do PS e que não estou a ver quem seja). E, assim, a minha dúvida mantem-se – se o PS tiver “maioria relativa”, como é que se vai construir um apoio parlamentar maioritário à Esquerda? Ou, a “maioria relativa” não será meio caminho andado para o regresso ao Bloco Central (e quem sabe, a chave para Cavaco a Presidente)? Para já, pela minha parte, farto estou (até demais, como dizem os brasileiros) de Direita no poder. Para já, e enquanto a Esquerda não se entende, quero que a Direita se dane.

Aquele abraço.

Publicado por João Tunes às 01:23
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1 comentário:
De Manuel Correia a 12 de Janeiro de 2005 às 02:01
João Tunes, obrigado pela inspiração generalizadora. O facto de teres trazido o Poder Local para a conversa trouxe-me algumas ideias que vou tentar explorar a pretexto da nossa conversa (agora largada ao Raimundo Narciso) aqui e no PUXA-PALAVRA. Até já. Abraço.

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