Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2005

FÁTIMA, AINDA

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Para o bem ou para o mal, para o melhor ou para o pior, variando consoante os pontos de vista, Fátima diz muito sobre Portugal e os portugueses. Já foi culto oficial e emblema de regime, representando o ponto mais alto da religiosidade despolitizante (no sentido da intervenção cívica) em que os pedidos e promessas a Nossa Senhora substituíam o direito à luta contra o infortúnio, o desgosto, a afronta, a opressão e as maldades da natureza. De joelhos no chão, muito deste povo carpiu no Santuário os maus serviços de saúde, os filhos que Salazar mandava para a guerra em África, os desentendimentos por maus feitios, a ameaça sobre a sobrevivência do posto de trabalho, as mazelas da agressividade subida pelo álcool, os requintes maldosos da genética, as misérias no bolso e na alma. Fátima ajudou ao conformismo, desviando para o culto mariano o que podia ser uma ameaça de revolta. E a imagem edílica construída através dos pastorinhos, na sua simplificação de apelo acrítico, foi um dos mais tremendos feitos conseguidos pela propaganda do fascismo à portuguesa e que se serviu sempre do clericalismo como um suporte fundamental.

Embora em declínio, remetido para um estatuto mais paralelo que oficioso, Fátima manteve a sua pujança como ponto de turismo religioso incentivado pelo Vaticano. Por esse lado, foi e é um bom receptor de receitas. E a recente pressa do Primeiro-Ministro e do Ministro Mexia em quererem abrir à aviação civil a Base Militar Aérea de Monte Real teve, como fundamentação de rentabilidade, exactamente o facto da sua proximidade com o Santuário para servir como porta de entrada de peregrinos.

Dando-lhe as voltas que se lhe derem, inclusive o devido respeito à crença dos crentes, Fátima é uma herança da reacção portuguesa, consolidada e estruturada pelo fascismo. Porque, como bem se entende, a religiosidade é o último local de transformação e de mudança porque está no mais íntimo do ser humano. E, por isso, seria sempre o último reduto a ter o seu 25 de Abril. E, se disso sabemos todos, a direita política sabe-o melhor que ninguém. Daí que não surpreenda o aproveitamento que o PPD/PSD/PSL, o CDS/PP e o PND fizeram ao colarem-se, mais ou menos descaradamente, ao falecimento da Irmã Lúcia. Se Fátima nasceu como fenómeno político (combate ao laicismo republicano e ao contágio bolchevique), os políticos da direita da resignação hão-de explorar o filão até à ultima gota.

Haverá quem diga que, em Fátima, só acredita e só lá vai quem quer. Mas julgo que esta verdade só é meia verdade. Porque Fátima teve e tem os seus custos ideológicos e humanos. Um desses custos faleceu agora. Como se pode entender deste excelente texto do Rui Tavares:

”Não sendo católico e muito menos acreditando "em Fátima", não deixo de me impressionar com a história de Lúcia de Jesus. Senão vejamos. Eis uma criança que acha que viu a Virgem Maria. Tinha dez anos. A família reage mal, chega a castigá-la para que se cale com a história das visões. Mas a história espalha-se e nasce um culto à volta dela. Morrem os seus dois primos e amigos mais próximos que com ela partilharam – de forma bem mais contraditória – a história das visões. Após um momento inicial de desconfiança, a Igreja Católica decide assumir o controlo do culto de Fátima. Lúcia entra em reclusão num asilo interno para-religioso, porque à época a lei do país não permite a existência de conventos religiosos. Tinha então 14 anos.
A "Lúcia das aparições" semi-independente durou quatro anos. Entre os dez e os quatorze de idade. Uma criança.
Porque a partir daí Lúcia acabou. Mal atingiu a maioridade foi levada para um convento em Espanha. Entretanto, é instada pelas autoridades católicas a reescrever as suas memórias de Fátima. Sem entrar nas minudências da "fatimologia", é verdade que esta segunda versão tem contradições importantes em relação à versão de 1917. Torna-se, contudo, na história oficial, e a partir daí nunca mais Lúcia pôde desenvolver a mensagem de que alegava ter sido alvo. Os seus escritos só são publicados, tal como ordena a censura romana, com o imprimatur episcopal. Regressa a Portugal só em 1946, em pleno regime salazarista. As suas poucas declarações públicas são feitas através de bispos e papas, com quem tem encontros de poucos minutos. De resto, apenas o trivial: respostas a cartas, aconselhando à oração, algumas imagens televisivas sempre rodeada de gente, uma ou outra foto aparentando uma vida feliz. Faz votos rigorosíssimos de clausura. Neles fica até ontem. Passou talvez um décimo da sua vida consciente em liberdade.
Segundo o bispo auxiliar de Lisboa, foi uma existência normal.
Podem dizer-me que ela assim o quis. Tudo bem, façamos de conta que não imaginamos o ambiente de condicionamento psicológico em que se vive num asilo ou num convento. Finjamos por um bocadinho que a Lúcia das aparições sempre teve outra opção, que aos quinze, dezasseis ou vinte anos poderia perfeitamente dizer a qualquer momento "agora tenho vontade de ter outra vida", fazer a mala, apanhar o comboio. Façamo-nos de ingénuos e pensemos que sempre estiveram abertas as portas para que, por exemplo, pudesse vir até Fátima, tomar um pouco em mãos o culto que nascera com ela, falar aos fiéis, por exemplo. Sim, iludamo-nos por exemplo de que nas décadas de 30-40-50-60 e por aí adiante, com o culto de Fátima a atingir milhões de fiéis, a Igreja Romana a deixava brincar à Santa da Ladeira.
Não deixa de ser estranho, contudo, que em oitenta anos do século XX – do século XX dos mass media e da opinião pública – uma pessoa que viveu a que poderia ser descrita (neutralmente) como uma das experiências espirituais mais importantes do mundo nunca tenha dado uma entrevista sozinha, deixada em frente a dois ou três jornalistas por uma ou duas horas, circulado até quem sabe num circuito de conferências em escolas religiosas que fosse. Que nunca tenha falado à vontade acerca da sua experiência. Que recordaria então? Aquilo que disse em 1917, o que disse mais tarde, ou uma terceira versão dos acontecimentos? Mas não. Nada. Que votos tão rigorosos e tão convenientes.
Hoje em dia há muita conversa acerca de como os valores do Ocidente são mais correctos, mais respeitadores da liberdade, do que os outros. E de como o cristianismo é todo ele sobre a "dignidade humana". Mas aqui temos uma história do Ocidente, do cristianismo – uma miúda de 14 anos que passa a viver às ordens de autoridades religiosas porque "viu" coisas. É tão escura e tão perturbante como as outras histórias, as que não são do Ocidente, e revela tão pouco respeito pela dignidade humana como elas. Aconteceu em Portugal, com uma pessoa, durante décadas do século XX e do XXI. Parece coisa do século VIII.
Mas aparentemente não faz confusão a muita gente, que de repente fica temerosa de chocar as convicções de terceiros. Para mim o respeito pelas convicções dos outros ainda não me levou ao ponto de ser insensível à lavagem cerebral, ao sequestro e ao silenciamento (mesmo legal e com bom aspecto).
Os bispos, felizmente, são bem mais sinceros. Regressemos ali acima para ver aquilo que têm a elogiar à "Irmã Lúcia": que foi discreta; que a sua morte não coloca em causa o corpo doutrinal de Fátima; que não se comportou como uma protagonista nem como líder carismática. Estamos numa igreja de homens: agradecem-lhe o não ter atrapalhado. Estamos numa igreja experiente: agradecem-lhe o ter-se tornado numa relíquia viva. Para o futuro nem se vai dar pela diferença.”
Publicado por João Tunes às 16:29
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2 comentários:
De Joo a 14 de Fevereiro de 2005 às 23:26
Sem ser por retribuição, o mesmo digo sobre o teu post sobre o mesmo tema no PUXAPALAVRA. Abraço.
De Manuel Correia a 14 de Fevereiro de 2005 às 21:21
João Tunes,
Parabéns pelo excelente post.
Um abraço.

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