Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005

ATÉ

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Fiquei à espera do impacto do Até amanhã, camaradas na SIC. Fraco retorno. Quase nada comparado com o comprimento do investimento. Um ou outro suspiro de reencontro de celebração, uma ou outra lágrima de dívida. Pouco mais. Fica para saber quantos votos a coisa rende para o Jerónimo. Se é que rende alguma coisa nesse domínio.

O romance, em si e como obra literária, nunca foi coisa por aí além. Está, quando muito, no nível médio da produção do neo-realismo na sua fase mais descarada do realismo socialista. Além da autoridade do autor e não contasse com a protecção da editora a sinalizá-la como obra de educação de militância, e seria, julgo, obra para edição curta e esquecida.

O que não retira o interesse (mais político que literário) ao livro e, sobretudo, ao filme. Porque é uma forma de conhecermos a face oposta ao fascismo à portuguesa e a construção de uma heroificação que ainda permanece no imaginário de esquerda, continuando a alimentar fidelidades resistentes. E quando digo conhecer, devia dizer conhecer em parte, porque o conhecimento atingido, através do livro e do filme, é uma manipulação propagandística de criação de estereótipos do operário e do camponês consciente e inconsciente, do bom militante, do médio e do mau. E a vida real, sabe-se, foi muito mais que isso. Como a própria dureza de lide com os limites, o impunha. Com um preto e um branco tão intensos, os cinzentos não podiam deixar de serem muitos e variados. Quem andou por lá ou lá perto, sabe disso.

Obra editada pelo PCP, para o PCP, serve hoje o PCP? Aqui ficou uma dúvida para que ainda não encontrei resposta. Julgo que a insistência na redução aos tons fortes dos contrastes, não ajudará a isso. Porque torna a realidade de luta, muito distante. Porque o heroísmo extremo de uma convicção não se coloca hoje a um nível tão absoluto nem nada que se pareça. E, nestes sentidos, visto pelas gerações nascidas ou crescidas em democracia, haverá um tendência natural para transformar o contexto num irrealidade, devido ao não reconhecimento da necessidade dessas práticas nem ponte com elas. Mas, por outro lado, o Até amanhã, camaradas é quase tudo o que o PCP autoriza que se saiba da sua história. Faz parte do minguado espólio da visão zdanovista do seu interior ancestral. Sabendo, como se sabe, que o PCP não faculta os seus arquivos, as suas verdades, a não fiéis, a académicos e a historiadores. Pior, ou melhor (do ponto de vista da capacidade da direcção cunhalista em conservar as fidelidades), o certo é que os militantes do PCP não conhecem a história do PCP, um partido com um percurso de 84 anos, apenas sabem dos excertos que o glorificam pelo martírio. E, esta linha ocultista leva a que sobre o PCP, se saiba pelo PCP o que Cunhal escreveu, em discurso e em romance, muito pouco mais. Contra o PCP, o que escreveram e escrevem alguns renegados não amarrados à lei do silêncio e o Pacheco Pereira na sua biografia de Cunhal. Sempre Cunhal, quase só Cunhal. Nem sequer uma edição dos Avantes da clandestinidade, um interessado ou um historiador tem acesso, passados que são trinta anos da saída da clandestinidade. Também o militante não tem o privilégio de ler todos os números clandestinos do orgão central do seu Partido (que, em situação normal, seriam motivos de orgulho e de construção de identidade) para que, por exemplo, não fique assarapantado com algumas canalhices (que também as houve, algumas bem graves e repugnantes) ou com os ditirambos da fase de culto à personalidade de Estaline (com alguma clonagem aplicada a Cunhal). Mais, pelo Avante, os militantes poderiam ter a veleidade de se aperceberem que, além de Bento Gonçalves e Cunhal, também houve outros dirigentes destacados e de grande envergadura, como Pavel, Piteira Santos, Fogaça e outros, perguntando-se pelas razões porque foram escorraçados. E, sabe-se, naquele modelo, a dúvida é a antecâmara dos infiéis. Porque a dúvida, no caso, poderia desembocar no entendimento da forma como Cunhal ganhou a luta pelo poder dentro do PCP e porque é que, quando o tomou, preferiu sempre, à sua volta, no seu núcleo de fiéis (praticamente o mesmo que ainda hoje manda no PCP e que tem Jerónimo como "figura de palha"), os dedicados e firmes, mas sem capacidade intelectual de formularem estratégias alternativas, nunca por nunca ofuscundo a luz do seu mando.

Hoje, com Cunhal praticamente incapacitado, até para escrever, resta-nos revisitar os olhares passados de Cunhal. Os seus desenhos, os seus discursos, os seus romances e novelas. Agora, novidade só os filmes feitos sobre os seus livros. Mas, com a velhice inexorável de Cunhal, com o apagamento de Cunhal, também vai desaparecendo a realidade com que ele se fundiu. E O Partido lá vai andando, nessa orfandade que vai mexendo por inércia, agora entregue, em liderança representada, a uma personagem que, vê-se bem, não cabia em qualquer personagem que se notasse no Até amanhã, camaradas. Talvez tenha chegado a hora de ribalta para os figurantes menores se chegarem à boca de cena. No caso do seu actual e principal dirigente (nominal), um antigo metalúrgico transformado em autodidacta vendedor de remendos de fé. O que é lamentável - para o PCP e para a esquerda.
Publicado por João Tunes às 19:25
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4 comentários:
De IO a 4 de Fevereiro de 2005 às 23:08
Mais uma vez, bem perguntado e melhor observado, parabéns! _ eu vi.
De Joo a 4 de Fevereiro de 2005 às 13:03
Pois fui espreitar e está bem esgalhado, sim senhor. Pena o anonimato mas como é para a luta armada, convém. Se organizares o curso, eu inscrevo-me pq nunca se sabe. Abraço.
De RN a 4 de Fevereiro de 2005 às 01:33
Estás não só a trabalhar muito como a trabalhar bem. Conheces os rapazes (e rapariga )do "Contra Santana"? Passei por lá e sem os conhecer ofereci-lhe formação profissional de que parece estarem necessitados e agora vinha-te perguntar se não é perigoso fornecer know how assim a desconhecidos?Aqui http://contrasantana.blogspot.com/2005/02/j-no-h-qualquer-noo-do-ridculo.html#comments
Um abraço.
De jamudei a 3 de Fevereiro de 2005 às 21:13
Excelente, como sempre um post à João Tunes.
Um abraço

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