Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005

MAIS UM LIVRO COM ATRASO NA CHEGADA

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Volta e meia, acontece-me. Segurar num livro, abri-lo e logo nas primeiras páginas sentir uma sensação de ansiedade em o querer devorar. Com uma enorme sôfrega raiva pelo atraso em só, nesse momento, o estar a ler. Com essa forte pressão de querer compensar a ausência com as palavras necessárias. Como se tivéssemos uma montanha pela frente com toda a pressa de chegar ao vale que nos espera do lado de lá e onde supomos que esteja construída uma das nossas casas. Sim, porque, e não sei se já vos disse, os livros são as minhas casas.

O fenómeno está-se a repetir com mais um livro em que me atrasei a sentá-lo à mesa dos meus prazeres. O livro foi editado em Espanha há cinco anos e em Portugal já leva quase um ano de edição. Desatento estive, pois, ou a dormir na forma que é das poucas expressões que guardei para uso corrente da minha experiência de miliciano castrense. Mas já cá canta e isso agora é o que interessa. Com o único efeito de desconsolo de ressaca que é o de se ter acabado (e eu bem que lhe pedia mais).

Há muito tempo que me ocupa e preocupa o pensamento entender a transição espanhola (do franquismo para a democracia), isso que me pareceu ser uma forma canalha de cortar a memória de um povo às fatias e desfazer a maior parte delas em migalhas atiradas aos cães do oportunismo da adaptação. Chantageando-o pelo medo dos demónios da memória. Degradando-o dessa forma. Ou capando-o, se expressão mais forte é permitida. E, afinal, está tudo neste livro. Com uma escrita cheia de nojo brilhante pela estética da narrativa ficcionada histórica. Um monumento à canalhice organizada e como ela, quando chega, toca a todos. Porque a degradação a todos salpica. E explica Juan Carlos, Suarez, González, Aznar e Zapatero. E muito mais, muito mais. Escrita brilhante, sendo de antologia a "auto-memória" da agonia de Franco.

O livro chama-se Francomoribundia (Juan Luís Cebrián – Ed Âmbar – Colecção “Cântico Final”). A tradução (excelente trabalho) é de Marcelo Correia Ribeiro.
Publicado por João Tunes às 16:40
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3 comentários:
De Joo a 8 de Fevereiro de 2005 às 22:58
Toda a razão quanto ao esquecimento da indicação do tradutor. Vou já emendar a mão com uma adenda.
De C.S.A. a 8 de Fevereiro de 2005 às 20:56
Por que será que os tradutores, com honrosas excepções, para o bem e para o mal, raramente são citado?
À consideração de todos.
De IO a 7 de Fevereiro de 2005 às 18:15
Obrigada pela dica, mais um para ir espreitar à livraria e...

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