Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

E A GALIZA (A GALIZA POBRE, A GALIZA INTERIOR) ALI TÃO PERTO

 

O besugo fez as contas:

 

A Província de Trás-os-Montes e Alto Douro tem 2 distritos, Vila Real e Bragança. Trás-os-Montes e Alto Douro tem, portanto, cerca de 400.000 habitantes, mais ou menos. A Província de Ourense tem à volta de 345.000 habitantes. Pode comparar-se assim? Penso que assim se pode.

A província de Trás-os-Montes e Alto Douro tem uma área de 11.000 Km2, enquanto a de Ourense tem, por alto, 7.300 Km2. Pode comparar-se: as pobrezas comparam-se em todas as dimensões.

Em Trás-os-Montes e Alto Douro é como se sabe. Posso fazer um desenho um dia destes, mas por hoje passo. Vamos à Província de Ourense, à Galiza interior. Vamos?

Bom. A Província de Ourense tem 92 concelhos. Vão de Avion a A Peroxa, Monterrá a Maside, Verin a O Barco de Valdeoros, de Ourense a Castrelo de Miño. São 92 concelhos. O curioso é que tirando Ourense (110.000 habitantes), o resto são pequenos povos. Tirando Verín (13.500), Barco de Valdeorras (13.300), O Carballiño (12.800) e, vá lá, Xinzo de Limia (10.000), o resto tem entre 600 e 4000 almas viventes. A Teixeira tem, mesmo, só 569 pessoas, sendo de referir que os concelhos de O Bolo e de A Bola, juntos, perfazem 2900 seres humanos. É assim, não vale a pena inventar.

Ora bem. Então e nestes 92 concelhos quantos Centros de Saúde há? Há 110. Porquê? Porque sim. Porque há 14 concelhos que têm mais que um. Ourense tem 5. E Castrelo de Miño, por exemplo, tem 3. Palavra de honra: tem 3, e tem 2095 habitantes. Deve ser, talvez, terra de pouca gente e muito ancha, não?
Desses Centros de Saúde, 15 têm Serviços de Urgências permanentes. Falo de Ourense, de Verín, mas também de Viana de Bolo, Xinzo de Limia, O Carballiño, O Barco de Valdeorras, Bande, Ribadavia, são 15. Ribadavia tem 5500 habitantes, por exemplo.
Os Centros de Saúde que não têm urgência "drenam" (detesto esta palavra, mas, como disse, não me pagam para escrever - quanto mais para escrever bem), num critério que não é outro senão o da proximidade, para o Centro de Saúde - com urgência - mais próximo.
Os Centros de Saúde com Urgência permanente têm, em mais de 60% dos casos, além de clínicos gerais (habilitados a fazer suporte básico de vida, que é fundamental pelos motivos que se prendem com aquela parte de o coração bater e de a gente respirar), pediatras, e enfermeiras de Obstretrícia. Em 25% deles há dentistas - cá, nem nos hospitais. Há Fisioterapia, em cerca de 10% dos Centros.
Nesses 110 Centros de Saúde trabalham, ao todo, salvo óbitos recentes ou intervenções externas de Correia de Campos, 275 médicos generalistas, 45 pediatras, 15 dentistas, um porradão de enfermeiras e enfermeiros, variadíssimos técnicos, assistentes sociais. Muitos desses Centros têm possibilidade de fazer análises clínicas e radiografias.

Ora bom, encurtando distâncias que ainda tenho de ir mandar um e-mail ao Paulo Bento: além destes Centros de Saúde, a Província de Ourense tem que mais?

Bom.

Tem o Centro Hospitalar de Ourense, com tudo, mas tudo mesmo (mesmo as merdas que não há em Vila Real, sim, a Cirurgia Vascular, a Neurocirurgia, a Radioterapia, os Cuidados Intensivos Pediátricos, a Unidade de Transplantes, a Endocrinologia, a Reumatologia, a Geriatria, a Oncologia Médica e Cirúrgica, a Angiografia, a RMN, a TC helicoidal, o caralho. Tem mesmo tudo, galegos dum raio). E tem 505 médicos e 811 camas.

E que mais? Bom, há o Hospital Comarcal de Valdeorras, com Medicina Interna, Cirurgia, Nefrologia com hemodiálise, Fisioterapia, Anestesiologia e Reanimação - pudera, têm todos, eu sei - Unidade de Dor e a puta que os pariu; pois é. E são 100 camas de internamento, e são 52 médicos.

E agora uma pausa educativa. Escutei assim uma pergunta, há bocadinho:
"isso de Verín, com 13.000 habitantes, é preciso ver até que ponto vai o quase...".

Vai até aqui: 80 camas, 42 médicos, Medicina Interna, Cirurgia, Anestesiologia, Reanimação, Dermatologia, Unidade de Dor, Fisioterapia, Otorrino, Oftalmologia, Urologia, Ginecologia e Obstetrícia, Pediatria, Psiquiatria... por aí fora. A Régua, a cidade, tem 11.000 habitantes. E não tem quase nada.

Os cuidados de saúde são como o resto. Devem relacionar-se entre si da mesma maneira que se relacionam as pessoas: ou há relações - e têm de ser próximas, daí a importância dos lugares, porque os lugares são as pessoas em espaços pequenos, médios, do tamanho que tiverem - ou não as há e, nesse caso, que se foda a Bwin Liga.
Se é assim na Galiza Pobre, pensem como será na Galiza Rica. Na Catalunha, na Comunitat Valenciana, no País Basco, na Andaluzia, no caralho!

Publicado por João Tunes às 10:15
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3 comentários:
De elmano a 23 de Janeiro de 2008 às 17:13
Pedir responsabilidades à chamada Classe Média Portuguesa. que há 30 anos anda a reconstituir o poder das grandes famílias, através dos 3 partidos do sistema PS - PSD - CDS.
E a subverter o SNS, a Educação, a Justiça a Segurança. etc. A privatizar tudo o que dê lucro e deixar na mão do estado o que dá prejuízo.
A criar um estado proxeneta, que só vive a meter as mãos nas algibeiras de quem trabalha por conta de outrém.
De João Tunes a 23 de Janeiro de 2008 às 23:34
Que soneira dá o toque deste disco tão gasto...

De Odete Pinto a 24 de Janeiro de 2008 às 21:44
Aqui está um exemplo claro, quase diria fotográfico, do superavit espanhol por contraponto ao nosso déficit.

Claro que não é só "isto". Os serviços públicos espanhóis, além de muito bem organizados, têm como público alvo (como dizem os maketeers) O CIDADÃO.
Isto faz, de facto, TODA A DIFERENÇA.

No periodo de verão, nos centros de saúde dos locais com mais turismo (incluindo turismo interno), resolvem o dito problema de sazonalidade com o reforço de médicos e demais pessoal para atender os "desplazados"; i.e. os que, estando de férias, não podem ir ao seu centro de saúde.

Em Portugal ainda estamos com os problemas que Felipe Gonzalez resolveu há mais de 20 anos.

Além disso, NUNCA nenhum governo nos disse a verdade; nunca nos disseram que, com os descontos avultados que saíam dos nossos ordenados e com todos os impostos que pagamos, NÃO teríamos pelo menos cuidados primários aceitáveis; que há 30 anos deveríamos contratar seguros de saúde (mesmo os que os tinham na empresa, acabam quando da reforma), seguros esses que, quando chegássemos aos 65/70 anos, de nada nos valeriam porque receberíamos então uma carta da seguradora a rescindi-los.

Como somos por natureza líricos e pouco lúcidos - depois logo se vê - estamos assim, nisto.

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