Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

A BRONCA DO BRONCO

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No último “Prós e Contras”, mais um dedicado ao novo aeroporto, um presidente de câmara (Caldas da Rainha), imaginando-se a falar entre pares, íntimos e correligionários, tendo o inefável líder Menezes ou congénere a moderar o repasto, com uma sinceridade boçal, explicou como nas autarquias se encomendam estudos técnicos, numa técnica a que ele disse recorrer quando necessita. A encomenda faz-se aos engenheiros para que os engenheiros forneçam o alibi de um "parecer" com a assinatura "técnica" confirmativa do que o autarca já antes decidira (ou seja, pagam, com fundos das finanças locais, um compromisso de aldrabice técnico-política, numa sub-espécie de corrupção). Segundo o rotundo autarca esta é a essência normal dos estudos técnicos encomendados nas autarquias e, generalizando, assim será por todo o lado e não poderá ter sido diferente com a encomenda do governo ao LNEC sobre a localização do novo aeroporto. Pensou o autarca bronco das Caldas da Rainha, otário pela força das circunstâncias regionais, que, desta penada, banalizando a prática da aldrabice como forma de governar, desmontava o estudo do LNEC, afastando a validade de qualquer consideração técnica sobre a opção Ota/Alcochete. Risadas várias pontuaram a bronca do bronco, sem se ficar a saber se eram desopilos de concordância alarve pela evidência do comezinho ou espantos pela sinceridade do desaforo revelado. E o majestático bastonário da Ordem dos Engenheiros, o mais solene e inchado entre os bastonários que ordenam as profissões liberais na nossa terra, ouviu o que foi dito. E calou. Coube ao presidente do LNEC reagir, procurando lavar a sua honra e as dos técnicos que executaram o estudo, aquele estudo, em discussão. Sendo só acompanhado pela exclamação de uma voz isolada que tentou compor a coisa explicando que os engenheiros mesmo engenheiros não se prestam a tais manigâncias, sendo os “estudos encomendados e pré-orientados” apanágio exclusivo da má raça dos juristas.

 

O certo é que o autarca das Caldas da Rainha confessou-se publicamente, em directo pela televisão, como sendo um corruptor activo e contumaz, utilizando dinheiros públicos para essa finalidade. E, pior ainda, assumiu-se como ideólogo da prática generalizada, normalizada, da manipulação política de estudos técnicos de suporte a decisões encenadas. Sem que o zelador da deontologia dos putativos corrompidos, ouvindo a confissão-acusação, anunciasse um desmentido ou sequer uma medida de limpeza ética no lamaçal autárquico ali estendido. E, no caso, calar pode ser entendido como concordar.

 

Mais que a discussão sobre a localização do novo aeroporto (a coisa está feita, desde que o Oeste “seja compensado”), o debate valeu por isto: demonstrar como o polvo da podridão se entranhou, generalizou e banalizou. Tanto que já é exibida como representação de sinceridade esperta. Talvez a Associação dos Municípios levante estátua ao novo tipo de autarca-modelo que governa, cidadãos e técnicos, nas Caldas da Rainha. E, como dizem os nossos vizinhos de fronteira, não passe nada. Com a consequência única de reforçar a validade neo-realista do sketch do autarca-tipo (o de Vila Nova da Rabeira) interpretado pelo Ricardo Araújo Pereira, quando este era "técnico de humor" ao serviço da televisão pública.  

 

Imagem: O Presidente da Câmara das Caldas da Rainha (à esquerda) com os (seus) “técnicos".   

 

Publicado por João Tunes às 12:43
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10 comentários:
De Rui Bebiano a 15 de Janeiro de 2008 às 14:19
O país inteiro - ou pelo menos aqueles, como nós, que têm paciência para aturar duas horas de Dona Fátima... - ouviu. Mas suspeito que poucos ou nenhuns jornais irão pegar no tema. Afinal, trata-se de um polvo instalado de alto a baixo, particularmente enroscado entre juristas e engenheiros. A ser saneada a maleita, quanto dinheiro iria o Estado poupar! Em contrapartida, diminuiriam as vocações para um certo tipo de cargo, tal como seria menor o número de candidatos a receberem certas avenças.
De João Tunes a 16 de Janeiro de 2008 às 22:17
Nem jornais nem a sempre atenta e hiper-crítica blogosfera...
De wicca a 15 de Janeiro de 2008 às 19:14
O homenzinho é um nojo, de facto.
De Anónimo a 16 de Janeiro de 2008 às 13:41
o turco é parvo, cretino, boçal, mal vestido, burro , piroso e votam nele-não sei quem é pior!
De joaocera@hotmail.com a 16 de Janeiro de 2008 às 19:06
Sou nascido e criado nas Caldas da Rainha. Há 22 anos que temos este presidente da câmara instalado no poder. Este homem acabou com esta terra no verdadeiro sentido da palavra. Peço ao autor deste excelente artigo para o enviar para o jornal principal das Caldas (Gazeta das Caldas) ou então autorização para ser publicado. Ainda bem que aquele energúmeno daquele presidente mostrou o seu perfil a todo o país... talvez as gentes analfabetas das Caldas que o elegeram acordem de uma vez por todas !
De João Tunes a 16 de Janeiro de 2008 às 22:18
A reprodução deste post, desde que integral, fica aqui autorizada.
De Anónimo a 18 de Janeiro de 2008 às 17:39
Uma das vergonhas deste país, está nas Caldas da Rainha.
De Ana a 20 de Janeiro de 2008 às 16:49
Este é mais um do género da Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro, Alberto João Jardim, etc... e realmente o que deprime é votarem neles !
De Anónimo a 21 de Janeiro de 2008 às 10:20
Será que as entidades deste país não vêem que este presidente de Câmara é um corrupto? O que podemos fazer para acabar com pessoas desta laia?
Vamos dar cabo deste homem? Vamos denunciá-lo?

Por um Portugal mais justo e democrático!
De Leitor identificado a 5 de Fevereiro de 2008 às 23:58
Eu sou das Caldas. Este presidente é um bronco e um atrasado mental, tal como as pessoas que têm votado nele nas últimas décadas. Ganha os votos nas freguesias rurais onde passa a vida a beber tinto com os frequentadores das tascas. E também porque a oposição não se impõe. É um pequeno "Jardim". Só falta propôr a independência do Concelho...

Enfim, um triste. Felizmente já não moro nem voto lá.

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