Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

OUTUBRO: REVOLUÇÃO, GOLPE OU PISAR DE FRUTA PODRE?

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Passados 90 anos sobre a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia (Novembro de 1917) e 16 sobre a implosão do império que construíram, com a propaganda a ir repousando, é mais que tempo de se ir procedendo a um deslindar histórico sobre um dos acontecimentos mais marcantes, e mais traumáticos, da história da humanidade e que talvez a tenha marcado tanto como o advento do cristianismo. Para tal, necessita-se de um acalmar de paixões ideológicas, saber-se contornar os estereótipos longamente construídos na historiografia manipulada pelos sovietistas e as análises redutoras que negam a importância excepcional dos acontecimentos em Petrogrado em 1917 e a nova ordem social, política e partidária construída sob a liderança de Lenine.

 

Desde logo, tendo cristalizado a praxis marxista, os acontecimentos de 1917 na Rússia (estendidos ao império russo), passando a moldar a prática comunista internacional, foram uma não confirmação da teoria marxista sobre a conquista do socialismo e de grande parte do anterior pensamento de Lenine sobre a realização da revolução. Neste sentido, Outubro foi uma concretização herética do seu suporte teórico. Assim sendo, em vez de uma realização programática da doutrina de referência, Outubro e a construção e desenvolvimento da URSS representaram uma sequência de improvizações pragmáticas, muitas delas heteredoxas relativamente à teoria marxista, cedendo espaço ao pragmatismo da conquista do poder, primeiro, e sua conservação, depois. Tudo em condições particularíssimas, no tempo, no espaço e nas circunstâncias. E a grande tragédia partidária do movimento comunista internacional foi, não tendo em conta o “anti-marxismo” de Outubro e da construção da URSS, nem os aspectos dominantes da excepcionalidade do entorse histórico e político que levou Lenine ao poder e Estaline a conservá-lo, ter aceite a rigidificação dos acontecimentos russos de 1917 e nos anos posteriores, universalizando o que foi particular, subjugando-se a eles como modelos, degradando-se na mimetização de um marxismo-leninismo que não é mais que um manual-repositório de uma experiência particular e excêntrica, dogmatizando o marxismo numa variante pervertida. O que, além do mais, inibiu a hipótese de os trabalhadores, as massas populares, nos países desenvolvidos, se aproximarem da concretização das previsões de Marx, relegando a probabilidade revolucionária para o quadro de revoltas camponesas, parasitismo de ocupações militares do Exército Vermelho ou aventuras esquerdistas de focos guerrilheiros (todas em absoluta dissonância com as teses marxistas).

 

Os acontecimentos da tomada de poder dos bolcheviques em 1917 suscitam, desde sempre, uma querela sobre a catalogação do fenómeno. Para uns, os sovietistas, o que se passou foi uma revolução, dirigida pelos bolcheviques e apoiada pelos operários e soldados radicalizados de Petrogrado. E para alimentar esta versão muito contribuiu o filme-embuste de Eisenstein que, no seu filme “Outubro”, recria fantasiosamente o cenário da tomada de poder dirigida por Lenine, falsificando-o quase de fio a pavio. Para outros, tudo não passou de um puro e duro golpe de Estado, urdido e consumado pelos fanáticos bolcheviques. Peter Kenetz (*), um dos mais consagrados estudiosos da realidade soviética, apresenta uma terceira classificação dos acontecimentos: o que se passou foi a completa desintegração do poder russo, criando-se um “vazio absoluto de poder” a que os bolcheviques responderam com a sua usurpação (um género de “pisar de fruta podre”). É partindo desta teoria base, que Peter Kenetz, num livro recentemente editado em Portugal (**), arranca para a sua interessantíssima história-síntese do poder soviético desde a sua erupção até ao seu desaparecimento, caracterizando-lhe as diversas fases de transformação, degradação, degenerescência e agonia. Trata-se de um excelente contributo para a discussão por fazer, longe da gritaria das propagandas cruzadas, sobre um acontecimento marcante e cujas sequelas e fascínios muito demorarão a serem apagados.

 

(*) Peter Kenetz é professor de História na Universidade da Califórnia e considerado um dos sovietólogos de referência.

 

(**)“História da União Soviética”, Peter Kenetz, Edições 70

Publicado por João Tunes às 01:04
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2 comentários:
De Cristina a 24 de Dezembro de 2007 às 02:37
João, passei para lhe desejar um Feliz Natal.

paz, harmonia e saúde. com uns salpicos de amor fica perfeito.


um grande abraço
De João Tunes a 24 de Dezembro de 2007 às 12:05
Obrigado, igualmente.

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João Tunes

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