Domingo, 23 de Dezembro de 2007

A FESTA SERÔDIA DO ALASTRAR DO ESPAÇO SCHENGEN

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Em 1980, num devaneio turístico montado colectivamente num Fiat 127, fiz um tour turístico Europa dentro que incluiu estadias na então Checoslováquia e na então RDA. Lembro-me de entrar na Checoslováquia pela então República Federal Alemã na zona das Sudetas e constatar, na passagem fronteiriça, quer o riso de escárnio dos guardas fronteiriços alemães ocidentais como ter de lidar com a obtusidade de entendimento dos guardas checoslovacos que, de todo, apesar dos passaportes e dos vistos, não percebiam como dois casais de portugueses ali desaguavam numa pequena viatura carregada de material de campismo. Para mais, os guardas demonstravam, ou isso invocavam, não conhecerem a existência do país onde tínhamos nascido. Passadas duas horas em jogo antipático de desconfiança, a invocação do nome de Eusébio fez luz no cinzentismo burocrático e deu-nos entrada dentro das fronteiras do socialismo real. Na passagem da Checoslováquia para a RDA, que se supunha fácil pela permanência dentro das mesmas fronteiras políticas, tudo piorou e a seca de formalidades durou várias horas até que pudéssemos arribar a Dresden, constatando que a antipatia agressiva (adquirindo uma componente marcial na RDA) ia aumentando consoante se ia progredindo terreno no “paraíso dos trabalhadores”. De Berlim Leste, “apreciámos” o Muro que nos seguiu até à bela Potsdam. Na sensação de saída do bloco socialista, dominava, apesar da “miséria capitalista” a cujo seio regressávamos, um imenso alívio de fim de claustrofobia própria de habitação em espaços aprisionados.

 

Se agora me lembro desta velha aventura turística, a culpa é da emoção de ter visto a forma como a abolição de fronteiras que leva o espaço Schengen até ao Báltico despoletou em cidadãos entusiastas numa aparente festa serôdia pelo levantar de barreiras a dividir povos e nações, alargando a Europa por, simplesmente, a europeizar mais. É que, dificilmente, quem lá não passou antes saberá apreciar o que representa o passar tranquilo de fronteiras. Ali, onde uma rede de ditaduras policiadas e comandadas por um centro, metia povos em redis vigiados, a única igualdade que o comunismo “acrescentou”.

 

Publicado por João Tunes às 00:00
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