Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

DAS VÍTIMAS

0026t54k

 

Sobre o erro dramático da invasão e ocupação do Iraque está tudo, ou quase tudo, mais que dito. E os responsáveis pelo erro estão bem determinados. Os cúmplices também. Porque o que é, é. Mas o que é não é mais que aquilo que é. Contabilizar quinhentos mil mortos e quatro milhões de refugiados como sendo o saldo da invasão e ocupação do Iraque (como fez Rui Tavares no “Público” de ontem, imitando outros para depois outros o imitarem a ele) é um exagero demagógico. Não é decente que por cada bomba terrorista rebentada por acção de um dos muitos grupos de fanáticos assassinos, se arrolem as vítimas na conta corrente das baixas provocadas pela acção militar que derrubou Sadam. Essa “transferência de culpados” é, objectivamente, uma absolvição do terrorismo que mata agora em aproveitamento da queda de uma ditadura mas mataria em quaisquer situações e se possível. Até porque, a praticar-se uma contabilidade de vítimas tão abrangente, ou seja, contarem-se todas as que foram proporcionadas pela desestabilização da ordem ditatorial iraquiana, seria necessário “descontar no saldo” as centenas de milhar de vítimas que a ditadura de Sadam provocaria no tempo passado caso se mantivesse Sadam no poder e por conta não só da perseguição política aos opositores como ao serviço de uma supremacia étnica (dos sunitas, a minoria da população do Iraque) e de genocídio esporádico contra curdos e xiitas. E se a invasão e ocupação do Iraque provocou de facto uma efervescência propícia à intervenção dos fanáticos rivais e libertos do aparelho repressivo que os continha, esse cenário de contenção tinha um reverso não prolongável e que culminaria sempre numa situação de caos social e político idêntico ao verificado no Iraque pós-invasão (nenhuma ditadura é eterna) – uma ditadura fascista em que o assassínio em massa pertencia à natureza do regime deposto. Com vítimas.

 

Imagem: (foto-montagem roubada ao Rui Perdigão)

 

Publicado por João Tunes às 17:46
Link do post | Comentar
9 comentários:
De SAM a 20 de Novembro de 2007 às 20:51
Com isto, caro João Tunes, a invasão de um país vizinho ao Iraque, como é o caso do Irão, é, na sua perspectiva uma medida necessária e pertinente ou considera, como alguns consideram em relação ao Iraque errada e incoerente?
De João Tunes a 20 de Novembro de 2007 às 21:40
Depende da natureza e grau da ameaça. No caso do Iraque, "fabricaram-se" armas de destruição que não existiam. Portanto, foi uma guerra "legitimada" por uma mentira, o que a tornou intrinsecamente odiosa. No caso do Irão, a ameaça nuclear parece ter, infelizmente, substância. Espero bem que as pressões internacionais (e a contestação interna ao fundamentalismo no poder) contenham o climax da agressividade iraniana. É isso que desejo pois prefiro, sempre, a paz à guerra. Mas, em caso de a situação se tornar próximo do insolúvel, deixe que lhe diga: tenho uma esperança secreta que uma operação cirúrgica de Israel (afinal, quem melhor e mais eficazmente defende a civilização contra a barbárie no Próximo e Médio Oriente) resolva o assunto, como fez recentemente na Síria, minimizando o número de vítimas. Porque é de vítimas que, por boas e más razões, todos falam, falamos, e contabilizam, contabilizamos. Termino com a expressão de que muito gostaria de saber da sua opinião. Porque se há matéria onde mais me minguam as certezas (e zero é a soma das definitivas) é nas questões da guerra e da paz.
De SAM a 22 de Novembro de 2007 às 18:35
Não sei se a minha resposta consegue ser tão linear.

Prometo fazer um esforço para abordar isso no meu ainda este fim-de-semana.

Um abraço.
De João Tunes a 22 de Novembro de 2007 às 21:59
Ser linear não é objectivo, é método, quando é. Fico na expectativa. Abraço.
De SAM a 26 de Novembro de 2007 às 12:43
É a minha formação que me deturpa a visão linear. Considero que as relações e as explicações nunca são somente de causa efeito unidireccional, mas de causa efeito circular, onde as variáveis se influenciam mutuamente e sem parar em processos de feedback. Daí encontrar dificuldade em explicações lineares de determinados argumentos, quando o que acho melhor é a circularidade.

O texto está sob o link:
http://fenixadeternum.blogspot.com/2007/11/para-quando-lua-cheia.html

E a sua resposta vai aparecendo ao longo de todo ele, mas também pode ser encontrada em destaque vermelho, caso não queira ler o texto na sua íntegra.

Devo dizer que, de facto, fez-me pensar. Obrigado!
De João Tunes a 26 de Novembro de 2007 às 13:51
Eu é que lhe agradeço o contributo da sua reflexão. Julgo que o entendi, nos entendemos. E, assim, a minha radicalidade sente-se mais livre com a ajuda do seu comedimento, dado que julgo caminharmos para o mesmo ponto, o da civilização, deixando a barbárie a falar com menos vozes no nevoeiro do passado.
De carlos freitas a 20 de Novembro de 2007 às 21:21
Este ilustre que se encontra acima na foto só agora veio afirmar o que todos já sabiam. Também ele foi enganado. Ora daqui não pode sair grande peixe. Afirmando que Portugal não saiu prejudicado foi simpático...muito simpático. Compreende-se a tentativa de limpar a imagem de subserviência...onde nem sequer passou cavaco a Sampaio (embora a isso não fosse obrigado) ficou-lhe mal. Agora já vem tarde. Só espero que a memória não seja curta..mas isso será o normal.
De João Tunes a 20 de Novembro de 2007 às 21:51
Meu caro, como terá entendido pelo post, a questão da "imagem de Durão" (sequer esticá-la para zurzir o cavalheiro) não me interessou e continua a não me interessar. Muito mais me interessam as vítimas e a forma demagógica como elas são cobradas. Porque essa dinâmica de cobrança perturba gente que considero absolutamente honesta e respeitável do ponto de vista político. Quanto à escolha da imagem - que de facto mete o Durão - confesso que, face ao dito atrás, eu apenas me justifico dizendo que não resisto ao fascínio estético pelos fabulosos "bonecos" do Rui Perdigão (que considero o melhor ilustrador na blogosfera).
De Las Mejores Páginas de Juegos de Casinos a 5 de Fevereiro de 2009 às 20:42
Lo que no deja de ser cierto es que la exploración de los média sobre esa temática ha provocado discusiones acendidas de ambas partes sobre lo ciertos que estarían unos en invadir Iraq, otros en resistir, sí, pero han dejado eso que usted llama de 'contabilidad de las víctimas' volverlas meramente números y no gente.

Comentar post

liuxiaobo.jpg

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

João Tunes

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO