Sábado, 17 de Novembro de 2007

CONGELADOS DA HISTÓRIA

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A incapacidade do PCP em colocar um grão de espírito crítico na análise do passado revolucionário no tocante às conivências e subalternidades, particularmente sobre a essência do golpe de Estado bolchevique na Rússia em 1917 e a monstruosa e criminosa sociedade ali construída e depois expandida, em que crimes e vítimas se foram acumulando em nome cínico de uma utopia teoricamente libertadora de oprimidos, será, porventura, o principal óbice de hoje à modernização política deste partido, impedindo que seja uma força transformadora nesta entrada do século XXI. Porque, em qualquer virar de página de raciocínio, os pesos de chumbo das antigas fidelidades ao golpe bolchevique e à União Soviética e as conexas cumplicidades seguidistas cumpridas no passado, continuadas hoje para os restos das ditaduras comunistas, funcionam como inibidor da capacidade de olhar de frente o crime comunista, quanto mais dele se libertar. O facto de, apesar da sucessão - por imposição biológica - de novas gerações de militantes e dirigentes, a “velha guarda” do tempo da clandestinidade e da fidelidade religiosa para com a URSS, de onde lhes vinha a inspiração, as ordens, o abrigo e o dinheiro, manter a tutoria sobre a essência ideológica do PCP, torna-o um corpo rígido manietado nos seus tabus históricos e ideológicos e incapacitando-o para se poder transformar numa força política moderna, dinâmica e com capacidade de resposta a sociedades em aceleradas mutações, respostas estas que não se compadecem com corpos rígidos prisioneiros de uma ideologia dogmatizada, muito menos na base programática de modelos de sociedades e de experiências falidas e implodidas pelo descrédito acumulado nos povos que as sofreram.

 

As comemorações do PCP do 90º aniversário do golpe bolchevique de Novembro de 1917 liderado por Lenine, foram expressão pungente de como o garrote da fixação de velhas mentiras propagandísticas, quase infantis na forma como se dirige a um público hoje maioritariamente adulto no conhecimento do embuste repetido, funciona sobre a inteligência política de militantes e não militantes, tentando reduzi-los a uma massa amorfa de crentes religiosos incapacitados de recorrer ao conhecimento e à razão. Num respigar de vários espaços dedicados à efeméride no último número do “Avante”, ressaltam duas orações de altos dirigentes do PCP, Maria Piedade Morgadinho e Albano Nunes, ambos pertencentes à velha guarda cristalizada no amor soviético.

 

Maria da Piedade Morgadinho é clara, para não permitir atrevimentos de pensamento crítico, sobre a eternidade do cordão umbilical que liga o PCP ao golpe bolchevique:

 

Hoje, quando muitos procuram fazer esquecer esta data e tudo aquilo que ela significou e significa, e outros a evocam para a denegrir, caluniar e falsificar o seu papel histórico, devemo-nos sentir orgulhosos pelo facto de sermos membros dum Partido – o PCP – que sempre, ao longo da sua história, mesmo nas condições mais difíceis e adversas, não deixou cair no esquecimento a Revolução de Outubro e os seus obreiros. Um partido que nunca deixou de ter presentes na sua luta os ideais que Outubro de 1917 proclamou e que a República dos Sovietes tornou realidade. Um partido que soube retirar dessa experiência única na história, ensinamentos para a nossa luta – passada, presente e, seguramente também, para os combates que nos aguardam no futuro.
E é preciso não esquecer que o nosso Partido, que conta já com 86 anos de existência, foi ele, também, um fruto do Outubro Vermelho de 1917.

   

E, para absolutizar esta osmose entre o PCP e toda a história do comunismo, mesmo com os seus pontos mais indecorosos e trágicos, a ideóloga comunista reafirma posições quase inacreditáveis – a defesa quer da matança de Budapeste em 1956 e a invasão deste país pelos tanques soviéticos como a liquidação da soberarnia do Partido Comunista Checoslovaco e a invasão da Checoslováquia em 1968 pelos tanques do Pacto de Varsóvia:

 

Estivemos do lado certo da barricada quando, em 1956, estivemos com os comunistas e o povo da Hungria que defendiam o socialismo da contra-revolução – e os comunistas eram então enforcados nas ruas nos postes da iluminação pública;
Estivemos do lado certo da barricada quando, em 1968, estivemos do lado dos comunistas e do povo da Checoslováquia em luta contra as forças reaccionárias e em defesa do socialismo;

 

Quanto a Albano Nunes, o gestor do internacionalismo proletário no PCP, deslocou-se ao terreno da última ditadura europeia (Bielorússia) para um encontro de saudade e não foi parco quer em elogios aos “sinais soviéticos” que por lá encontrou como perante os últimos resquícios onde ditaduras de partido único dirigem a “construção dos seus países”:

 

Sob o signo da Revolução de Outubro acaba de realizar-se em Minsk o Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. A sua importância deve ser sublinhada. Com a participação de 72 Partidos de 59 países de todos os continentes, ele desmente uma vez mais as profecias sobre o «declínio irreversível» do movimento comunista e confirma que não só o comunismo não morreu como por todo o mundo há forças que mantêm viva a chama de Outubro e prosseguem com confiança a luta por uma nova sociedade mais livre e mais justa, a sociedade socialista.

(…)

Este país [Bielorússia] de 10 milhões de habitantes é uma excepção honrosa à generalizada submissão aos EUA, à NATO e à U.E. que acompanhou a contra-revolução na Europa de Leste e nas repúblicas da ex-URSS. Tem praticado uma corajosa política de soberania nacional. Não entregou às multinacionais a sua poderosa indústria e a sua agricultura mantendo os sectores chave da economia nas mãos do Estado e das cooperativas. Não há praticamente desemprego (1%) e o crescimento económico mantém-se a ritmos elevados (entre 7 e 10%). O 7 de Novembro continua a ser feriado nacional, o memorial erguido a Lenine – junto do qual as delegações foram prestar homenagem ao genial obreiro da Revolução de Outubro - continua em frente ao Parlamento, mantém-se no essencial a toponímia revolucionária. A história da Revolução e da construção socialista não foi riscada dos livros escolares. O presidente da República saudou o Encontro com respeito.

No Encontro estiveram partidos lutando nas mais variadas condições, forçados à clandestinidade ou – como na China, Cuba, Vietnam, RPD da Coreia, Laos – dirigindo a construção dos seus países.

 

Imagem: Grupo escultórico do “Memorial às vítimas do comunismo” (Praga – República Checa), inaugurado em 2002.

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Adenda: O Pepe, em post de comentário a este texto, desenvolve este tema. Agradeço-lhe as achegas que dão um vigor límpido à abordagem.

Publicado por João Tunes às 23:43
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1 comentário:
De Van Aerts a 18 de Novembro de 2007 às 19:02
Absolutamente inacreditável.

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j.tunes@sapo.pt


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João Tunes

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