Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007

O PREÇO DO MITO PALESTINIANO

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Esta declaração de Luís Amado (um político que nos habituou ao excesso de cautelas e de “nins”):

O processo negocial entre palestinianos e israelitas «assenta pela primeira vez num diálogo entre as duas partes interessadas, sustenta-se na negociação directa entre a Autoridade Palestiniana e o Governo israelita», referiu o ministro [Luís Amado].

tropeça, desde logo, no invocado conceito unificado de “Autoridade Palestiniana”. Porque, o mais provável, é que os representantes palestinianos que se sentem á mesa da negociação directa sejam os sobreviventes da orgia de metralha fraticida entre os da Fatah e os do Hamas.

O mito da causa da esquerda em apoio à “causa central palestiniana” (estereótipo introduzido na luta anti-imperialista desde que a URSS se incompatibilizou com Israel) iludiu, e nesse sentido ajudou o sofisma relacionado para uso propagandístico, prolongando a ilusão da substância da identidade e unidade palestiniana (como se os palestinianos, como qualquer outro grupo nacional, constituissem uma unidade homogénea isenta de contradições e de segmentações). Bastou a emergência agressiva e agressora do fundamentalismo islâmico nas hostes palestinianas (incentivada pela vaga de irredentismo agressivo e favorecido pelo descrédito acumulado de corrupção que há muito grassava na OLP e a que se fazia a "vista grossa" que se costuma fazer para com os defeitos dos "amigos") para que a esquerda ocidental transferisse, com uma admirável velocidade tartufa, o anterior apoio expresso à Fatah para o apoio cúmplice ao Hamas, segundo o princípio que o importante, na escolha de amigos e aliados, é quem mais combate o(s) inimigo(s) principal(is), com os resultados que estão á vista. E hoje, desgraçadamente, perante a expectativa manietada (pelas suas inconsequências) da solidariedade vácua da esquerda ocidental antijudaica e antiamericana, e sem um tiro israelita, são os palestinianos que se encarregam de destruir o mito construído da maturidade da sua identidade (condição necessária para sustentar o direito exequível a um Estado).

Publicado por João Tunes às 23:18
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4 comentários:
De marcelo ribeiro a 13 de Novembro de 2007 às 09:12
Alguma esquerda ocidental! Só essa! E nessa os que são simultaneamente anti-judaicos e anti-americanos, o que pode reduzir um pouco o grupo.
De facto a questão tem servido para tudo e até para aparecerem os mais sórdidos relentos racistas a justificar o holocausto.
digamos que Israel, parte dele pelo menos, se tem posto a jeito com a intransigencia demonstrada e sobretudo com a permissão de "colonização" de zonas que internacionalmente nunca foram reconhecidas como israelitas. E a menos que o fdireito de conquista seja aqui e só aqui efectivo tais terras são palestinianas, jordanas ou de quem quer que seja mas não israelitas.
Os EUA também se põem a jeito nesta questão porquanto só eles poderiam ter parado Israel. E não pararam. E continuam a ser o escudo protector do Estado de Israel...
Percebe-se assim como é que coisas relativamente diferentes podem ser amalgamadas e usadas como argumento da esquerda arcaica. todavia há um problema. Isso é inegável. E é-o tanto mais quanto a esquerda israelita o reconhece.
A segunda questão (transferencia de apoios da fatah para o Hamas) parece-me menos segura. Não digo que não haja gente tonta a achar que o fundamentalismo religioso e a sua vertente político-militar são preferíveis ao laicismo da Fatah mas não creio que sejam em numero suficiente para amparar a tese de que a esquerda os apoia. Seria um contrassenso apoiar a subalternização das mulheres, a charia, a guerra santa e restante tralha...
Agora, que o problema é cada vez mais dificil disso não tenho dúvidas mesmo e sobretudo porque as actuais negociações serão efectuadas entre um parceiro forte, Israel, e um ainda mais enfraquecido, a Autoridade Palestiniana que nem sequer pode representar a irridente Gaza. Depois não se vê por parte dos países árabes vizinhos grande esforço. O Egipto está paralisado (mais ainda com os problemas da sucessão de Mubarak) o Líbano lambe as feridas, tem o Hamas a sul e a Síria ao lado sem falar no governo conservador e nas divisões religiosas. A Síria está também paralisada e sob suspeita. O Iraque é o que se sabe e a Jordânia não conta. Ou seja os palestinianos estão mais sós do que nunca. Talvez possa radicar aqui algum sentimento de simpatia ocidental mas esse parece-me transversal à política.
De João Tunes a 13 de Novembro de 2007 às 15:32
Interessante texto que muito agradeço. Também revelador na parte em que o autor, confesso "exterior" à "esquerda ocidental antijudaica e antiamericana", nas voltas e meias voltas que dá, acaba por carregar a bateria do ónus apontando-as a Israel e aos Estados Unidos, os que "se põem a jeito". Sendo assim, o que não pensarão os "outros", os "interiores". Embora, visto e revisto, o resultado oscile dentro da mesma banda: um hipercriticismo para um alvo (anti-américa/israelita) e um suspiro leve quanto aos comportamentos palestinianos (menos da crítica políticas e mais sócio-comportamentais). E é, penso eu, com este tipo de solidariedade/condescendência para com a "causa palestiniana", com dois pesos e duas medidas, sujeito ao crivo internacional (internacionalista) da dicotomia amigo/inimigo, nada ajudando à peneira infra-palestiniana entre os seus sectores laicos e democráticos e as gangas corruptas da Fatah e terroristas do Hamas, que o máximo factor de estabilidade na região continua a ser, desgradaçadamente, a firmeza defensiva e a capacidade de contenção, com eficiência bélica, de Israel.
De JoanaTorrado a 13 de Novembro de 2007 às 11:05
Bom dia.

Mais uma vez o Blog tem um merecido destaque no SAPO :)

Parabéns!
De João Tunes a 13 de Novembro de 2007 às 15:35

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