Sábado, 22 de Abril de 2006

Bom fim-de-semana

Mais um fim-de-semana dos compridos. Com hipótese de “ponte”. Que bom. Este com uma efeméride dentro, a mais alegre, mais rubra e com mais sol dentro de todas as efemérides, a dos cravos plantados entre tantas vis tristezas deste povo arrastado; poeta muito; sublime quando se afina; desenrascado nos apertos; sacana por hábito adquirido; basbaque; de lágrima fácil sobretudo perante os santos, os beatos, os célebres e os mortos, todos os mortos, os de todos os funerais; simplório e cordato; mal dizente e invejoso; romântico quando se esquece de ser fadista, fodilhão ou bêbado; atreito ao salamaleque com doutor, cura, sacristão, oficial de finanças, jogador de futebol, general, notário, jornalista, senhor juiz e todos os senhores e senhoras, meninos e meninas, desde que apareçam na televisão ou em folha de revista (políticos é que nem vê-los). Um povo, nosso povo, que gritou no PREC, quando todos gritavam, pedindo agora rédea curta a Cavaco para meter o país em respeito, ordem e sossego, dado que o Botas não tem meio de voltar a não ser no Museu que há-de ter. Povo nosso, feito para passar todas as passas dos algarves desde que possa desopilar na infâmia de esquina entre vizinhos e vizinhas cúmplices, sovina no uso, usufruto e fruto da liberdade, relapso a subir a fasquia do projecto e da ambição, temente ao Estado, órfão do Vasco e do Álvaro, hesitando sempre nesse dilema que ameaça corroer-lhe a alma de decidir, de uma vez por todas, se Otelo, afinal, pesando bem os prós e os contras, resumo feito, foi herói ou assassino, pois sempre terá como certo que as duas coisas ninguém o poderá ser, como ensinam as telenovelas. 

O grosso, o grosso deste povo, saiu direitinho de dentro das fardas frescas de fazer a guerra colonial, mandado por oficiais colonialistas, para beijar os mesmos oficiais, como oficiais antifascistas. E foi fácil, tão fácil, trocar balas por cravos. Sorte nossa o fascismo estar podre, tão podre que transformou capitães e majores de tiro aos pretos em capitães e majores da luz da democracia. Descontando, é claro, em tanta sorte, o acumular da vilania deste povo que permitiu que o fascismo aqui vivesse e medrasse, medrasse, medrasse, até apodrecer. Como agora se espera e disso se faz prognóstico que a democracia vai pelo mesmo caminho, apodrecendo também, mais parecendo que se quer rebobinar a história e só usarmos a liberdade se ela se fôr e nos voltar a apetecer.  

Temos, nesta folga alargada, celebração de 32 anos da cambalhota de um povo que o tirou do negrume e o cegou, sem o convencer, com a luz da liberdade e sem nunca perceber, nem agora, que ela é, apenas, da natureza dos olhos e impulso do respirar. Não devendo ser dádiva nem perdão pela demora. Muito menos bem para se gastar e esgotar no desabafo. Lembremos o 25 de Abril. E passem bem. Muito bem, se a minha vontade mandar.

Publicado por João Tunes às 01:12
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7 comentários:
De Eugénio Costa Almeida a 22 de Abril de 2006 às 15:24
"...se a minha vontade mandar." e o Alberto João autorizar. Então não é este um país que um dirigente gostava que fosse uma grande Madeira...?
Um bom fim-de-semana e um fraterno kandando
Eugénio Almeida
De ZARATRUSTA a 22 de Abril de 2006 às 17:00
realise o sonho
http://treceiromundo.paginas.sapo.pt/sonhos.htm
De ana a 23 de Abril de 2006 às 18:40
A festa, caro João, ainda tem cores de festa, mesmo que um pouco mais pálidas.
Cores fortes e traço firme tem o retrato que pinta de nós, Povo deste País.
Tenha bom fim de semana, em Liberdade de festejar e opinar, com esta maestria aqui demonstrada de novo.
De TT a 23 de Abril de 2006 às 23:45
Tenho a sensação de que cada vez menos se festeja este dia. Eu particularmente gosto dele por mr ter dado Liberdade.
Beijinhos
De Bart Simpson a 25 de Abril de 2006 às 01:10
Então força.
Boa celebração.
De Carlos Gil a 25 de Abril de 2006 às 13:24
Venham mais cinco!
De M a 25 de Abril de 2006 às 15:20
...

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