Quarta-feira, 19 de Abril de 2006

LENGA-LENGA SOBRE COXOS E OUTROS PIORES

Decerto, caríssima Ana. De coxos não passamos, nesta vida em vale de risos e lágrimas, saltitando de muleta em muleta, até à cadeira de rodas final. Aparando, para tanto, as pedradas que vamos apanhando. Pagando-as, pois então, com risos escancarados de rebeldia e de prazer sem peias, até ao nervo e ao tutano do osso, sem disso procurarmos perder pitada mesmo que ela seja ou pareça venal ou transitória, desde que com bom estar mais bom gosto, de coluna direita isso sempre. Assumindo que, aqui como em tudo, a estética é o único dogma admitido. Não abrindo mão, por princípio ou lei, que cada cidadão meu irmão – preferindo, por orientação que me dá gosto, as irmãs - só alinha no que e porque se sente livre.

Por assim pensar é que entendo, por exemplo, que no foder só se perdem as que caem no chão. E, se possível mas quando as circunstâncias e a força dos rins o permitirem, defendo que deve foder-se de pé para que a cerviz se não dobre no prazer dos prazeres, o maior. Não entendendo, por isto mesmo, não só porque está tão difundido o gosto de foder na horizontal (o tal de "ir para a cama") mas, ainda menos, como é que a Igreja concebeu, no domínio da arte de requinte de conversas eróticas (antecipação da “porno - hot line”), o “Confessionário”, na função de mobília de apoio, em que o(a) lascivo(a) confesso(a) se ajoelha e o Cura punheteiro se senta, separados por uma cortina para que a beata punheta se não veja.

Voltando á ortopedia das crenças, coxos seremos todos. De acordo. Mas, como coxo me confessando, direi que o coxo, por mais que o seja, não tem necessidade da preguiça. Nem que caminhe a pé coxinho. E a religião não passa, no meu ver, de um remedeio preguiçoso no acesso ao direito à paz. Uma espécie de atalho em autoestrada dirigida ao sossego. E, se assim for, então não passa de luxo de novos ricos a lidarem com as agruras do mundo. Assim penso, no uso do meu direito a blasfemar. Com a mesma civilidade democrática com que admito e sobretudo respeito o direito a rezar, comungar e mais que se siga nos usos e costumes dos eclésios preceitos. 

Repare, cara Ana, que, desta vez, não falei (ainda) sobre como a Igreja protege, sempre, os poderosos. E para isso parece ter sido concebida e continua a ser praticante e serva exímia. Mesmo (sobretudo?) quando fala dos desvalidos ou sobre eles homilia.

Mas como não gosto de dar ponto sem nó, fica a imagem deste post atamancado e fruto do mero prazer de conversar por conversar (e há melhor deleite como preito de ventura face ao maná de uma excelente parceria?). Julgando-a, a imagem, uma maravilha ilustrativa sobre o “franco-catolicismo”, essa vergonha tão tamanha que devia fazer corar até um Rei nosso vizinho e metido em trono, com a mesma benção de Cardeais que antes lambuzaram de amens as matanças do cabrão galego. Esse mesmo Rei de herança imposta pelo filha de puta do Franco, o beato mais fascista entre os beatos, finando-se como inspirador não só do Rei das Espanhas como de outro ditador igualmente galego que embora ideologicamente simétrico (Fidel) não desdenha a inspiração nas mãos sujas com o sangue da opressão.

Deixo-lhe, pois, a imagem. Com a proposta de que esqueça o paleio hereje aqui usado como adereço, sabendo-a, cara Ana, que é uma mulher de e pela liberdade, essa mesma virtude que nunca vamos querer coxa.  

Publicado por João Tunes às 19:00
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5 comentários:
De ana a 20 de Abril de 2006 às 09:48
É uma questão de tempo, só de tempo. Acredito, já que de crenças falamos, que se avoluma o número de reformistas no seio da Igreja. Renovadores há muitos e são, regra geral, bastante activos. Os que são crentes de alma apostada, sabem que a sua fé é muito exigente. Batalharão até que se instale de novo a pureza dos ensinamentos primordiais que, em meu humilde e pouco esclarecido entender, rondariam muito aqueles ditames que a Revolução Francesa, tão mais tarde, veio consagrar.
Se, pelo nível dos conhecimentos científicos necessários, está o João mais habilitado ao papel de advogado do diabo, do que eu ao de boa defensora da causa eclesiástica, ainda aqui lhe deixarei mais dois ou três reparos.
O primeiro reparo é este: crentes e beatos não são a mesma coisa e não praticam os mesmos actos, com as mesmas convicções e o mesmo estado de espírito. Podem diferir, diferem certamente, como o dia da noite.
O segundo reparo é apenas para contestar vivamente a sua afirmação de que a religião é “um remedeio preguiçoso no acesso ao direito à paz”. Só lhe digo: preguiçoso, não será, não! A paz de consciência dá uma trabalheira imensa, mesmo pela via da religião, da que conheço um pouco e, admito por igual, talvez também das que não conheço.
Terceiro e último reparo, ignorando os seus fortíssimos ataques a uma eventual lascívia do “confessionário” - Não vá o sapateiro além da chinela – não falo do que não pratico e não me é familiar e, face às considerações que tece sobre reis e galegos, quase apetece mudar o clássico “De Espanha, nem bom vento nem bom casamento”, para “Da Galiza, para político, nenhum filho da mãe se permite”.
Finalizando, na reafirmação de que sou uma mulher pela liberdade, esse bem precioso que não queremos coxo nem subestimado, que permite todas as dúvidas e todas as opiniões, mais as conversas feitas só de conversa, que tanto me permitem aprender com quem sabe mais. Bendita liberdade.
De João Tunes a 20 de Abril de 2006 às 11:56
Ana, aceito todos os seus reparos. Como não podia deixar de ser face aos excessos de um texto só provocatório, isso mais que blasfemo. Fora os justos reparos, permita que lhe sugira, metendo foice em seara alheia, que tente influenciar o máximo a renovação da sua Igreja para que evite, já agora, passar pela "Revolução Francesa" nesse seu caminhar de abertura ao mundo e à sociedade. É que o mito persistente da transformação libertário-jacobina deu no que deu, desembocando no justicialismo sócio-político de que ainda andamos a apanhar os cacos e com os cacos. E sublimou-se nessa tragédia que foi a Revolução Russa. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, se possível e por favor. Como vê, a minha costela reformista, cordata e conciliadora, falou agora mais alto. Uma nota final sobre a Galiza e os galegos - adoro a beleza galega e tenho uma simpatia moderada para com a maneira de ser da maioria dos galegos (até consigo gostar mais deles que dos algarvios da costa mercantil, o que não é difícil...), sobretudo agora, muito recentemente, que deixaram de ser o bastião da direita mais retrógrada das Espanhas, mas que custou a fartarem-se do caciquismo, isso é um facto - foi assim no franquismo e idem no pós-franquismo. Infelizmente, só a tragédia do "Prestige" lhes abanou a modorra. Cordial saudação.
De ana a 20 de Abril de 2006 às 12:13
Provocação, no seu texto, Caro João, é o nome do meio. Deve querer matar-me de apoplexia, ou de complexo de inferioridade ou de qualquer coisa grave, que eu nem sei definir. Verdade seja dita, eu aprecio mesmo uma boa alfinetada. Não sendo praticante, a sério, de nenhuma religião, nem posso nem devo falar em nome de quem não me passou procuração. Contudo, a sua maneira de "espicaçar" é irresistível e eu lá fui na onda da contestação. Que Ele me perdoe o abuso.
Como reconhece, a sua "costela reformista, cordata e conciliadora, falou agora mais alto", logo, está tudo calmo e apaziguado. Acabo dizendo que a minha algarviedade lá terá de aceitar isto que confidencia: "...uma simpatia moderada para com a maneira de ser da maioria dos galegos (até consigo gostar mais deles que dos algarvios da costa mercantil, o que não é difícil...)". Ninguém é obrigado a gostar do amarelo, apesar de ser a cor do sol.
De João Tunes a 20 de Abril de 2006 às 12:33
Pronto, vai já uma pá de cal em cima deste post absolutamente falhado. Porque inútil no objecto. É que entre tantas e sábias palavras não consegui sacar-lhe uma, sequer uma, de apreço ou desagrado, para com a imagem, essa sim o centro (ou o meio) do post que pretendeu ser uma imagem com palavras blasfemas só para enfeitar. A sua indiferença é a prova provada da minha inépcia. Tentarei melhor em próxima oportuniade. Amen.
De ana a 20 de Abril de 2006 às 17:02
João, faça favor de não dizer uma coisa dessas. Este post não foi absolutamente falhado. Confesse que lhe dá uma ligeira subida de adrenalina, tal como a mim me deu, um desafiozinho ao dize-tu-direi-eu. Se o intuito era captar comentário à imagem, aqui vai agora: "coisa feia"!
Inépcia não houve: aproveitei eu, do texto, o seu ensinamento da arte de bem escrever e de bem "ferroar", que nessas artes o João é mestre encartado. Como notará, as palavras blasfemas que só serviam para enfeitar a imagem, surtiram em mim maior efeito do que a própria imagem. E, para não contradizer mais nada, Amen.

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