Quinta-feira, 14 de Junho de 2007

O PSIQUIATRA VIGILANTE (1)

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No quadro político que levou ao XX Congresso do PCUS, o Gulag não só foi encerrado como passou a haver uma moderação apreciável dos aspectos mais brutais e discricionários dos mecanismos repressivos na URSS. Aliás, logo após a morte de Stalin em 1953, o próprio Béria, o torcionário-mor, alimentando a sua esperança de suceder ao ditador e procurando alijar-se do passado sanguinário próximo do canibalismo policial, desencadeou uma série de medidas “liberalizadoras” da cadeia patológica do vampirismo que sustentava o poder do ditador e seu antigo senhor.

 

A partir do quadro kroutcheviano, na fase designada por “degelo” pela boa vontade incentivadora de Erhenburg, a repressão do NKVD/KGB perdeu o seu carácter massivo e tornou-se selectiva e sofisticada. Com a recuperação estalinista de Brejnev, iniciada em 1964, a KGB tornou-se mais “científica” e aprimorou os processos de vigilância e repressão, dirigindo-a para as erupções de dissidência, mantendo a sociedade prisioneira do medo. Os métodos repressivos mais vulgarizados passaram a ser os exílios internos (deportação para vilas e aldeias do interior, onde o dissidente passava a viver fora do seu relacionamento social) e a sua entrega aos psiquiatras do partido, onde eram diagnosticadas patologias de dissonância social que levavam ao internamento compulsivo em manicómios, enquanto perdurassem as “doenças mentais” de “comportamento em disfunção social”, ou seja, por exemplo, negar que a URSS era o paraíso na terra ou trair a pátria ao relacionar-se com estrangeiros. Pois que, segundo o conceito da normal sanidade mental do "homem novo soviético", só um louco poderia discordar daquela abolição da exploração do homem pelo homem e descortinar virtudes a ocidente, incluindo as democráticas. E era assim que muitos presos políticos na URSS, até à "perestroika" em meados dos anos 80, eram condenados, em julgamentos sumários, ao "internamento em unidades de tratamento psiquiátrico até confirmação da sua recuperação social". Ainda hoje, do ponto de vista do tratamento histórico, está por ter o merecido tratamento de investigação este capítulo dantesco da repressão policial soviética - o da utilização dos manicómios soviéticos como peça fundamental da repressão política de que foram vítimas milhares de cidadãos da URSS. E que valeu aos psiquiatras soviéticos terem sido banidos pelos seus pares dos países em que os psiquiatras eram médicos e não polícias, indignados com a utilização da psiquiatria soviética para a perseguição e castigo da discordância política, durante décadas, das organizações e associações internacionais dedicadas à psiquiatria e à psicanálise.

 

[Em 1984, era então Andropov o dirigente supremo da URSS, vindo directamente da chefia do KGB, testemunhei em Moscovo o efeito terrível do “medo psiquiátrico”. Estava, com outros portugueses, numa roda de convívio com um grupo jovial de intérpretes soviéticos que dominavam a língua portuguesa. Brincava-se e contavam-se estórias e anedotas. A um dado momento, um meu camarada português reagiu a uma historieta comentando “mas que grande maluco…”. Fez-se um automático silêncio generalizado e glacial da parte dos convivas soviéticos. Perante o nosso espanto e desconforto, um moscovita explicou vagarosamente: “nunca digam, na União Soviética, que alguém é maluco, cada um de nós conhece pelo menos uma pessoa que, sob a acusação de ser maluco, desapareceu da circulação”.]

 

Que saiba, os (muitos) psiquiatras comunistas da URSS que colaboraram, sujando a sua profissão de médicos, com o diabólico esquema repressivo de internarem dissidentes políticos em manicómios, nunca foram incomodados nem prestaram contas pelos seus crimes profissionais. Uns tantos sobreviventes andarão por lá ou por aí.

 

O Dr. José Manuel Jara é, além de comunista ortodoxo e especialista em questões teórico-ideológicas do marxismo-leninismo, um psiquiatra de sucesso (é director de uma das clínicas psiquiátricas do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa). Depois de se ter dedicado à paciente dissecação e estudo dos grupos esquerdistas, sobretudo os maoístas, que proliferaram antes e depois do 25 de Abril, em prolongamento de pormenor da aplicação da tese de Cunhal sobre o "radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista", tendo publicado sobre a matéria várias brochuras e opúsculos. Volta e meia, o Dr. José Manuel Jara escreve no “Avante”, não para zurzir na degenerescência da psiquiatria soviética e dos seus colegas-camaradas transformados em servidores policiais, mas, antes, para velar pela ortodoxia ideológica do cunhal-leninismo como se a União Soviética ainda iluminasse os povos e as suas mentes. Foi no último exemplar deste mesmo jornal que o Dr. José Manuel Jara analisou (avisando à entrada que o leu para o "criticar", não fossem surgir malévolas suspeitas sobre as leituras do ilustre clínico), em minucioso escalpe psicanalítico, um livro de um ex-dissidente do PCP, recentemente editado, numa espécie de relatório “da traição posteriormente confirmada”, o qual seria bem útil a uma polícia de vigilância política no caso de ela existir. Em que até o apelido do autor serve de galhofa de divã. E arrepiei-me, lembrando o silêncio glacial que sentira em Moscovo no tempo de Andropov. Sem razão. Felizmente. Embora, pelo sim e pelo não, seja mais seguro e saudável, para um dissidente com a mania de escrever, ter psiquiatras comunistas bem longe do encalço e com relatório de diagnóstico pronto a disparar.

---

Adenda: Este post teve, depois, um tratamento complementar aqui.

Publicado por João Tunes às 23:32
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3 comentários:
De Rui Bebiano a 14 de Junho de 2007 às 23:49
Aprecio sobretudo quando o homem fala da «inanidade ideológica» dos outros... São coisas que nos deixam sempre bem dispostos.
De Rui P. Bebiano a 18 de Junho de 2007 às 12:19
Caro João

Em definitivo a linguagem do artigo do "Avante" é claramente deselegante e, em alguns casos, insultuosa. Mas não deixo de lhe encontrar pontos com que concordo.

Por outro lado parece-me também excessiva a ligação que parece querer estabelecer entre os passados psiquiatras soviéticos e o presente psiquiatra português

Mas sobre isto vou bengalar lá para a minha freguesia
De Anónimo a 18 de Julho de 2010 às 21:35
Só hoje li estas palavras sobre o Medico Jose Jara e não posso deixar a minha critrica ás maldosas palavras do João Antunes sobre o que escreve sobre o psiquiatra"que penso que " não deve conhecer

o trabalho que este medico como e cidadão e
profissional tem feito ao longo dos anos.
Não devemos criticar actividades sem sabermos do que falamos...

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