Segunda-feira, 28 de Maio de 2007

A PAZ DORMENTE NA DISSIDÊNCIA

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Na apresentação do último livro de Raimundo Narciso (*), o seu camarada e amigo Mário Lino (**) teve a corajosa ousadia intelectual e política de enfrentar a questão de, vista à distância, como é que os ex-dissidentes olham o seu passado partidário quando militaram nas fileiras do PCP. E, julgando, naturalmente em boa-fé e melhor convicção, responder pela maioria dos ex-dissidentes, correspondeu assim à questão que ele próprio colocou no ar (e que, por sinal, RN não levanta no seu livro):

 

De tudo isto o que fica? Foi a militância no PCP uma grande desilusão, um grande embuste?

Conheço um grande número de ex-membros do PCP que viveram estes acontecimentos, mas, salvo muito raras excepções, e tal como eu ou, estou convicto, o Raimundo Narciso, nenhum se mostra arrependido dos anos dedicados à militância neste Partido.
Reconhecemos, certamente, grandes defeitos ao PCP, mas também encontramos na nossa experiência partidária grandes virtudes.
Para todos foi, certamente, exaltante a defesa de ideais nobres de transformação da sociedade, de forma a torná-la mais justa, mais solidária, sem exploração do homem pelo homem. Para todos foi marcante o espírito de dedicação, de despojamento, de abnegação, de coragem, de sacrifício evidenciado pela generalidade do colectivo partidário. Para todos foi empolgante a luta por causas que consideram justas e por princípios que consideram fundamentais. Para todos foi determinante o sentimento de pertença a um colectivo mobilizador da concretização destes objectivos.
Mas todos reconhecem também a falência do caminho seguido pelo PCP para concretizar os seus objectivos mais nobres de vida e de luta. Todos estão cientes da desactualização e falência de conceitos como o centralismo democrático, a ditadura do proletariado ou o carácter de vanguarda do partido. Todos repudiam o autoritarismo e o despotismo iluminado exercido pela direcção do Partido como forma correcta de mobilização do colectivo partidário. Todos reconhecem a importância decisiva da liberdade individual e da democracia no partido e na sociedade, como a melhor forma do exercício da vontade colectiva e da responsabilidade social. Todos partilham a convicção de que a vida interna e as práticas do partido devem reflectir o que queremos para a sociedade.
Por isso, grande parte dos ex-membros do PCP mantêm intactas as suas convicções, o seu empenho na luta pelas causas que marcaram, desde a sua juventude, o seu pensamento e a sua acção, os mais nobres traços de carácter que desenvolveram e interiorizaram durante a sua passagem pelo PCP.
Afinal, para mim, e certamente para o Raimundo e para a maior parte de vós, os objectivos de luta mantêm-se os mesmos. E se continuamos a lutar é porque estamos vivos.

 

A questão levantada por Mário Lino é oportuníssima, sobretudo para os que observaram e observam as “dissidências” da “parte de fora”(ou seja, à parte do grupo que participou nas movimentações). Sobrando uma série de ideias feitas consoante as conveniências e os interesses político-partidários. Para os que se mantiveram fiéis, a marca de “pecado original” dá um consolador sossego sobre o que estava em causa no momento da dissidência – eram já “direitistas” que estavam “a mais” e mexeram-se porque “se sentiram a mais” e quiseram arrastar consigo o máximo de danos no barco prestes a ser abandonado (Zita Seabra já seria PSD desde a adolescência, Raimundo Narciso e Mário Lino já estavam perdidos de amores contidos pelo PS ainda antes deste ter sido fundado, Miguel Portas era desde os tempos de estudante um bloquista controlado a quem só faltava conhecer Louçã e cair-lhe nas tentações esquerdistas). E, assim, segundo estes, a purga derivada da dissidência só purificou o PCP de gente que lá andava mas estava fora do contexto, tendo-se enganado e enganado a direcção sobre o partido certo desses “penduras”. Para outros, os cáusticos da observação pelo prisma da exigência moral, ética e da exigência da coerência, o juízo não é mais abonatório – ou mentem agora, sendo revolucionários a fazerem-se de democratas, ou mentiram antes, sendo democratas a fazerem-se de revolucionários. Num caso ou noutro, perto ou em cheio no oportunismo dos “troca-tintas” consoante os ventos e as conveniências. A que acresce o silenciamento sobre os muitos que, tendo saído do PCP, se mantiveram fora de re-encaminhamentos partidários (de que é exemplo notório, o percurso autónomo de António Graça até ao fim dos seus dias, ele que foi um dos mais caústicos e intervenientes entre os líderes da dissidência da “terceira via”).

 

Para estas questões, as respostas de Mário Lino não podiam ser piores. Porque são uma mistificação completa, um exercício infeliz de harmonizar o contraditório. Para mais, sendo Mário Lino um ministro em exercício neste governo deste PS, como pode dizer que hoje, com a política governamental para que contribui com o seu corpo ministerial, acrescentando-lhe o valor de um notável espírito de humor que muito diverte os portugueses, “mantem intactas as suas convicções, o seu empenho na luta pelas causas que marcaram, desde a sua juventude, o seu pensamento e a sua acção, os mais nobres traços de carácter que desenvolveram e interiorizaram durante a sua passagem pelo PCP” e que, politicamente, “os objectivos de luta mantêm-se os mesmos”?

 

A mistificação de Mário Lino assenta no expediente de separar as práticas partidárias das “convicções” e dos “objectivos de luta”, particularmente absurdo no caso extremado do PCP, onde a ideologia e a organicidade se confundem em absoluto e não funcionam em níveis minimamente dissonantes. Um “partido revolucionário” como sempre foi e continua a ser o PCP, não pode coabitar com práticas democráticas internas ou externas, excepto nos exercícios de duplicidade táctico-propagandística nas fases de refluxo (como a actual, já apodrecida por ter nascido em 25 de Novembro de 1975, e que o populismo "à Jerónimo" tenta disfarçar). Ou o leninismo não passa de uma batata. E por não o ser é que os dissidentes, antes de o serem, acreditavam no modelo revolucionário e, por isso mesmo, aceitavam e colaboravam com práticas partidárias não democráticas, admitindo como integralmente legítimas as de tipo revolucionário vanguardista.

 

Aparentemente, o que os dissidentes contestaram em primeiro lugar foram as práticas internas de atropelo ao viver partidário minimamente democrático. Mas esta formulação só pode ter advindo de uma profunda inflexão ideológica, mesmo que íntima, mitigada e progressiva, por contestação do modelo revolucionário e conversão à intervenção reformista no quadro da vida política democrática, numa qualquer espécie de “social-democratização”. E como a reconversão ideológica e política radical do PCP se apresentava impraticável, impensável até em termos de formulação, toda a táctica de contestação orientou-se para os procedimentos e os atropelos que, nas vésperas, não se contestavam e com que se era condescendente e conivente (upa, upa, no caso de membros do CC). E com o desenrolar do processo, a aversão pelas práticas estalinistas foi alimentando a reconversão ideológica e vice-versa. Estude-se o PCUS versus glanost e perestroika e está tudo lá escarrapachado a uma escala gigantesca e dramática. No nosso caso doméstico, a dinâmica da distanciação dos métodos e ideologias revolucionários, alimentando-se reciprocamente, levou a que os ex-dissidentes percorressem os seus caminhos posteriores (que acredito plenamente, não estavam pré-determinados em nenhum dos casos), uns para os braços do PS, outros para o Bloco, mais uns tantos para a “solidão de esquerda”.

 

Dizer, como disse Mário Lino, que quando estava no PCP e está agora no governo PS, incluindo os percursos intermédios, continua a mesma defesa de ideais nobres de transformação da sociedade, de forma a torná-la mais justa, mais solidária, sem exploração do homem pelo homem”, é uma mera justificação optimista de pseudo coerência como se a formulação tivesse a mínima semelhança de conteúdo vista no PCP ou no PS. Afinal, em justiça à inteligência de Mário Lino, julgo que se resume a um desejo consciente de dormir com o sono da inocência mesmo que sob a anestesia de uma trapaça. Por mim, prefiro uma das suas excelentes piadas recheadas de bom humor.

 

(*) – “Alvaro Cunhal e a dissidência da terceira via”, Raimundo Narciso, Editora Âmbar

 

(**) O texto integral da intervenção de Mário Lino pode ser lida aqui.

Publicado por João Tunes às 19:24
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2 comentários:
De Rui Bebiano a 29 de Maio de 2007 às 10:45
Excelente análise com a qual estou quase totalmente de acordo.

Mas não duvido nem por um momento de que ele efectivamente acredita no que diz. Quiçá da mesma forma que em tempos acreditou na "pátria do socialismo". Certos esquemas mentais nunca morrem. Podem ser readaptados a novas ideias e processos, mas a matriz persiste. Tenho amigos assim portanto não me custa nada crer que o mesmo se passa com o Mário Lino.

Para mim, que cheguei à JCP e ao PC já depois do PREC e deles me afastei meia dúzia de anos depois, não é difícil perceber a mentalidade típica do militante de base.

Mas já me custa perceber como pessoas inteligentes e com altas responsabilidades como eram os do Grupo dos Seis ou da "terceira via" não tenham sabido ler a Hungria de 56, a Checoslováquia de 68 e sobretudo a Polónia do inicio dos anos 80. Estava ali patente a falência do "socialismo real".

Pior ainda entender as dissidências dos finais de 90, com muitos que anteriormente tinham crucificado os seus antigos camaradas ( de partido e agora de dissidência). Creio bem que se terão amargamente lembrado do velho texto de Brecht: "Primeiro levaram..."

Será provavelmente a ultima herança legada por Cunhal: o saber engolir sapos.
De Paulo Santiago a 29 de Maio de 2007 às 14:24
João
Comprei ontem o livro do Raimundo Narciso que irei
ler atentamente,tendo em conta alguns dos teus posts.
Do Mário Lino fiquei a saber que tu és um "beduíno"
do deserto situado na margem sul do Tejo.
Abraço de amizade

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