Segunda-feira, 14 de Maio de 2007

A GRANDE DISSIDÊNCIA COMUNISTA (2)

001csrhr

 

(complementando este post)

 

Visto à distância, o que sobrou da “terceira via”? Quanto aos dissidentes, um conjunto vasto de ex-militantes tresmalhados pelas esquerdas, em que alguns foram “pescados” pelo PS (onde um número reduzido, entre os “notáveis” da dissidência, atingiu postos de relevo, incluindo na governação, nas autarquias e no Parlamento), outros (muito poucos) acolheram-se ao albergue bloquista, restando um número apreciável dos que navegam solitários e só se encontrando, ou não, em causas pontuais. Mas todas estas manchas dispersas de ex-militantes comunistas não só foram incapazes de, fora do PCP, manterem uma qualquer unidade orgânica ou um cimento ideológico comum, como, por si ou em conjunto, diluíram-se e não influenciarem minimamente um reordenamento ou revigoramento da esquerda portuguesa e, ao contrário, viram-na deslizar para a impotência perante o pragmatismo dessa espécie de “social-liberalização” liderada por Sócrates. Notório ainda é que não deixaram “pontas” para dentro do PCP, onde os seus militantes persistentes aparentam uma sólida imunização adquirida relativamente a repetições de “contaminações”. No respeitante ao PCP, passado da crispação ao cinzentismo “normalizador” de Carvalhas, ultrapassada sem problemas de maior uma réplica dissidente de fraca intensidade e sem ponta de chama com os “renovadores comunistas”, não só houve um reforço do monolitismo interno e do entusiasmo partidário como foi conseguida uma recuperação eleitoral que, pela primeira vez, embora não ultrapassando a barreira de um dígito, inverte o sentido de declínio vindo da “guetização” iniciada com a vitória da “contra-revolução” e a ameaçar a passagem a um estado residual com a implosão do império comunista. Resumindo, enquanto os dissidentes se dispersaram e têm insignificância política, o PCP, mesmo perdendo o que era o importante e decisivo apoio soviético, apresenta-se como uma excepção na vaga de definhamento e desaparecimento acelerado de partidos comunistas no mundo.  

 

Neste quadro, pode concluir-se que, mais que uma rebeldia consequente ou um abalo de mudança, a “terceira via” resultou, afinal, numa purga bem sucedida oferecida à fracção dirigente do PCP. Ou seja, libertou o partido de uma “ala de direita”, social-democratizante, congregando-o pelo entusiasmo de uma sensação de retorno à essência bolchevique, contabilizando o descrédito da “perestroika”, a hiper-mitificação necrófila de Cunhal e a simultânea chegada á liderança de um populista paroquiano com boa relação e aceitação pela comunicação social, num caldo “oferecido” de amplos e diversificados ressentimentos sociais gerados em catadupa pela “reforma contra os pequenos” desencadeada pelo governo de Sócrates. Além do fenómeno mais recente da erupção de um neo-fascismo serôdio, o da saudade salazarista, que, embora grupuscular, proporciona ao PCP a re-encenação da luta “antifascista” e, nesse quadro, voltar a auto-exaltar-se com velhos pergaminhos dicotómicos pré-democráticos.

 

No entanto, este balanço de ganhos e perdas não pode contornar o muito que mudou, por efeito da “perestroika” e da implosão do movimento comunista internacional, com o associado impacto interno e mediático da “terceira via” (no essencial, um reflexo importado da “perestroika”), na natureza do comunismo português.

 

Os dissidentes, opondo-se à natureza profundamente estalinista do molde partidário de Cunhal e contra a asfixia sectária que impedia a transição do PCP de um partido revolucionário para um partido democrático, jogando essa adaptação numa aproximação ao PS, bem como uma libertação da tutela soviética, mantinham ilusões (muitas) que era possível chegar a esses objectivos por uma mítica “purificação leninista” que fizesse uma ponte histórica entre o legado do partido, a sua matriz e tradição, e um futuro de democratização do partido, nomeadamente convertendo-o ao valor da liberdade (valor esse que, imperativamente, colide nos comunistas com o valor supremo da eficácia partidária). Rapidamente constataram a incongruência do projecto, e se Lenine rapidamente caiu como inspirador salvador (nada que não tivesse já acontecido com Krutchov e com Gorbatchov) por, afinal, o estalinismo não passar de um fase avançada do leninismo, sendo indissociáveis, foi-se ficando pela inspiração do velho Marx e hoje provavelmente nem sequer isso para a maioria dos ex-dissidentes. E, assim, cada dissidente, no seu percurso próprio, tendo começado por tentar purificar o comunismo, rapidamente se reencontrou, em menor ou menor grau, mas espantado, como socialista “de esquerda” e não comunista (uma parte transitou até para o anti-comunismo).

 

Quanto à fracção dirigente do PCP, a vencedora e que liquidou a fracção da “terceira via”, extirpando esse “desvio de direita”, a forma que encontrou para a sobrevivência do PCP no panorama devastador da hecatombe comunista, foi a via da “simplificação”, conservando as velhas referências ideológicas nas palavras, nos ritos e nos símbolos, mas dedicando-se ao populismo sindicalista mobilizador dos ressentimentos sociais, numa retórica de duplicidade entre a intervenção no jogo democrático e a sobrevalorização das acções de massas e do projecto revolucionário, cultivando o obreirismo e a superioridade política da classe operária, nessa evidente esquizofrenia de dar vivas ao proletariado enquanto arregimenta pouco além de funcionários públicos, professores, polícias e militares. Hoje, para um militante comunista, dizer-se marxista-leninista chega e sobra como apetrecho teórico, depois, para realizar a praxis, é ir aos comícios, às manifestações, não faltar na “Festa do Avante”, comprar os livros do Álvaro e dar um abraço ao Jerónimo. É, pois, um estalinismo descarnado ideologicamente, simplificado e popularizado, estagnado nos mecanismos psicológicos conservadores da resistência à mudança, juntando-lhe a constância da profunda aversão política pelo PS. Tal como com os dissidentes da “terceira via”, embora com um impulso esquerdizante-populista no lugar do “desvio de direita”, também o PCP, a sua direcção, à sua maneira, sepultou o que havia de Marx e Lenine no percurso do comunismo português (que, diga-se, nunca foi muito e talvez nunca tenha chegado a ultrapassar o legado anarco-sindicalista que foi seu berço nem a inspiração da religiosidade popular católica disfarçada com pintura de vermelho vivo).

 

Resumindo, a ascensão e liquidação da “terceira via” não passou de um espectáculo partidário dentro do espectáculo político maior: o desaparecimento, embora não formal, do comunismo português e do seu património marxista-leninista acumulado. Por formas diferentes feitas em paralelo, consoante a mesma obra foi feita para fora ou por dentro do PCP.

-------

[Este e o anterior post sobre o mesmo tema foram escritos sem ler o livro sobre a "terceira via" escrito por Raimundo Narciso agora disponível nas livrarias e cujo lançamento público decorre no próximo dia 17. Nem o seu autor me deu qualquer conhecimento acerca do seu conteúdo nem discorremos em conjunto com profundidade sobre aquilo que cada um de nós entende, beneficiando da distância no tempo, sobre esta dissidência em cuja "luta fraccionária" estivemos no mesmo barco e que, através do convívio com o saudoso António Graça, um querido amigo de ambos e impulsionador destacado da "conspiração", nos tornou depois em bons amigos pessoais mas sempre com vivas discordâncias, recheadas de indestrutível "fair-play", acerca de muitas das questões políticas nacionais e internacionais. Assim sendo, não faço a mínima ideia se as minhas teses, as que exponho neste e no anterior post, coincidem ou divergem com as defendidas por Raimundo Narciso. Do livro, tratarei quando o ler e se ele me der algum motivo para voltar à abordagem do tema.]      

Publicado por João Tunes às 00:42
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8 comentários:
De Joana Lopes a 14 de Maio de 2007 às 11:30
Excelente texto, caro João (que merecia um longo comentário), óptimo complemento ao livro do RN (que já li). Só uma nota, em relação ao primeiro parágrafo sobre dispersão e inoperância dos dissidentes como grupo, que julgo serem inevitáveis: os factores comuns, antes de qualquer dissidência, parecem muito fortes (porque é uma unidade «contra»), mas a unidade é mais aparente do que real e, por esse motivo, os dissidentes estão, na grande maioria dos casos, condenados à separação.
De João Tunes a 14 de Maio de 2007 às 17:52
Certíssima a sua nota, cara Joana. Mas digamos que dos três sub-grupos criados com a dissidência, dois mantiveram divergência entre si mas adquiriram uma certa intra-homogeneidade (resultante de novas identidades, uma no PS e outra no BE). Quanto ao terceiro "sub-grupo", o dos que que não reacaíram na tentação da militância partidária, em que me incluo e onde se manteve o António Graça enquanto vivo e muitos outros, aqui sim a confluência é zero, andando cada um a curtir à sua maneira a solidão perante os aparelhos e lógicas dos partidos. Por exemplo, eu só vim a reencontrar alguns (os do meu "sub-grupo") quando da campanha por Manuel Alegre, enquanto a maior parte dos ex-dissidentes terçavam armas por Mário Soares ou Francisco Louçã.
De carlos freitas a 14 de Maio de 2007 às 12:48
Cá, nem os dissidentes prestam...cada um fez-se á vida..a que lhe calhou....e entre uns abaixo do chão que pisamos ou outros no limbo dos tecnocratas a cada uma a sua dissidência. Por acaso não não haverá uns dissidentes para a troca?
De João Tunes a 14 de Maio de 2007 às 17:55
Só atingi o intuito da alfinetada cínica. O resto passou-me ao lado do entendimento...
De carlos freitas a 15 de Maio de 2007 às 01:36
Alfinetada civilizada, convenha-se. O que lhe terá passado ao lado ? A referência à possível existência de dissidentes para troca? Bem, essa, convenhamos não era bem alfinetada, era puro gozo. Tinha que ver com os troca-tintas. Como disse alguém só os burros não mudam. Convenhamos, por princípio que mudar foi ou é quase sempre um processo doloroso e pessoal. Mas a passagem para o lado do inimigo ( agora ex-inimigo) de armas e bagagens, quer, esse gesto, fosse motivado por questões de sobrevivência política ou até económicas, deixou, na minha humilde perspectiva, muito a desejar, em alguns dos casos, quanto ao seu carácter enquanto indivíduos , mas cada um sabe de si. Não estou a julgar, estou a dizer que eu, pessoalmente, não agiria dessa forma. Espero que me entenda. Nada tenho nada contra dissidências, o que não entendi foi o seu alcance prático. Se apenas a questão foi ideológica saiam pura e simplesmente. Se o acto de rebeldia foi acompanhado da expulsão, por divergência ideológica, considerado grave pecado, aí pecou a organização, mas, desta, nunca foi de esperar outra coisa. A alguns dos dissidentes li-os escrevinhando, ou ouvi-os, contra Berlinguer . Eu próprio, miúdo seria, nunca entendi a sanha contra o então PCI . Uns anos depois assobiavam para o lado como se nada tivessem dito ou escrito. Propunham agora algo que, então, condenavam veementemente.
Convenhamos que transformar um partido não será, nunca foi tarefa fácil, sobretudo sendo esse partido o Partido Comunista Português. Mas que, os caminhos da dissidência, foram e repito, em alguns casos, de puro oportunismo político ou pessoal, disso não tenho dúvidas. Por outro lado, as excepções a essa regra, foram, quanto a mim, igualmente extremamente maltratados, quer ideologicamente , quer pessoalmente, pelo partido a que pertenceram durante grande parte da sua vida, quer pessoal, quer como militantes de uma causa. Estes não pertencem aos dissidentes para a troca, não, estes não misturaram tintas, esses para o bem (e para o mal, segundo outros) levaram a dissidência, como algo de importante para a sobrevivência do seu Partido, com a honra e com coragem que, objectivamente, lhes reconheço e aqui deixo registada. Honra lhes seja feita. Espero ter conseguido desfazer as dúvidas. Pelo menos tentei.
De João Tunes a 15 de Maio de 2007 às 01:46
Obrigado por ter ajudado a entendê-lo. Também pelo contributo das suas opiniões e juízos.
De RN a 15 de Maio de 2007 às 01:21
Olá quer este quer o anterior foram lidos em diagonal devido à hora tardia. Voltarei cá com tempo para conversarmos. No primeiro notei umas ligeiras imprecisões factuais de que darei notícia. Fico satisfeito por ver que já houve uma pessoa, a Joana, com a pachorra de ler o meu livro. Toda a gente deveria fazer o mesmo;)Gostei do seu comentário.
deixo aqui o endereço para quem queira dizer mal (ou bem) do livro http://agrandedissidencia.blogspot.com
Um abraço ao grande Tunes.
De João Tunes a 15 de Maio de 2007 às 01:52
Olá Raimundo. Os posts (sobretudo o primeiro) foram mesmo post de rajada, sem suporte de ajuda à memória, pelo que é natural que exista uma ou outra imprecisão (e eu não fazia parte do CC). Obviamente que estou disposto a reparar as incorrecções que tenhas a bondade de identificar. Entretanto, a Joana Lopes já não está sózinha, acabei mesmo agora de ler o livro que ultrapassou, positivamente, o melhor que de ti esperava. Parabéns. E hoje não levas abraço que ele fica para ser dado ao vivo no dia 17.

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