Quinta-feira, 29 de Março de 2007

AINDA SOBRE O MOVIMENTO ESTUDANTIL DURANTE O FASCISMO

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Como aqui ressaltámos, entre 1962 e 1968 (1), pese embora a massiva participação de estudantes sem convicções políticas ideologizadas e outros com convicções plurais, a luta dos estudantes portugueses contra o fascismo teve, na sua organização e condução, o papel determinante e absolutamente hegemónico, embora camuflado, do PCP. O que não diferia de toda a restante oposição e luta contra o regime de Salazar. Este “património político” do PCP, quase uma constante na dicotomia fascismo-comunismo que Salazar impôs e que o PCP tudo faz ainda agora para que se prolongue na situação democrática, é usado pelo PCP para tentar legitimar, pelo espartilho do maniqueísmo, a sua prática política e o seu modelo de sociedade como a única alternativa superadora do fascismo e do capitalismo (ou o marxismo-leninismo soviético-sindicalista à PCP ou o regresso do fascismo). Esta sectarização também se exerce sobre a memória e foi levada ao extremo na sessão patrocinada pelo PCP, no passado sábado, para comemorarem, na sua família política, o Dia do Estudante de 1962 e as crises académicas que lhe seguiram (2). Segundo Albano Nunes (3), só os comunistas terão sido combatentes consequentes na luta estudantil e, nestes, há que segregar retroactivamente os que de então até hoje divergiram ou se afastaram [porque (e Iejov não diria melhor): “mudaram entretanto de campo e negam hoje valores que então os colocaram nas primeiras linhas da luta”]. Donde, seguindo-lhe o efeito da vassourada, das dezenas de milhares de activistas estudantis que combateram o fascismo nas três academias (em 1962 e 1969, não se pode esquecer que a luta estudantil teve carácter de luta de massas), nos dignos de “medalha antifascista” sobrará hoje um mero punhado com Albano Nunes à cabeça.

 

Pelo noticiado no “Avante”, Albano Nunes e restantes oradores, se enalteceram à saciedade os méritos da organização dos estudantes comunistas, exagerando pelo excesso do exclusivismo (muitos destacados e influentes dirigentes estudantis não eram nem vieram a ser comunistas, por exemplo: Jorge Sampaio, Vítor Wengorovius, Medeiros Ferreira, Jaime Gama, falando só dos mais destacados em Lisboa em 1962), não falaram de outra face conectável com a história da organização comunista nos movimentos estudantis – a capacidade da PIDE em infiltrar a organização e as inúmeras, algumas gravíssimas, traições de quadros do PCP, incluindo funcionários na clandestinidade, quando das suas prisões. Nesta “face negra”, que não se pode escamotear, nem varrer para baixo do tapete da história, quando se fala da hegemonia comunista entre os estudantes em luta, pois também ela faz parte do “património”, o caso mais marcante é o de Nuno Álvares Pereira. Sobre ele diz a historiadora Irene Pimentel (4):

 

“A 6 de Dezembro de 1964, João Crisóstomo Teixeira, estudante do Instituto Superior Técnico e membro de um organismo de direcção do PCP para parte do sector estudantil de Lisboa, é preso no decurso de um encontro de rua com Nuno Álvares Pereira, controleiro de toda a organização estudantil que usava o pseudónimo “Moreira”.”

Álvares Pereira integrava um nível de controlo partidário especialmente criado para os sectores estudantil e intelectual, cujo responsável era António Joaquim Gervásio, um assalariado agrícola de Montemor-o-Novo, membro do Comité Central.”

“Nascido em 1927, natural de Ponta Delgada, teria, segundo as suas próprias declarações, iniciado a actividade em 1959. É efectivamente referenciada a sua presença logo em Janeiro desse ano num jantar comemorativo do 31 de Janeiro e em Maio subscreve o manifesto “402 estudantes das 3 Academias”, reclamando o afastamento de Salazar. Porém só passa a militante no ano seguinte. Integra então uma das células da Faculdade de Direito, passando depois ao sector militar durante o período em que esteve na tropa.”

“Em Setembro de 1961 passa a funcionário do PCP, substituindo José Bernardino no controlo do sector estudantil de Lisboa, no âmbito da reorganização operada no trabalho partidário entre os estudantes, que decorre da chamada correcção ao “desvio de direita”, empreendida por Álvaro Cunhal, a partir da sua fuga da prisão no ano anterior.”

(…)

“Regendo-se por um modelo orgânico profundamente centralizado, Nuno Álvares Pereira, enquanto controleiro dos estudantes de Lisboa, cohecia a organização profunda e detalhadamente e era ele próprio quem em muitos casos decidia sobre os novos recrutamentos, examinando-os um a um.”

“É certo que a investigação directa e a rede de informadores permitia à PIDE ter um grau de suspeição sobre quais eram os estudantes simpatizantes do PCP, principalmente entre os mais expostos, mas de qualquer forma tratava-se de um retrato desfocado e muito fragmentado.”

“Em Novembro de 1964, pouco antes de ser preso, Nuno Álvares Pereira redige um relatório para o partido sobre a situação conspirativa no sector em que refere que 12,5% dos quadros são conhecidos como comunistas pela polícia e 20% fortemente suspeitos de ter ligações partidárias.”

“Há nos arquivos da PIDE um documento intitulado “Organismo da Direcção Regional de Lisboa do Partido Comunista Português segundo o funcionário “Moreira-Nuno Álvares Pereira”, datado de 6 de Dezembro de 1964, que é precisamente a data em que este fora preso juntamente com Crisóstomo Teixeira, o que, a ser verdadeira a referida data, remete para um conhecimento prévio por parte da PIDE de uma minuciosa descrição de toda a estrutura do Partido Comunista entre os estudantes de Lisboa, em relação a nomes e respectivas células e comités em que estavam integrados, bem como cargos e posições que ocupavam. Longa lista de muitas e muitas dezenas de nomes, que somariam mais de quatro centenas.”

“É certo também que no seu magro processo-crime instruído pela PIDE em todos os autos de perguntas aí incluídos, entre 7 de Dezembro de 1964 e 5 de Abril de 1965, Álvares Pereira nega sempre pertencer ao PCP, e numa informação da polícia política de 6 de Abril conclui que “Não foi possível reunir elementos de forma a poder-se concretizar a suspeita de que o arguido (…) se vinha dedicando à prática de actividades contrárias à segurança do Estado”.”

“Trata-se evidentemente de documentos falsos, destinados a possibilitar a sua libertação, encobrindo as extensas denúncias que fez. Em meados de Abril de 1965, fosse desde antes da sua prisão fosse nos dias que se lhe seguiram, Nuno Álvares Pereira entregou à polícia, com um grau de pormenor impressionante, todo o sector estudantil de Lisboa, indicando os quatro escalões da organização, desde a troika de controlo às células de Faculdade, aos militantes dispersos e às JAP, Juntas de Acção Patriótica, criadas no âmbito da FPLN.”

“Os documentos em posse da PIDE indicam a constituição dos dois organismos que compõem o chamado 2º escalão, com nomes e pseudónimos, bem como a escola que frequentam, assim como as células e comités de escola que cada um desses elementos por sua vez controla, que constituíam os 3º e 4º escalões partidários.”

“Segundo esse documento, João Crisóstomo Teixeira, por exemplo, fazia parte de um dos dois organismos controlados directamente por Nuno Álvares Pereira, usava o pseudónimo “Gonçalo” e controlava, ao nível do 3º escalão, as células da Faculdade de Ciências, do Instituto Superior Técnico e o organismo composto pelos dois militantes que faziam parte da RIA, Reunião Inter-Associações. Dirigia ainda, no 4º escalão, no IST, mais uma célula, através da qual era controlado o presidente da respectiva Associação de Estudantes.”

(…)

“Há gente presa nesta altura que afirma ter mesmo visto Nuno Álvares Pereira, que seria formalmente libertado ainda antes do final desse mês de Dezembro de 1964, a observar algumas das sessões de interrogatórios.”

(…)

“Só a organização estudantil de Coimbra pôde escapar praticamente incólume a esta enorme vaga repressiva. O seu responsável, Valentim Alexandre, mantinha contacto com Nuno Álvares Pereira, para efeitos de coordenação nacional do movimento estudantil, mas “Vieira”, como Valentim era conhecido no PCP, apesar da insistência nunca quisera revelar o nome dos poucos militantes organizados no sector em Coimbra.”

“A traição de Nuno Álvares Pereira foi tão longe quanto pôde. Não foi só – e era tanto! – a organização estudantil. Revelou as quantidades de imprensa clandestina – setecentos exemplares do Avante – que nesse ano eram distribuídos na Academia de Lisboa, endereços em Paris para onde se devia comunicar, a partir do interior do país, a composição e funções da célula criada para intervir junto dos estudantes oriundos das colónias que gravitavam em torno da CEI., Casa dos Estudantes do Império, os comités por onde, mesmo que esporadicamente, passou. Forneceu listas de militantes e ex-militantes que estavam em discordância com a linha política do PCP e se aproximavam da FAP, Frente de Acção Popular, criada por dissidência do partido, bem como relatou ou esclareceu a partir de documentos que tinha na sua posse, o posicionamento de vários quadros em relação ao debate político e ideológico que a propósito desta dissidência se travou no partido.”

“Também do ponto de vista da estratégia política para a intervenção no movimento estudantil esclareceu longamente sobre as principais reivindicações a desenvolver, o papel das diferente estruturas legais, desde as Associações e Pró-Associações à RIA e à CEI ou a propósito do lançamento de Comissões de Apoio à libertação dos estudantes presos.”

“Na Universidade de Lisboa tratou-se de um verdadeiro terramoto. A estrutura estudantil do PCP desabou, gorando-se anos de trabalho persistente, de alargamento, de reforço de influência política, precisamente por efeito das denúncias de um dos que, tendo trabalhado praticamente desde o início nessa construção, a renegou completamente.”

“A situação tornara-se particularmente grave porque decapitava o movimento etudantil numa altura em que se começava a ultrapassar uma certa ressaca resultante da forma como se encerrara a crise académica de 1962.”

 

(1) – A partir de 1968, a hegemonia do PCP sobre os estudantes passa a ser progressivamente sempre mais disputada até 1974. Efeitos dos ecos de Maio de 68 em França, a repugnância pela invasão de Praga pelo Pacto de Varsóvia, o cisma sino-soviético, as erupções do trotsquismo, do guevarismo e dos “católicos progressistas”.

 

(2) – Segundo notícia do último “Avante”. Nela pode ler-se:

“O dirigente do PCP [Albano Nunes] chamou a atenção para aqueles que, tendo rompido com valores e ideais, invoquem a sua participação no movimento estudantil antifascista, muitas vezes na condição de membros do Partido, «para fins de promoção pessoal e, pior ainda, para dar cobertura de “esquerda” a políticas que têm afinal o mesmo sinal de classe (os interesses do grande capital) daquelas que então combateram».”

(…)

“Da «crise académica» de 1962, acentuou o dirigente do PCP [Albano Nunes], há «certamente dirigentes e activistas, comunistas e não comunistas, que foram protagonistas destacados, com méritos individuais próprios». Méritos que, não sendo lícito apagar, seria «inapropriado» exagerar, até porque «não poucos mudaram entretanto de campo e negam hoje valores que então os colocaram nas primeiras linhas da luta».”

 

(3) – Albano Nunes foi militante comunista e dirigente estudantil em 1962 e alguns anos seguintes (conheci-o, e com ele reuni e trabalhei no movimento estudantil, quando ele foi, por algum tempo, Secretário-Geral da RIA, após Medeiros Ferreira). Depois, passou à clandestinidade como funcionário do PCP, onde se manteve até 1974 (sem nunca ser preso pela PIDE). É actualmente dirigente do escalão máximo do PCP, sendo seu orientador espiritual sobre o “internacionalismo proletário” do nosso tempo, advogando uma aliança revolucionária do PCP com Cuba, Chavez e o fundamentalismo muçulmano para derrubar o imperialismo e o capitalismo.

 

(4) – No livro “Vítimas de Salazar”, João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha, Edições “a esfera dos livros”.

 

Imagem: Sede central da PIDE em Lisboa, Rua António Maria Cardoso (ao Chiado).

Publicado por João Tunes às 19:04
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